O Brasil cresce, mas desacelera — e é nesse intervalo entre o impulso e o freio que as empresas se veem mais vulneráveis. Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander, alerta que a combinação de aperto fiscal e desaceleração econômica cria um momento de tensão estrutural: o governo busca fechar as contas, mas os instrumentos disponíveis podem custar caro ao setor produtivo. A reforma tributária, apresentada como solução, é neutra em carga — mas medidas paralelas podem elevar a pressão sobre empresas já enfraquecidas pelo ciclo de juros altos.
Carga tributária maior ameaça empresas em cenário de desaceleração, alerta Santander
Não sei se as empresas vão suportar custos maiores num cenário de desaceleração
Por que uma reforma tributária neutra em carga preocupa tanto se não muda o total de impostos?
Porque ela vem acompanhada de outras medidas que aumentam 160 bilhões em arrecadação. A reforma em si é neutra, mas o pacote todo não é. É como dizer que a roupa não mudou, mas o peso dentro dela aumentou.
E por que o timing importa tanto? Não é melhor aumentar impostos agora do que deixar a dívida crescer?
Porque quando a economia desacelera, as empresas ganham menos. Aumentar custos nesse momento é apertar ainda mais. É a diferença entre fazer uma cirurgia quando o paciente está forte ou quando está fraco.
Você acha que o governo consegue zerar o déficit em 2024?
Não. Nem o Santander acredita. Estimamos 0,9% de déficit. E não há medidas suficientes aprovadas para fechar essa conta. Faltam votos no Congresso.
O presidente quer mexer na autonomia do Banco Central. Isso é perigoso?
Muito. O BC foi construído para combater inflação, não para agradar presidente. Vinte anos de credibilidade em metas de inflação não se reconstrói rápido. Se perder isso, a inflação volta e come o crescimento.
Então o Brasil consegue recuperar o grau de investimento?
Pode conseguir. Mas precisa entregar: consolidação fiscal real, inflação na meta, BC independente. Tudo junto. Não é impossível, mas também não é garantido.
E as empresas? Como ficam no meio disso tudo?
Apertadas. Crescimento lento, impostos maiores. É um cenário difícil para quem precisa investir e gerar emprego.
Il Polso
- O PIB deve crescer cerca de 2% em 2023, mas a projeção cai para apenas 1% em 2024 — a desaceleração não é acidente, é consequência do combate à inflação.
- O governo prometeu déficit zero em 2024, mas o Santander estima 0,9% do PIB, e faltam medidas concretas para fechar essa lacuna sem depender de uma coordenação política que raramente se materializa.
- Medidas adicionais de arrecadação podem ampliar o orçamento em até R$ 160 bilhões — o que, na prática, representa aumento de carga tributária sobre empresas que já enfrentam margens comprimidas.
- A autonomia do Banco Central e o sistema de metas de inflação, construídos ao longo de décadas, são vistos como pilares inegociáveis para qualquer perspectiva de recuperação do grau de investimento.
- A recuperação do selo de bom pagador depende de consolidação fiscal real, inflação sob controle e preservação institucional — condições possíveis, mas sem prazo garantido.
O Brasil cresce, mas desacelera — e é nesse intervalo entre o impulso e o freio que as empresas se veem mais vulneráveis. Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander, alerta que a combinação de aperto fiscal e desaceleração econômica cria um momento de tensão estrutural: o governo busca fechar as contas, mas os instrumentos disponíveis podem custar caro ao setor produtivo. A reforma tributária, apresentada como solução, é neutra em carga — mas medidas paralelas podem elevar a pressão sobre empresas já enfraquecidas pelo ciclo de juros altos.
Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander, vê o Brasil crescendo, mas perdendo velocidade. A projeção do banco é de 2% de crescimento do PIB em 2023 e apenas 1% em 2024 — uma desaceleração esperada, resultado do aperto monetário necessário para conter a inflação. O problema é que, quando a economia freia, arrecadar fica mais difícil, e o governo precisa exatamente do contrário.
O ministro da Fazenda prometeu zerar o déficit primário em 2024. Vescovi é cética: o banco estima um déficit de 0,9% do PIB, e não há medidas concretas suficientes para cobrir a diferença. Qualquer solução passa pelo Congresso — e coordenação política em Brasília é escassa.
A reforma tributária, tecnicamente neutra em carga, é bem-vinda no longo prazo. Mas o governo quer, ao mesmo tempo, ampliar o orçamento de 2024 em até R$ 160 bilhões com novas medidas de arrecadação. Na prática, isso significa mais impostos sobre empresas que já enfrentam margens apertadas. Vescovi questiona se o setor produtivo tem fôlego para absorver esse custo num momento de desaceleração.
Sobre o Banco Central, a economista é direta: a instituição foi criada para combater inflação, não para ceder a pressões políticas por juros mais baixos. O sistema de metas, construído ao longo de mais de duas décadas, é patrimônio que não se descarta. E é justamente a preservação desse arcabouço — junto à consolidação fiscal e à credibilidade institucional — que pode abrir caminho para o Brasil recuperar o grau de investimento. Vescovi não promete datas, mas aponta a direção.
Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander, enxerga um Brasil em encruzilhada. A economia cresce, sim, mas a velocidade está caindo. E enquanto o governo tenta fechar as contas públicas, as empresas enfrentam uma pressão cada vez maior: mais impostos, menos fôlego para crescer.
O cenário que Vescovi desenha é claro. Para este ano, o banco projeta um crescimento do PIB próximo a 2%. Em 2024, a previsão cai para 1%. Essa desaceleração não é acidental — é resultado do trabalho de controlar a inflação, que exigiu aperto monetário. Mas quando a economia anda mais devagar, arrecadar fica mais difícil. É como tentar encher um balde que tem um furo cada vez maior.
O ministro da Fazenda quer zerar o déficit primário em 2024. Parece ambicioso? Vescovi é cética. O banco estima um déficit de 0,9% do PIB — não é zero. E aqui está o problema real: não há medidas concretas suficientes para arrecadar o volume que o governo prometeu. Pior ainda, qualquer solução exige aprovação no Congresso, e coordenação política é luxo em Brasília.
A reforma tributária, que o governo apresenta como solução, é mais complicada do que parece. Do ponto de vista técnico, ela é neutra — não aumenta nem diminui a carga total. Mas há um porém. Junto com a reforma, o governo quer ampliar o orçamento de 2024 em até 160 bilhões de reais através de novas medidas de arrecadação. Isso é, na prática, um aumento de carga. E aqui Vescovi toca no ponto que mais a preocupa: empresas conseguem suportar custos maiores quando a economia está desacelerando? Sua resposta é duvidosa.
Vescovi reconhece que a reforma tributária é bem-vinda — ela pode ajudar o país a crescer mais no longo prazo. Mas o timing é ruim. Aumentar impostos quando as empresas ganham menos é receita para aperto ainda maior. É como pedir que alguém aperte o cinto quando já está magro.
Quando o assunto é o Banco Central, Vescovi defende a instituição com firmeza. O presidente Lula reclama dos juros altos e até cogitou acabar com a autonomia do BC. Mas Vescovi lembra que o banco foi criado para combater inflação, não para baixar juros. E a inflação baixa — em torno de 3%, como é a meta — é fundamental para crescimento de longo prazo e distribuição de renda. O Brasil passou mais de 20 anos construindo um sistema de metas de inflação. Jogar isso fora seria um retrocesso.
Sobre a possibilidade de o Brasil recuperar o grau de investimento — aquela classificação que atrai capital estrangeiro — Vescovi é pragmática. Não é questão de ter espaço, é de aproveitar os espaços que existem. Consolidação fiscal, meta de inflação mantida, política monetária comprometida com convergência para a meta, institucionalidade do Banco Central preservada. Tudo isso cria condições favoráveis. Mas ela não promete nada. Não sabe se vai acontecer nesse prazo.
Citazioni salienti
Tenho dúvidas de que o país consiga conviver com o desafio de crescimento e uma carga tributária ainda maior— Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander
O Banco Central é uma instituição criada para o combate à inflação. O foco não é o juro— Ana Paula Vescovi