Casos de puberdade precoce mais que dobraram durante a pandemia de covid-19

Crianças afetadas enfrentam consequências físicas como restrição de crescimento e psicológicas relacionadas ao amadurecimento precoce.
Uma criança ainda não está preparada para lidar com essas mudanças
Pediatra explica o impacto emocional da puberdade precoce nas crianças durante a pandemia.
Mark

Por que a pandemia especificamente teria causado esse aumento tão dramático? Não era um problema que já existia?

Mimi

Existia, sim, mas a pandemia concentrou vários fatores ao mesmo tempo. Crianças ficaram em casa, ganharam peso, se movimentavam menos, passavam horas nas telas. Cada um desses elementos isolado já está associado a puberdade mais precoce.

Mark

E quanto aos produtos químicos que você mencionou — BPA, ftalatos? Isso é novo?

Mimi

Não é novo, mas a pandemia pode ter aumentado a exposição. Mais tempo em casa significa mais uso de plásticos, mais alimentos embalados. Além disso, esses disruptores endócrinos estão em toda parte — não é algo que começou na pandemia, mas a combinação de fatores a intensificou.

Mark

Qual é o risco real para uma criança que entra em puberdade precoce? Além de ficar mais baixa?

Mimi

Além da restrição de crescimento, há riscos de saúde a longo prazo como câncer de mama. Mas o impacto psicológico é igualmente grave. Uma criança de sete anos menstruando não tem ferramentas emocionais para lidar com isso.

Mark

E o tratamento? É seguro bloquear hormônios em uma criança?

Mimi

O bloqueio hormonal é feito sob supervisão rigorosa de um endocrinologista pediátrico. Não é uma decisão tomada levianamente. Primeiro avaliam tudo — crescimento, idade óssea, hormônios, maturidade emocional. Só então decidem se é necessário intervir.

Mark

Os pais podem fazer algo para prevenir isso?

Mimi

Podem tentar reduzir a exposição a telas, incentivar atividade física, manter uma alimentação saudável. Mas não há uma solução simples. É uma combinação de fatores genéticos e ambientais que ninguém controla completamente.

  • Os casos de puberdade precoce mais que dobraram em um único ano em hospital de referência em Roma, confirmando o que pediatras já suspeitavam em suas práticas diárias.
  • O amadurecimento antecipado não é apenas biológico — restringe o crescimento final, eleva riscos de câncer de mama e impõe a crianças transformações emocionais para as quais ainda não estão preparadas.
  • Sedentarismo, ganho de peso, noites mal dormidas por excesso de telas e exposição a substâncias químicas presentes em plásticos e pesticidas formam um coquetel de fatores que convergiram durante o isolamento.
  • Médicos alertam que o broto mamário em meninas e o aumento testicular em meninos são sinais que exigem consulta imediata, pois o diagnóstico precoce abre caminho para tratamentos individualizados.
  • Quando necessário, o bloqueio hormonal — aplicado em injeções mensais e monitorado por endocrinologista pediátrico — pode interromper o processo e preservar o desenvolvimento saudável da criança.

Durante os anos de isolamento pandêmico, algo silencioso aconteceu nos corpos de milhares de crianças ao redor do mundo: a puberdade começou a chegar antes do tempo. Dados do Hospital Infantil Bambino Gesù, em Roma, revelaram que os casos de puberdade precoce mais que dobraram entre 2019 e 2020, passando de 118 para 246 registros. O fenômeno, já documentado há décadas, parece ter sido intensificado por uma convergência de fatores — sedentarismo, ganho de peso, exposição a telas e disruptores endócrinos — que a pandemia reuniu de forma inédita. A ciência ainda busca compreender plenamente essa aceleração, mas o alerta já chegou aos consultórios: o corpo infantil está respondendo ao mundo que construímos ao redor dele.

Durante a pandemia de covid-19, pediatras e endocrinologistas ao redor do mundo começaram a notar algo perturbador: crianças entrando na puberdade mais cedo do que o esperado. O fenômeno não era novo, mas a pandemia parecia tê-lo acelerado de forma dramática.

Médicos do Hospital Infantil Bambino Gesù, em Roma, decidiram investigar com números. Comparando seus registros de 2019 e 2020, encontraram algo alarmante: os casos de amadurecimento precoce mais que dobraram em doze meses — de 118 para 246. O estudo, ainda preliminar, confirmava o que profissionais de saúde observavam diariamente.

O desenvolvimento sexual precoce traz consequências físicas e psicológicas sérias. Ele acelera o fechamento das cartilagens responsáveis pelo crescimento, limitando a altura final da criança, e pode aumentar o risco de câncer de mama a longo prazo. Igualmente grave é o impacto emocional: crianças cujos corpos mudam rapidamente frequentemente não possuem maturidade para lidar com essas transformações.

Os cientistas têm pistas sobre o que teria intensificado o processo durante a pandemia. O isolamento levou crianças a ganhar peso, tornar-se sedentárias e passar mais horas diante de telas — o que interfere na produção de melatonina e no ciclo do sono, hormônio associado à antecipação da puberdade. Substâncias presentes em plásticos, como BPA e ftalatos, além de pesticidas, atuam como disruptores endócrinos, desencadeando mudanças hormonais. Segundo a pediatra Débora Kalman, do Hospital Israelita Albert Einstein, o que se observa é uma combinação de fatores — genética, ambiente, obesidade e desenvolvimento fetal — que convergiram simultaneamente durante a pandemia.

Pais devem estar atentos ao surgimento do broto mamário em meninas e ao aumento testicular em meninos, sinais que justificam consulta médica. O tratamento é individualizado: médicos avaliam crescimento, idade óssea, níveis hormonais e maturidade emocional antes de decidir entre observação ou bloqueio hormonal. Quando indicado, esse bloqueio é feito por injeções mensais, acompanhadas por um endocrinologista pediátrico.

Pediatras e endocrinologistas em consultórios ao redor do mundo começaram a notar algo perturbador durante a pandemia de covid-19: crianças estavam entrando na puberdade mais cedo. O fenômeno não era inteiramente novo — a antecipação da puberdade vinha sendo documentada há décadas — mas a pandemia parecia ter acelerado o processo de forma dramática.

Médicos do Hospital Infantil Bambino Gesù, em Roma, decidiram investigar essa impressão com números. Compararam seus registros de 2020 com o ano anterior à pandemia e encontraram algo alarmante: os casos de amadurecimento precoce mais que dobraram em um período de doze meses. Em 2019, a unidade de endocrinologia do hospital havia registrado 118 casos. Em 2020, esse número saltou para 246. Embora o estudo fosse preliminar, ele confirmava o que profissionais de saúde estavam observando em suas práticas diárias.

O desenvolvimento sexual precoce não é simplesmente uma questão de crescer rápido demais. Nas meninas, os primeiros sinais costumam ser o surgimento do broto mamário — aquela pequena protuberância sob a aréola — seguido de aumento do volume das mamas. Em cerca de 15% delas, o primeiro sinal é o aparecimento de pelos pubianos. Nos meninos, o aumento dos testículos marca o início, geralmente seguido seis meses depois pelo crescimento do pênis e pelos pubianos. Considera-se precoce quando essas mudanças ocorrem antes dos oito anos nas meninas e antes dos nove nos meninos.

As consequências dessa antecipação são tanto físicas quanto psicológicas. O amadurecimento precoce acelera o fechamento das cartilagens epifisárias — a parte do osso responsável pelo crescimento — o que restringe a altura final que a criança atingirá na vida adulta. A longo prazo, também pode aumentar riscos de problemas de saúde como câncer de mama. Mas talvez igualmente importante seja o impacto emocional. Uma criança cujo corpo está mudando rapidamente muitas vezes não possui a maturidade psicológica para lidar com essas transformações. Para meninas, começar a menstruar traz desconforto físico e emocional que uma criança mais jovem pode não estar preparada para enfrentar.

Os cientistas ainda não entendem completamente por que a pandemia teria intensificado esse processo, mas têm pistas sólidas. Durante o isolamento, crianças ganharam peso, tornaram-se mais sedentárias e passaram mais tempo em frente a telas. A exposição prolongada a eletrônicos não apenas estimula a inatividade física, mas também interfere no ciclo da melatonina, o hormônio que regula o sono e que também está associado à antecipação da puberdade. Além disso, há décadas especula-se que o aumento da obesidade e a exposição a certos produtos químicos estejam acelerando o desenvolvimento sexual. Substâncias presentes em plásticos, como o BPA e os ftalatos, além de pesticidas, funcionam como disruptores endócrinos — capazes de desencadear mudanças hormonais no corpo.

Mas não existe uma causa única. Segundo a pediatra Débora Kalman, do Hospital Israelita Albert Einstein, o que se observa é uma combinação de fatores trabalhando juntos. O desenvolvimento sexual também é influenciado por genética, fatores ambientais, idade dos pais, desenvolvimento fetal e até mesmo obesidade. Durante a pandemia, vários desses fatores convergiram simultaneamente.

Pais e responsáveis precisam estar atentos. O surgimento do broto mamário em meninas e o aumento do volume testicular em meninos são os maiores sinais de alerta e justificam uma consulta médica. O tratamento, quando necessário, deve ser individualizado. Os médicos precisam avaliar o crescimento geral da criança, sua idade óssea, seus níveis hormonais e sua maturidade emocional para decidir se o caso requer apenas observação ou se é necessário um bloqueio hormonal para interromper o processo. Quando indicado, esse bloqueio é realizado através de injeções intramusculares mensais, acompanhadas por um endocrinologista pediátrico que monitora a resposta do corpo e determina quanto tempo o tratamento deve continuar.

Não há uma causa única, o que temos são associações, uma combinação de fatores
— Dra. Débora Kalman, pediatra do Hospital Israelita Albert Einstein
Muitas vezes a criança ainda não está preparada para lidar com essas mudanças
— Dra. Débora Kalman, pediatra
Quer a matéria completa? Leia o original em UOL ↗
Fale Conosco FAQ