O banco não irá quebrar
A governadora do DF apresentou ao BC detalhes técnicos sobre recuperação do BRB, que sofreu prejuízo bilionário em operações com ativos do Banco Master. O GDF, controlador do banco, está autorizado a obter empréstimo de até R$ 6,6 bilhões e busca R$ 4 bilhões junto ao FGC para divulgar balanço menos crítico.
- Rombo bilionário do BRB ligado a operações com ativos do Banco Master
- Lei autoriza empréstimo de até R$ 6,6 bilhões para capitalização do banco
- BRB busca R$ 4 bilhões junto ao Fundo Garantidor de Crédito
- Doze gestores afastados da administração anterior
- Auditoria forense em andamento para apurar real prejuízo
Celina Leão se reuniu com o presidente do BC e garantiu apresentar solução definitiva para o Banco de Brasília em 30 dias, afirmando que a instituição não quebrará apesar do rombo bilionário.
Celina Leão saiu de uma sala em São Paulo com uma promessa que o Distrito Federal inteiro estava esperando ouvir. A governadora havia passado a tarde com Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, discutindo o que ninguém queria dizer em voz alta: o Banco de Brasília estava à beira do colapso, com um rombo bilionário aberto por operações fracassadas com ativos do Banco Master. Quando os dois terminaram a conversa, Leão tinha uma resposta para dar. Em trinta dias, disse ela aos jornalistas, haveria uma solução definitiva. O banco não quebraria.
Era uma declaração que precisava ser feita com cuidado. Leão havia assumido o governo do Distrito Federal recentemente, e o BRB era seu problema agora — não apenas como instituição financeira importante, mas como responsabilidade direta do estado que ela governava. O GDF era o controlador acionário do banco, o que significava que a crise era, em última análise, sua crise. Na reunião com Galípolo, ela apresentou os detalhes técnicos do que seu governo estava fazendo para recuperar a instituição. Passou ao presidente do BC tudo aquilo que havia sido acordado anteriormente, tudo aquilo que o banco deveria cumprir. "Nós estamos cumprindo fielmente aquilo que estava acordado", disse ela, deixando claro que não havia abandono, não havia negligência — havia um plano.
Esse plano tinha números específicos. Em março, o governo do Distrito Federal havia sancionado uma lei que autorizava o GDF a tomar medidas emergenciais para recompor o patrimônio do banco. A lei permitia um empréstimo de até seis bilhões e seiscentos milhões de reais, obtido junto ao Fundo Garantidor de Crédito ou outras instituições, com imóveis oferecidos como garantia. Nove propriedades foram listadas para esse fim, embora Leão tivesse retirado uma delas — a Gleba A, da Serrinha do Paranoá — da lista de garantias. Mas havia outro número que importava mais: o BRB estava correndo para obter quatro bilhões de reais junto ao FGC. Esse dinheiro era crucial não apenas para salvar o banco, mas para permitir que ele divulgasse um balanço que não parecesse apocalíptico, um balanço que mostrasse perspectiva de salvação.
O problema era que o balanço ainda não havia sido divulgado. No final de março, quando o prazo chegou, o BRB não conseguiu apresentar as contas. O presidente da instituição, Nelson Antônio de Souza, explicou que estavam aguardando os resultados de uma auditoria forense que apontaria o real tamanho do prejuízo causado pela compra dos ativos do Banco Master. Enquanto isso, a crise se aprofundava. Leão havia afastado doze gestores do banco que estavam ligados à administração anterior, aquela que havia feito os negócios desastrosos com o Banco Master. Eram diretores e superintendentes que precisavam sair para que a nova gestão pudesse começar do zero.
Mas Leão não estava contando apenas com o Banco Central. Ela havia marcado várias reuniões em Faria Lima, o coração financeiro de São Paulo, buscando soluções privadas para a crise. Também havia conversado com Dario Durigan, ministro da Fazenda, sobre a possibilidade de um aporte federal que ajudasse a equilibrar as contas do banco. Nada havia sido definido ainda. Quando perguntada sobre a necessidade de dinheiro federal, Leão respondeu com pragmatismo: "O diálogo é o que pode ultrapassar qualquer tipo de barreira contrária". Ela não sabia se o governo federal faria um aporte, se havia necessidade real disso, mas acreditava que o diálogo entre as instituições era o caminho. "Se não atrapalhar, já ajuda muito", disse ela.
O que Leão estava fazendo, essencialmente, era comprar tempo. Trinta dias para que a auditoria forense terminasse, para que o FGC aprovasse o empréstimo de quatro bilhões, para que um balanço menos catastrófico pudesse ser divulgado. Trinta dias para que as conversas em Faria Lima e com o governo federal produzissem algum resultado. Trinta dias para que a narrativa mudasse de "o banco está quebrando" para "o banco está se recuperando". Era uma aposta de que, com diálogo, com técnica, com os números certos, a instituição que havia sido criada para servir Brasília pudesse ser salva. Mas tudo dependia de cumprir aquela promessa feita em São Paulo.
Notable Quotes
Nós estamos cumprindo fielmente aquilo que estava acordado. O BRB tem toda a condição de cumprir aquilo que estava previamente acordado com o Banco Central— Celina Leão, governadora do Distrito Federal
O diálogo é o que pode ultrapassar qualquer tipo de barreira contrária. Se não atrapalhar, já ajuda muito— Celina Leão, sobre possível aporte federal
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que a governadora precisava se reunir pessoalmente com o presidente do Banco Central? Não poderia ter sido uma ligação?
Porque quando um banco está à beira do colapso, as pessoas precisam olhar nos olhos uma da outra. Galípolo precisava ver que havia uma gestora nova, competente, disposta a resolver o problema. Não era apenas passar informações — era restaurar confiança.
Ela disse que o banco não quebraria. Como ela pode ter tanta certeza?
Ela não tem certeza. O que ela tem é um plano: quatro bilhões do FGC, possível aporte federal, imóveis como garantia, uma auditoria em andamento. Ela está dizendo ao mercado que há um caminho. A certeza vem depois, se tudo funcionar.
Por que afastar doze gestores? Não seria melhor mantê-los para continuidade?
Porque eles estavam ligados aos negócios que quebraram o banco. Você não reconstrói confiança mantendo as mesmas pessoas que causaram o desastre. É um sinal de ruptura, de que as coisas vão ser diferentes.
E se a auditoria forense mostrar que o prejuízo é ainda maior do que se imagina?
Então os trinta dias não serão suficientes. Mas Leão está apostando que o número será ruim, mas não catastrófico — ruim o bastante para ser real, mas não tão ruim que não possa ser resolvido com os recursos que ela está mobilizando.
O governo federal ainda não decidiu se faz aporte. Como ela consegue fazer promessas sem isso?
Porque o aporte federal é um plano B. O plano A é o FGC, Faria Lima, os imóveis como garantia. Se tudo isso funcionar, talvez não precise de dinheiro federal. Se não funcionar, aí sim ela volta ao governo federal com números reais na mão, não com suposições.