Cientistas identificam hormona da placenta como causa dos enjoos na gravidez

A hiperémese afeta entre 0,3% e 2% das grávidas, causando vómitos prolongados que podem resultar em desidratação e perda de peso.
Nada sabemos sobre o papel da GDF15 na gravidez normal
A obstetra Catherine Williamson alerta para as lacunas no conhecimento antes de avançar com tratamentos.
Mark

Então, se a GDF15 tem uma função protetora — evitar que as mulheres comam coisas tóxicas — por que razão alguns corpos a interpretam como um sinal de "vomita agora"?

Mimi

Porque nem todos os corpos reagem da mesma forma. Algumas mulheres têm recetores cerebrais que são muito sensíveis a essa hormona, e para elas o sinal é amplificado. É como o volume estar muito alto.

Luke

Mas o estudo não explica por que essa sensibilidade varia de mulher para mulher. É genética? Ambiental? Ainda não sabemos.

Mark

E quanto aos tratamentos — parecem reais ou ainda estão muito longe?

Mimi

Os testes em ratinhos foram promissores. A ideia é que se uma mulher receber GDF15 antes de engravidar, o seu corpo fica "habituado" e não reage tão dramaticamente quando os níveis sobem durante a gravidez.

Luke

Mas isso foi testado em animais. Em humanos, ainda não. E há um problema maior: se bloquearem a GDF15 ou os seus recetores, podem estar a remover uma proteção que o feto precisa.

Mark

Portanto, é um equilíbrio delicado.

Mimi

Exatamente. A hormona existe por uma razão. Não é só um efeito colateral desagradável — é um mecanismo de defesa.

Luke

E a investigadora de Londres deixa isso bem claro: não sabemos ainda qual é o papel completo da GDF15 numa gravidez normal. Antes de oferecer um tratamento, precisamos de entender isso.

  • A hiperémese gravídica — forma severa de enjoos na gravidez — pode causar desidratação e perda de peso em até 2% das grávidas, mas até agora não havia explicação biológica clara para a sua origem.
  • Investigadores de Cambridge identificaram a hormona GDF15, produzida em grandes quantidades pela placenta nos primeiros meses, como o gatilho direto das náuseas ao ligar-se a recetores cerebrais.
  • A chave não é apenas a hormona, mas a sensibilidade de cada mulher: aquelas com níveis naturalmente elevados de GDF15 antes de engravidar sofrem muito menos enjoos, sugerindo um efeito de dessensibilização.
  • Testes em animais mostram que a administração prévia de GDF15 pode proteger contra os sintomas, enquanto o bloqueio dos seus recetores surge como outra via terapêutica em investigação.
  • Especialistas alertam que ainda se desconhece o papel completo da GDF15 na gravidez saudável, pelo que qualquer tratamento exigirá cautela e mais investigação antes de chegar às clínicas.

Durante milénios, as náuseas da gravidez foram tratadas como um mistério inevitável do corpo feminino. Agora, um estudo publicado na revista Nature revela que uma hormona produzida pela placenta — a GDF15 — e a sensibilidade individual de cada mulher a ela determinam a intensidade dos enjoos, abrindo pela primeira vez um caminho científico concreto para a prevenção e o tratamento de uma condição que afeta milhões de grávidas em todo o mundo.

Nem todas as grávidas sofrem enjoos com a mesma intensidade: algumas atravessam os primeiros meses quase sem sintomas, enquanto outras enfrentam vómitos tão severos que perdem peso e arriscam desidratação. Um estudo publicado na Nature veio finalmente explicar esta disparidade, apontando a hormona GDF15 — produzida pela placenta em quantidades crescentes durante o primeiro trimestre — como a responsável, e a sensibilidade individual de cada mulher a essa hormona como o fator decisivo.

A GDF15 existe no organismo em pequenas quantidades em condições normais, mas durante a gravidez os seus níveis disparam. Ao ligar-se a recetores cerebrais, desencadeia náuseas e vómitos. Mulheres com maior sensibilidade podem desenvolver hiperémese, condição que afeta entre 0,3% e 2% das grávidas. Em sentido inverso, mulheres que já apresentam níveis elevados desta hormona antes de engravidar — como acontece com portadoras de certas condições sanguíneas — registam muito menos enjoos: apenas 5% relatou sintomas, muito abaixo da média que supera os 60%.

Stephen O'Rahilly, investigador da Universidade de Cambridge e coautor do estudo, explica que a hormona tem uma função protetora: impedir que a grávida ingira substâncias potencialmente tóxicas para o feto. Com base nesta lógica, os investigadores propõem que administrar GDF15 antes da gravidez possa funcionar como dessensibilizador. Em testes com ratinhos, os animais pré-expostos à hormona não mostraram perda de peso nem redução de ingestão alimentar quando posteriormente expostos a ela, ao contrário do grupo de controlo.

Outra abordagem passa pelo bloqueio da hormona ou dos seus recetores através de anticorpos. Porém, a obstetra Catherine Williamson, do Imperial College London, adverte que ainda pouco se sabe sobre o papel da GDF15 numa gravidez normal, pedindo cautela antes de avançar para tratamentos. A identificação da hormona representa, ainda assim, um ponto de viragem histórico na compreensão de um sintoma que acompanha a humanidade há tanto tempo quanto a própria maternidade.

Nem todas as mulheres grávidas sofrem de enjoos com a mesma intensidade. Algumas passam pelos primeiros meses praticamente ilesas; outras enfrentam vómitos tão severos e prolongados que perdem peso e correm risco de desidratação. Um estudo publicado na revista Nature identificou agora o culpado: uma hormona produzida pela placenta chamada GDF15, e mais especificamente, a sensibilidade individual de cada mulher a essa hormona.

A descoberta é simples em aparência, mas tem implicações profundas. A GDF15 é uma substância que o corpo produz em pequenas quantidades em órgãos como a próstata, bexiga e rins. Durante a gravidez, a placenta também a produz, e os seus níveis aumentam drasticamente nos primeiros meses. Quando essa hormona se liga aos recetores cerebrais, desencadeia náuseas e vómitos. O problema não é a hormona em si — é o quão sensível cada mulher é a ela. Mulheres com maior sensibilidade à GDF15 podem desenvolver hiperémese, uma condição que afeta entre 0,3% e 2% das grávidas e é caracterizada por vómitos abundantes e prolongados. Mulheres com níveis já elevados de GDF15 antes de engravidar, por outro lado, registam poucos enjoos durante a gravidez.

Stephen O'Rahilly, investigador na área do metabolismo na Universidade de Cambridge e coautor do estudo, explica que a hormona tem uma função protetora: evitar que as mulheres ingiram substâncias tóxicas que possam prejudicar o feto. "Nós temos agora uma visão clara do que pode causar este problema e o percurso para tanto o tratamento como para a prevenção", afirma. O investigador sublinha que não é necessário aumentar a quantidade de comida nos primeiros meses de gravidez, mas sim ser cuidadoso com o que se come para proteger o feto das toxinas.

A identificação da hormona abre portas a possíveis tratamentos. Os autores do estudo sugerem que administrar GDF15 antes da gravidez pode funcionar como um dessensibilizador, reduzindo o risco de desenvolver hiperémese. Testes realizados em animais mostraram resultados promissores: quando ratinhos receberam uma forma de longa duração de GDF15, não registaram alterações de peso ou redução de ingestão alimentar quando posteriormente expostos à hormona. Um grupo de controlo que recebeu placebo, por sua vez, mostrou diminuição de peso e redução de alimento ingerido. Os investigadores também questionaram mulheres que, devido a uma condição sanguínea, vivem com níveis elevados de GDF15 naturalmente. Apenas 5% afirmou ter sentido náuseas e vómitos durante a gravidez — uma percentagem muito abaixo da média, que ultrapassa os 60%.

Outra abordagem em estudo passa pela administração de anticorpos que bloqueiem a GDF15 ou os seus recetores. Contudo, esta possibilidade levanta questões importantes. Catherine Williamson, obstetra e investigadora na Imperial College London, alerta que "nada sabemos sobre o papel da GDF15 na gravidez normal". É cedo ainda para apontar um tratamento concreto, mas a identificação da hormona marca um ponto de viragem na compreensão de um sintoma que afeta milhões de mulheres grávidas em todo o mundo.

Nós temos agora uma visão clara do que pode causar este problema e o percurso para tanto o tratamento como para a prevenção
— Stephen O'Rahilly, investigador na Universidade de Cambridge
Nada sabemos sobre o papel da GDF15 na gravidez normal
— Catherine Williamson, obstetra na Imperial College London
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