Não perder a capacidade de diálogo sem comprometer a credibilidade exige destreza
Assessor de Lula adverte sobre risco de ampliação do conflito para além dos atores diretos envolvidos no Oriente Médio. Irã historicamente fornece armamento para grupos xiitas e radicais em outros países, aumentando potencial de propagação da crise.
- Celso Amorim alertou em 2 de março que Brasil deve se preparar para agravamento do conflito Irã-EUA-Israel
- Irã historicamente fornece armamento para grupos xiitas e radicais em vários países
- Lula deve viajar a Washington entre 15 e 17 de março para encontro com Trump
Celso Amorim alerta que Brasil deve se preparar para agravamento do conflito entre Irã, EUA e Israel, alertando para risco de alastramento regional e complexidade diplomática antes de encontro Lula-Trump.
Celso Amorim, assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, saiu do silêncio nesta segunda-feira com um aviso direto: o Brasil precisa estar pronto para o pior. Em entrevista à GloboNews, o diplomata descreveu o Oriente Médio como um barril de pólvora, onde a tensão entre Irã, Estados Unidos e Israel pode explodir em qualquer momento, levando consigo países e grupos armados que hoje permanecem nas margens do conflito.
O tom de Amorim foi grave e sem rodeios. Quando perguntado sobre o cenário que mais o preocupa, ele não hesitou: "O aumento vertiginoso das tensões no Oriente Médio, com grande potencial de alastramento." A preocupação não é apenas com os três atores principais. O Irã, historicamente, fornece armas para grupos xiitas espalhados por vários países, além de organizações radicais. Se o conflito se expandir, essas redes podem se ativar, transformando uma crise regional em algo muito maior.
O assessor também tocou em um ponto que o deixa particularmente incomodado: a morte de líderes em exercício. "Ninguém é juiz do mundo. Matar um líder de um país, que está em exercício, é condenável e inaceitável", disse, deixando claro que o Brasil vê a escalada como uma violação de normas internacionais básicas. Amorim indicou que ainda conversaria com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre o tema naquele mesmo dia, sugerindo que os dois ainda não tinham aprofundado a discussão.
O timing da fala de Amorim não é casual. O Brasil espera receber uma visita de Lula a Washington entre 15 e 17 de março, quando o presidente se encontrará com Donald Trump. A confirmação oficial ainda não saiu, mas Trump já sinalizou que adoraria receber o brasileiro na capital norte-americana. É neste contexto que Amorim revelou a verdadeira dificuldade do momento: manter a credibilidade sem perder o diálogo. "Estamos a poucos dias do encontro do presidente com Trump, em Washington. É sempre difícil encontrar o equilíbrio entre a verdade e a conveniência. Não perder a capacidade de diálogo sem comprometer a credibilidade exige destreza", afirmou.
O governo brasileiro já havia se posicionado publicamente. No sábado anterior, o Ministério das Relações Exteriores divulgou uma nota classificando a escalada no Oriente Médio como uma grave ameaça à paz global. O país também manifestou solidariedade aos atingidos por ataques retaliatórios iranianos e pediu o fim das ações militares na região do Golfo. Mas o alerta de Amorim vai além das declarações oficiais: é um chamado para que o Brasil se prepare, internamente, para consequências que podem chegar muito além das fronteiras do Oriente Médio.
Notable Quotes
O aumento vertiginoso das tensões no Oriente Médio, com grande potencial de alastramento— Celso Amorim, assessor especial da Presidência
Ninguém é juiz do mundo. Matar um líder de um país, que está em exercício, é condenável e inaceitável— Celso Amorim
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que Amorim escolheu falar agora, especificamente, sobre esse risco de alastramento?
Porque a situação mudou. Não é mais uma crise contida entre três atores. Há sinais de que o conflito está se expandindo, e o Brasil precisa estar atento às consequências globais.
Qual é a maior preocupação dele com a rede de grupos xiitas que o Irã financia?
Se o conflito se expande, essas redes podem ser ativadas simultaneamente em vários países. Não é só sobre o Oriente Médio mais. É sobre instabilidade em cascata.
E por que ele insistiu tanto no equilíbrio entre verdade e conveniência?
Porque Lula vai encontrar Trump em dias, e Trump é impredizível. O Brasil não pode parecer fraco ou oportunista, mas também não pode alienar potenciais aliados. É uma corda bamba diplomática.
Amorim realmente acredita que o Brasil pode fazer diferença nessa crise?
Não é sobre fazer diferença sozinho. É sobre estar preparado, manter canais abertos, e não ser apanhado de surpresa quando as coisas piorarem.
O que significa "se preparar para o pior" na prática?
Significa contingenciamento econômico, diplomático, de segurança. Significa não ser ingênuo sobre o que pode vir.