Há histórias de migração que não se resolvem em uma travessia, mas em anos de espera e preparo silencioso. Mayara da Rosa, catarinense que trocou uma fábrica de roupas de cama por estradas europeias, levou quatro anos entre habilitações, cursos e documentos antes de poder dirigir profissionalmente um caminhão na Europa. Ela e o marido operam hoje em dupla em rotas internacionais, vivendo semanas inteiras dentro de uma cabine — uma conquista que carrega, em cada quilômetro rodado, o peso de tudo que foi necessário percorrer antes mesmo de partir.
Catarinense leva 4 anos de documentos e cursos para virar caminhoneira na Europa
Quatro anos separaram a chegada à Europa do trabalho com caminhões
Por que levou exatamente quatro anos? Havia algo específico que atrasava o processo, ou era simplesmente a sequência de requisitos?
Não era um único obstáculo. Era preciso obter cada habilitação em sequência, passar por cursos, conseguir documentação específica de cada país. Tudo isso enquanto trabalhava em outro emprego para se sustentar. Não era possível fazer tudo de uma vez.
E quando finalmente começou a trabalhar com caminhões, o que foi mais chocante?
Acho que a combinação de tudo. As jornadas longas não são novidade em transporte, mas dormir durante o dia enquanto o caminhão está em movimento, em um espaço minúsculo, com outra pessoa — isso é diferente. E saber que isso vai se repetir por 20 dias seguidos.
Vocês falam sobre as estradas europeias serem melhores. Isso compensa o resto?
Compensa em segurança, talvez. Menos buracos, menos surpresas. Mas uma estrada boa não resolve o problema de estar longe de casa por três semanas, ou de tentar dormir quando o corpo quer estar acordado.
A barreira linguística parece ser um problema real, não apenas um incômodo.
É. Quando você precisa manobrar um caminhão em um espaço apertado e não consegue se comunicar claramente com quem está guiando você, fica perigoso. Tradutores ajudam, mas não são a mesma coisa que uma conversa direta.
Você diria que valeu a pena? Quatro anos de espera para chegar a isso?
Valeu por estar trabalhando, por estar com meu marido, por estar na Europa. Mas não vou mentir dizendo que é fácil. É um trabalho que exige muito do corpo e da mente.
Il Polso
- Quatro anos separaram a chegada à Europa do primeiro dia de trabalho profissional como caminhoneira — um intervalo preenchido por burocracia, cursos e empregos provisórios.
- A operação em dupla permite jornadas de até 21 horas consecutivas, mas impõe 20 dias seguidos longe de casa, dormindo na cabine e reorganizando o sono para horários noturnos.
- Neve, acessos estreitos, congestionamentos e barreiras linguísticas transformam cada entrega em uma negociação prática com o inesperado.
- A qualidade das rodovias europeias oferece algum alívio, mas não elimina o desgaste físico e psicológico de uma rotina que desafia os ritmos naturais do corpo.
Há histórias de migração que não se resolvem em uma travessia, mas em anos de espera e preparo silencioso. Mayara da Rosa, catarinense que trocou uma fábrica de roupas de cama por estradas europeias, levou quatro anos entre habilitações, cursos e documentos antes de poder dirigir profissionalmente um caminhão na Europa. Ela e o marido operam hoje em dupla em rotas internacionais, vivendo semanas inteiras dentro de uma cabine — uma conquista que carrega, em cada quilômetro rodado, o peso de tudo que foi necessário percorrer antes mesmo de partir.
Mayara da Rosa deixou Santa Catarina e um emprego em fábrica para tentar a vida na Europa ao lado do marido, Carlos Alberto Jr. O casal se estabeleceu primeiro na Espanha e depois em Portugal, mas o sonho de trabalhar no transporte rodoviário internacional não se realizou de imediato — exigiu quatro anos de preparação, entre categorias de habilitação C e C+E, o CAM e uma série de documentos obrigatórios. Carlos iniciou o processo em Portugal; Mayara, em parte, na Espanha. Nenhum dos dois estava apto a operar caminhões pesados logo após a chegada.
Depois de toda essa preparação, o casal passou a trabalhar em dupla em rotas entre países europeus. O modelo transforma a dinâmica da profissão: enquanto um dirige, o outro descansa, permitindo jornadas de até 21 horas consecutivas. A rotina típica são 20 dias seguidos na estrada, dormindo na cabine equipada com cama e ar-condicionado, seguidos de apenas três ou quatro dias em casa.
O horário noturno é um dos maiores desafios: descansar durante o dia, quando o sono é mais difícil, cobra seu preço ao longo das semanas. A isso se somam neve, congestionamentos, acessos estreitos em centros urbanos e a barreira linguística — resolvida muitas vezes com aplicativos de tradução nas etapas críticas de entrega.
Ao comparar as duas realidades, Mayara aponta a qualidade das estradas europeias como diferencial positivo, embora reconheça que isso não elimina os obstáculos do clima, do trânsito e dos acessos urbanos. O que sua trajetória revela, acima de tudo, é que entrar no transporte profissional de cargas na Europa pode levar anos — e que a fase profissional, quando finalmente chega, traz exigências próprias que testam os limites do corpo e da vida pessoal.
Mayara da Rosa deixou para trás um emprego em uma fábrica de roupas de cama em Santa Catarina. Junto com o marido, Carlos Alberto Jr., ela se mudou para a Europa em busca de novas oportunidades. O que ela não sabia era que levaria quatro anos inteiros — entre documentos, cursos, habilitações e trabalhos paralelos — antes de finalmente poder sentar ao volante de um caminhão profissionalmente.
O casal chegou primeiro à Espanha e depois se estabeleceu em Portugal. Embora conseguissem outros empregos logo após a chegada, o acesso ao transporte rodoviário internacional exigiu uma sequência rigorosa de etapas. Mayara precisou obter a categoria C de habilitação, depois a C+E, além do CAM — sigla para uma qualificação específica — e diversos outros documentos. Carlos iniciou sua preparação em Portugal enquanto Mayara realizou parte do processo na Espanha. Nenhum dos dois estava imediatamente habilitado para assumir operações de transporte pesado internacional, apesar de já estarem vivendo na Europa.
Depois de quatro anos de preparação, ambos finalmente começaram a trabalhar juntos no transporte de cargas entre países europeus. O modelo operacional em dupla mudou completamente a dinâmica do trabalho. Enquanto um motorista dirige, o outro descansa, permitindo que o caminhão permaneça em movimento por períodos muito mais longos. Cada condutor pode dirigir até nove horas, mas a operação em dupla alcança jornadas próximas de 21 horas consecutivas. A rotina típica envolve aproximadamente 20 dias seguidos na estrada, dormindo dentro da cabine do caminhão, seguidos por apenas três ou quatro dias em casa.
A cabine onde vivem durante essas semanas longas possui cama, ar-condicionado e recursos básicos para enfrentar os invernos e verões europeus. Mesmo assim, o horário se tornou uma das dificuldades mais relevantes. Como grande parte dos deslocamentos ocorre à noite, o descanso frequentemente precisa acontecer durante o dia, quando dormir adequadamente se torna consideravelmente mais difícil. A convivência prolongada em um espaço limitado, enfrentando madrugadas em atividade e reorganizando o sono para horários que não coincidem com o ritmo natural do corpo, traz seu próprio desgaste.
Os obstáculos práticos da profissão vão além das jornadas. Mayara enfrenta neve, congestionamentos intensos e acessos estreitos em cidades e áreas de carga que parecem incompatíveis com o tamanho de um caminhão. A barreira linguística também complica a rotina logística. Embora ela e Carlos falem português e espanhol com conhecimentos básicos de inglês, em muitos locais precisam recorrer a aplicativos de tradução ou formas improvisadas de comunicação, especialmente nas etapas críticas de entrega e acesso aos destinos.
Ao comparar sua experiência europeia com a realidade brasileira, Mayara destaca principalmente a qualidade das estradas. As rodovias utilizadas no trabalho europeu costumam apresentar boas condições, embora isso não elimine os desafios relacionados ao clima, ao trânsito e aos acessos urbanos. Essa observação vem de alguém que trabalha regularmente em rotas internacionais, não de uma análise estatística formal.
O que permanece claro, além dos detalhes pessoais da história, é uma questão fundamental sobre o mercado de trabalho e a logística: entrar no transporte profissional de cargas na Europa exigiu, neste caso, anos de preparação antes da primeira operação com caminhão. As categorias de habilitação, o CAM, os documentos e os cursos foram apenas o começo. A fase profissional trouxe sua própria exigência: longos períodos consecutivos em rotas internacionais, longe de casa, em um espaço compartilhado com outra pessoa, durante jornadas que testam os limites do corpo humano.
Citazioni salienti
As rodovias utilizadas no trabalho europeu costumam apresentar boas condições, embora isso não elimine desafios relacionados ao clima, ao trânsito e aos acessos urbanos— Mayara da Rosa, caminhoneira catarinense