Uma investigação de pesquisadores brasileiros revela um mercado paralelo de canetas para obesidade, como a semaglutida, que cresce na sombra das farmácias online sem receita. Em um tempo em que a obesidade avança pelo mundo e a busca por soluções rápidas se intensifica, a aparência de cura vendida na internet encontra consumidores dispostos a acreditar nela, mesmo quando o frasco que recebem pouco tem a ver com o remédio prometido. O alerta dos autores é menos sobre um produto isolado e mais sobre a fragilidade de uma sociedade que confia mais em promessas e vitrines digitais do que nos caminh
Canetas para obesidade: comércio ilegal cresce com desinformação e amplia riscos à saúde
Menos de 5% consideram o registro na Anvisa ao comprar emagrecedores online
O que mais chama atenção nos testes dos produtos comprados online?
A pureza. O princípio ativo variou de 7,7% a 14,37%, enquanto os vendedores anunciavam 99%. E todas as amostras tinham endotoxinas.
Mas o consumidor não deveria desconfiar de preço baixo e venda sem receita?
A pesquisa do CFF com o Datafolha sugere que pouco pesa. Menos de 5% olham o registro na Anvisa, e 54% se atraem pela promessa de resultado rápido.
Vale notar o tamanho da amostra de produtos: seis farmácias, só três frascos entregues. Serve como alerta, mas não dá para extrapolar para todo o mercado ilegal.
E o aumento de 35% no consumo?
Vem de uma pesquisa sobre automedicação, com crescimento maior entre mulheres jovens, ligado à oferta em farmácias e plataformas online.
O texto não detalha a metodologia nem o período dessa pesquisa. É um dado citado, não verificado aqui.
Por que mencionar o acordo da Fiocruz?
Os autores temem que a notícia seja usada por quem faz desinformação, associando o nome da instituição a produtos enganosos.
Isso é um receio baseado em estudo sobre a Covid-19, não um fato já observado com as canetas. E o artigo é opinião de pesquisadoras, não reportagem.
Il Polso
- Seis farmácias online sem exigência de receita venderam semaglutida a preços baixos, mas apenas três frascos chegaram aos pesquisadores.
- Testes apontaram pureza entre 7,7% e 14,37%, quando os vendedores anunciavam 99%, e todas as amostras continham endotoxinas.
- Menos de 5% dos compradores consideram o registro na Anvisa, enquanto 54% se deixam atrair por promessas de resultados rápidos.
- A venda irregular pressiona o SUS e dificulta a farmacovigilância, deixando autoridades sem rastro da origem dos produtos.
- Os autores propõem campanhas informativas, escuta social, canais de denúncia e regulação mais firme das plataformas digitais, num cenário que ainda não se resolveu.
Uma investigação de pesquisadores brasileiros revela um mercado paralelo de canetas para obesidade, como a semaglutida, que cresce na sombra das farmácias online sem receita. Em um tempo em que a obesidade avança pelo mundo e a busca por soluções rápidas se intensifica, a aparência de cura vendida na internet encontra consumidores dispostos a acreditar nela, mesmo quando o frasco que recebem pouco tem a ver com o remédio prometido. O alerta dos autores é menos sobre um produto isolado e mais sobre a fragilidade de uma sociedade que confia mais em promessas e vitrines digitais do que nos caminhos regulados que protegem a saúde.
Seis farmácias online que vendiam semaglutida a preços baixos e dispensavam receita foram escolhidas por um grupo de pesquisadores para um teste. Dos pedidos, chegaram apenas três frascos injetáveis, e as canetas anunciadas nunca foram entregues, sinal de fraude recorrente nesse mercado.
Os produtos foram classificados como falsificados ou de baixa qualidade. Houve falhas em 59% a 63% dos critérios avaliados e alguns frascos continham até 38% mais medicamento que o rótulo indicava. Não havia bactérias ou fungos vivos, mas todas as amostras tinham endotoxinas, substâncias tóxicas capazes de provocar reações adversas. A pureza do princípio ativo ficou entre 7,7% e 14,37%, bem abaixo dos 99% prometidos.
O pano de fundo é uma obesidade que quase triplicou em prevalência nas últimas quatro décadas, segundo a OMS. Usadas com prescrição, essas canetas fazem parte de tratamentos reconhecidos. A demanda, porém, extrapolou as indicações e alimentou o uso estético sem acompanhamento. No Brasil, o terreno é fértil: 77% da população usa medicamentos sem prescrição, e o país lidera buscas por Ozempic e Mounjaro. Uma pesquisa registrou alta de 35% no consumo irregular, sobretudo entre mulheres jovens.
Pesquisa do Conselho Federal de Farmácia com o Datafolha mostra que a segurança regulatória pesa pouco na decisão. Menos de 5% consideram o registro na Anvisa, 54% são seduzidos por resultados rápidos e cerca de 70% nem verificam o número de registro na embalagem. A Novo Nordisk, detentora dos registros, afirma que não autoriza o repasse de seus produtos a manipuladores ou outros fabricantes.
Para os autores, o consumo fora dos canais regulados impede rastrear a origem dos produtos e monitorar efeitos adversos. Eles também veem risco no anúncio de uma parceria da Fiocruz para produzir canetas no Brasil, pois nomes respeitados podem ser usados para dar aparência de legitimidade a conteúdos enganosos. A saída, defendem, passa por campanhas claras, escuta social, denúncia acessível e monitoramento das redes.
Seis farmácias online irregulares foram escolhidas por um grupo de pesquisadores por dois motivos: vendiam semaglutida a preços baixos e não pediam receita. Dos pedidos feitos, chegaram apenas três frascos injetáveis. As canetas anunciadas nunca foram entregues, o que os autores tratam como sinal de fraude recorrente nesse mercado.
Os produtos recebidos foram classificados como falsificados ou de baixa qualidade. A inspeção apontou falhas em 59% a 63% dos critérios avaliados, e alguns frascos continham até 38% mais medicamento do que o rótulo indicava. Não foram encontrados bactérias ou fungos vivos, mas todas as amostras tinham endotoxinas, substâncias tóxicas capazes de causar reações adversas. A pureza do princípio ativo ficou entre 7,7% e 14,37%, contra os 99% anunciados pelos vendedores. O estudo se chama Multifactor Quality and Safety Analysis of Semaglutide Products Sold by Online Sellers Without a Prescription.
O pano de fundo é uma epidemia de obesidade que, segundo a Organização Mundial da Saúde, quase triplicou em prevalência nas últimas quatro décadas e atinge todas as regiões do mundo. A entidade estima que a condição esteve associada a cerca de 3,7 milhões de mortes em 2024 e que o número de pessoas com obesidade pode dobrar até 2030. Prescritos e comprados em farmácias regulamentadas, os medicamentos fazem parte de tratamentos reconhecidos pela medicina. A demanda global, porém, foi além das indicações aprovadas e alimentou o uso sem prescrição nem acompanhamento profissional, em especial com fins estéticos.
O Brasil reúne condições favoráveis a esse mercado, de acordo com o texto, assinado por Claudia Pereira Galhardi, pesquisadora do Núcleo de Estudos em Comunicação, História e Saúde da Fiocruz, e por Renata Tereza Gonçalves Pereira, farmacêutica especialista em Saúde Estética. Segundo o Conselho Regional de Farmácia de São Paulo, 77% da população usa medicamentos sem prescrição. Pela Comscore, o país é o terceiro do mundo em consumo de redes sociais e o segundo em buscas por Ozempic e Mounjaro. Uma pesquisa sobre automedicação e acesso irregular às canetas identificou alta de 35% no consumo, sobretudo entre mulheres jovens, impulsionada pela oferta em farmácias e plataformas online.
Os produtos são divulgados e vendidos na internet e nas redes sociais, inclusive por algumas clínicas de estética, farmácias de manipulação e centros de bem-estar. Isso acendeu alertas em autoridades sanitárias, especialistas e laboratórios, tanto pelo uso indevido quanto pela circulação de itens falsificados ou de baixa qualidade, em cadeias de suprimento não regulamentadas. Apreensões de canetas falsificadas, contrabandeadas ou irregulares se repetem no país. Muitos consumidores acreditam comprar apenas versões contrabandeadas do original, em geral mais baratas, mas as autoridades apontam uma realidade mais grave.
Uma pesquisa do Conselho Federal de Farmácia com o Datafolha mostra o peso pequeno da segurança regulatória na compra de emagrecedores pela internet. Menos de 5% consideram o registro na Anvisa um critério. Já 54% são atraídos pela promessa de resultados rápidos, prática proibida pelas normas da agência. Comentários de outros usuários influenciam 24% das decisões. A regularidade do fabricante é ignorada por 48% dos compradores e a do produto por 51%, e cerca de 70% nem verificam se há número de registro na embalagem.
A Novo Nordisk, fabricante de Wegovy, Rybelsus e Ozempic, reitera que é a única detentora dos registros da Anvisa para medicamentos à base de semaglutida no país. A empresa afirma que não fornece nem autoriza o repasse de seus produtos a farmácias de manipulação ou a outros fabricantes. Para os autores, o consumo fora dos canais regulados dificulta identificar a origem dos produtos, monitorar efeitos adversos e adotar medidas regulatórias, compromete a farmacovigilância e sobrecarrega o SUS.
Os autores veem novo risco no anúncio de que a Fiocruz fechou acordo para produzir canetas emagrecedoras no Brasil. Citando um estudo sobre desinformação na pandemia de Covid-19, lembram que esse tipo de notícia tende a ser explorado por quem se apropria do nome de instituições respeitadas para dar aparência de legitimidade a conteúdos enganosos. Eles defendem campanhas informativas claras, ampliação da escuta social, canais institucionais de denúncia de vendas irregulares e monitoramento contínuo das redes, com análises de sentimento e mapeamento de conteúdos falsos, para embasar políticas públicas e a regulação das plataformas digitais.
Citazioni salienti
A Novo Nordisk afirma ser a única detentora dos registros da Anvisa para semaglutida no Brasil e não autorizar repasse a farmácias de manipulação.— Novo Nordisk, segundo o artigo