Vendas de carros elétricos triplicaram em um ano, chegando a 815 mil veículos no Brasil e representando 16% das vendas no primeiro semestre. Moradores divergem sobre quem deve pagar pela eletricidade dos carregadores e há preconceito entre quem não possui veículos elétricos, segundo administradores.
Carregadores de elétricos viram ponto de tensão em condomínios brasileiros
A estrutura todo mundo paga. A energia só paga quem vai usar.
Por que exatamente a instalação de um carregador em uma vaga individual vira uma decisão coletiva?
Porque a eletricidade que alimenta aquele carregador passa por cabos e equipamentos que fazem parte da estrutura do prédio inteiro. Se a rede não foi dimensionada para isso, você pode sobrecarregar o sistema e colocar todo mundo em risco.
Então é puramente técnico? Não há resistência ideológica?
Há sim. Muita gente que não tem carro elétrico vê isso como um privilégio que está sendo dado a alguns moradores. E há também o medo do desconhecido — as pessoas não entendem bem como funciona, então criam barreiras.
Como se resolve a questão de quem paga a eletricidade?
A maioria dos especialistas concorda que a estrutura coletiva deve ser custeada por todos, mas cada pessoa paga apenas a energia que seu carro consome. O problema é que isso exige medidores individuais, projetos, aprovações — é caro e complexo.
E os prédios antigos? Eles conseguem se adaptar?
Muitos não conseguem sem investimento pesado. Alguns precisam aumentar a energia contratada com a concessionária, instalar novos cabos, adicionar equipamentos de proteção. Para um prédio de 30, 40 anos, isso pode ser muito caro.
A segurança é realmente uma preocupação válida?
Completamente. As baterias de lítio têm características diferentes das tecnologias que os bombeiros conhecem. Incêndios em carros elétricos são mais complexos de combater. Por isso a orientação é clara: nada de improviso, tudo tem que estar dentro das normas.
Você acha que isso vai se resolver?
Vai, mas vai levar tempo. Conforme mais carros elétricos circularem, a pressão vai aumentar. Os prédios novos já estão sendo planejados para isso. Os antigos vão precisar se adaptar, e a lei já está começando a criar um marco regulatório. No fim, é inevitável.
Der Puls
- Vendas de carros elétricos triplicaram em um ano; 815 mil veículos circulam no Brasil
- Carros elétricos representaram 16% das vendas no primeiro semestre de 2026
- Lei estadual em São Paulo garante direito de instalação, mas exige aprovação em assembleia
- Prédios antigos podem precisar aumentar energia contratada com concessionária
Vendas de carros elétricos triplicaram em um ano, chegando a 815 mil veículos no Brasil e representando 16% das vendas no primeiro semestre. Moradores divergem sobre quem deve pagar pela eletricidade dos carregadores e há preconceito entre quem não possui veículos elétricos, segundo administradores.
O crescimento de veículos elétricos no Brasil traz debates acalorados em condomínios sobre instalação de carregadores, custos de energia, segurança e infraestrutura elétrica compartilhada.
A garagem de um condomínio no Rio de Janeiro com 170 apartamentos tem apenas uma estação de recarga, instalada numa vaga de visitante. Quando o assunto é expandir essa infraestrutura, a assembleia fica dividida. Moradores que possuem carros elétricos querem carregar seus veículos nas próprias vagas. Outros se preocupam com o impacto na estrutura do prédio e, principalmente, com quem vai pagar pela eletricidade consumida. A questão ressoa em condomínios por todo o país conforme a frota de veículos elétricos cresce.
O advogado especialista em direito condominial Marcio Rachkorsky ouve a mesma reclamação repetidamente nas assembleias: moradores questionam por que deveriam subsidiar a energia de um vizinho quando ninguém paga sua gasolina. A resistência, porém, vai além da conta de luz. Segundo a arquiteta Alice Camargos, boa parte da oposição vem de quem ainda não possui um veículo elétrico. A administradora Gabriela Mattos identifica outro fator: falta de informação e preconceito em relação à tecnologia. A cirurgiã-dentista Danielle Machado, moradora de um desses condomínios, reconhece que o tema é polêmico, mas vê o conflito como natural em qualquer processo de transformação.
O contexto que alimenta essa tensão é concreto. Em um ano, as vendas de carros elétricos e híbridos triplicaram no Brasil. Atualmente, mais de 815 mil desses veículos circulam pelas ruas. No primeiro semestre de 2026, representaram cerca de 16% do total de carros vendidos. Em julho, os emplacamentos de elétricos superaram os de diesel pela primeira vez. Com mais veículos desse tipo nas ruas, a forma de abastecer muda fundamentalmente. Diferentemente de um posto de combustível, a recarga exige planejamento: pode acontecer em hotéis, shoppings, supermercados, empresas ou em casa. O engenheiro eletricista Sidney Aparecido Antônio instalou um carregador em sua residência e calcula que o tempo necessário é de 25 a 30 minutos para carregar 50% da bateria. Para ele, a economia é significativa: se gastava três mil reais mensais em combustível, agora gasta quinhentos.
Para quem depende do carro para trabalhar, porém, a ausência de um carregador em casa complica a rotina. A taxista Patrícia Martins Neves trabalha há sete meses com um veículo elétrico e precisa manter a bateria carregada para atender clientes. No condomínio onde mora, ainda não há pontos de recarga. Ela e outros dois moradores com carros elétricos já conversaram com o síndico, que disse que no momento não é possível, mas que no futuro será feito. Pedem paciência e esperam.
O problema central é que, embora a vaga seja de uso individual do morador, a estrutura elétrica necessária para levar energia até ela faz parte do prédio e pode ser compartilhada por todos os condôminos. Instalar um carregador não é, portanto, apenas uma decisão pessoal. É preciso avaliar se a rede elétrica suporta os novos equipamentos, quais adaptações serão necessárias e como os custos serão divididos. Rachkorsky defende que a conta deve separar a estrutura coletiva do consumo individual: a estrutura todo mundo paga, mas a energia só paga quem vai usar. Tudo isso exige um projeto, conformidade com normas de segurança, aprovação em assembleia, arrecadação de recursos. Em São Paulo, uma lei estadual garante ao morador o direito de instalar um carregador na própria vaga, desde que sejam observadas regras de segurança. O condomínio só pode impedir a instalação mediante justificativa técnica. Ainda assim, a síndica profissional Elisabeth Machado Gomes afirma que o assunto deve ser discutido coletivamente, não apenas porque a lei permite.
A infraestrutura disponível varia bastante de um condomínio para outro. Em um prédio recém-entregue em São Paulo, a garagem foi planejada para receber carregadores: 188 vagas, mas apenas três pontos de recarga instalados para uma frota de 18 carros elétricos. Em edifícios antigos, a adaptação pode ser muito mais complexa. Omar Anawat, presidente da Associação dos Administradores de Bens Imóveis e Condomínios de São Paulo, é direto: muitos prédios antigos não foram projetados para atender ao aumento da demanda por energia. Ele alerta que usar uma tomada sem saber a carga, sem saber se a parte técnica está correta, é o maior risco possível para uma situação de carregamento. O engenheiro eletricista Fabio Delatore explica que a instalação pode exigir novos cabos, equipamentos de proteção e, em alguns casos, até um aumento da quantidade de energia fornecida pela concessionária.
Além da capacidade da rede elétrica, os condomínios precisam considerar os riscos relacionados às baterias dos veículos. O engenheiro eletricista Marco Aurélio Moreira aponta que as baterias de íon de lítio exigem cuidados específicos: são mais inflamáveis quando expostas ao oxigênio. O Corpo de Bombeiros vem se preparando para ocorrências envolvendo veículos elétricos e sistemas de recarga. O capitão Murillo Rinaldi Amendoeira orienta evitar instalações improvisadas. A tecnologia é nova, demanda novas táticas e técnicas para combate a incêndios.
Mentre isso, moradores seguem discutindo os possíveis impactos. Para Alice Camargos, a infraestrutura pode inclusive aumentar o valor dos imóveis: hoje em dia todo mundo procura um prédio que tenha algo a mais. Danielle Machado vê a mudança como parte de uma transformação que tende a avançar. Acredita que no final conseguirão uma energia limpa, com estrutura e segurança. Esse é o futuro.
Bemerkenswerte Zitate
Mas ele não paga a minha gasolina, por que eu tenho que pagar a eletricidade do carro dele?— Marcio Rachkorsky, advogado especialista em condomínios
O prédio antigo não vai dar conta de atender a uma demanda maior de energia. Isso é o maior risco possível para uma situação de carregamento.— Omar Anawat, presidente da AABIC