Candidatos de direita e centro-direita defendem anistia a desmatadores, reversão de demarcações indígenas e exploração de recursos como ouro e potássio. Negacionismo climático marca campanhas, com candidatos minimizando secas extremas de 2023-2024 e ignorando impactos diretos em comunidades amazônidas.
Candidatos na Amazônia ignoram floresta em pé e defendem abertura de áreas
O amazonense nasce em cima da riqueza, vive em cima da riqueza e morre na pobreza
Por que a floresta em pé não é pauta nas campanhas? Parece estranho, considerando que a Amazônia é o bioma mais importante do país.
Porque votos não vêm de quem quer preservação. Os candidatos competitivos são de direita e centro-direita, e seus eleitores querem regularização fundiária, abertura de áreas, exploração de recursos. A floresta em pé não mobiliza esse eleitorado.
Mas há eleitores que querem preservação? Ou a reportagem está dizendo que simplesmente não há candidatos competitivos com essa plataforma?
A reportagem mostra que não há candidatos competitivos com essa plataforma. Hana Ghassan, no Pará, menciona combate ao desmatamento, mas é uma exceção rara.
E quanto aos impactos que a reportagem descreve — fumaça, enchentes, alteração climática? Esses não influenciam o voto?
Influenciam a vida das pessoas, mas não parecem influenciar o voto. Manaus ficou sob fumaça densa em setembro, repetindo crises anteriores, mas o candidato Omar Aziz nega que haja seca extrema.
Ele nega ou ele diz que este ano não está tendo seca? Porque a reportagem cita a frase dele: "todo mundo disse que ia ter uma grande seca e não está tendo".
Ele nega a existência de um padrão de seca extrema. Diz que é normal. Mas Manaus estava sob fumaça dias antes do debate.
Então há uma desconexão entre a realidade vivida e o discurso político?
Completa. A degradação traz consequências diretas — incêndios, fumaça, enchentes — mas nenhum candidato competitivo faz disso questão de campanha.
A reportagem consegue quantificar quanto desmatamento houve, ou quanto a fumaça afetou a saúde? Ou é mais uma descrição qualitativa?
É qualitativa. A reportagem descreve o padrão de discursos e propostas, não números de desmatamento ou impacto de saúde.
E a floresta em pé — há modelos de renda já implementados, segundo a reportagem. Por que isso não é pauta?
Porque não mobiliza o eleitorado que decide as eleições. Os candidatos competitivos falam em soja, milho, gado, exploração de ouro e potássio. Esses setores têm mais poder político.
Le Pouls
- Candidatos de direita e centro-direita dominam disputas competitivas em estados amazônicos
- Secas extremas de 2023 e 2024 deixaram Manaus sob fumaça densa por meses; em setembro de 2026 repetiu-se o padrão
- Propostas incluem pavimentação da BR-319, exploração de potássio em território mura, terras raras, ouro e petróleo na costa
- Rondônia é um dos estados mais desmatados da Amazônia; governo já reverteu criações de áreas de preservação
- Hana Ghassan (Pará) é uma dos poucos candidatos competitivos que menciona combate ao desmatamento
Candidatos de direita e centro-direita defendem anistia a desmatadores, reversão de demarcações indígenas e exploração de recursos como ouro e potássio. Negacionismo climático marca campanhas, com candidatos minimizando secas extremas de 2023-2024 e ignorando impactos diretos em comunidades amazônidas.
Candidatos a governador nos estados amazônicos priorizam abertura de áreas florestais e grandes obras em detrimento da preservação, com discursos negacionistas sobre mudanças climáticas e secas extremas.
A floresta em pé não é tema de campanha na Amazônia. Não mobiliza votos, não aparece nos discursos dos candidatos a governador com chances reais de eleição nos próximos dias. O que existe é o oposto: candidatos de direita e centro-direita defendem abertamente anistia para fazendeiros que desmatam, reversão de demarcações de terras indígenas, abertura de novas áreas florestais e grandes obras de infraestrutura que degradam o bioma e facilitam a grilagem.
Os discursos carregam negacionismo climático explícito. Candidatos minimizam as secas extremas de 2023 e 2024 como variações naturais do ciclo amazônico, contrariando o que a ciência já estabeleceu. A floresta funciona como regulador climático global, e sua preservação é decisiva para frear o aumento das temperaturas. Diferentes modelos de geração de renda já estão associados à floresta em pé e ao modo de vida de milhares de amazônidas integrados ao bioma. Mas a degradação traz consequências diretas e visíveis: mais incêndios, fumaça densa, enchentes descontroladas, alteração climática. Nada disso, porém, integra o dia a dia das campanhas pela cadeira de governador.
Em Manaus, a cidade ficou sob fumaça densa por dias seguidos em setembro, repetindo a crise das secas extremas anteriores, quando as ondas de fumaça duraram meses. A fumaça vem da derrubada e queima da floresta, inclusive em áreas no percurso da BR-319. O senador Omar Aziz, do PSD, que busca voltar ao governo do Amazonas, tem como bandeira a pavimentação dessa rodovia construída na ditadura militar. Em debate na TV Globo, Aziz afirmou que "todo mundo disse que ia ter uma grande seca e não está tendo", descartando a realidade que Manaus havia vivido dias antes. Ele defende também a exploração de potássio na região de Autazes, um projeto que usa território do povo mura, além de exploração de terras raras e ouro. "O amazonense nasce em cima da riqueza, vive em cima da riqueza e morre na pobreza", disse.
Seus oponentes fazem discursos semelhantes. Maria do Carmo, bolsonarista do PL, afirmou que "seca acontece todos os anos", negando os extremos climáticos. Roberto Cidade, governador atual pela União Brasil, quer a exploração de potássio e outras obras de grande impacto. Em Rondônia, os candidatos competitivos são bolsonaristas. O senador Marcos Rogério quer promover "regularização fundiária efetiva", enquanto Adailton Fúria, ex-prefeito de Cacoal, propõe rever demarcações de áreas. "Criaram reserva em cima de área documentada, tirando pai de família de área produtiva", disse no debate. O discurso ecoa o de grileiros que avançam sobre áreas devolutas da União. Rondônia é um dos estados mais desmatados e degradados da Amazônia, e atos de governo já reverteram criações de áreas de preservação.
No Acre, terceiro estado do arco de desmatamento que se estende por Amazonas, Rondônia e Acre, a regularização fundiária e expansão para soja e milho são propostas centrais dos candidatos de direita. A governadora Mailza Assis, que tenta reeleição, diz que o espaço para agronegócio é pequeno no Acre por causa da floresta. "É preciso haver expansão do território que possa ser cultivado. Já exportamos soja e milho", afirmou. Seu principal oponente, o senador Alan Rick, vai na mesma direção: "Vou buscar aumentar a área produtiva, fazer regularização fundiária e dar fim a embargos que maltratam produtores rurais".
No Pará, a disputa marca-se pelo discurso de segurança jurídica no campo, com regularização fundiária e sem "perseguição" a produtores rurais. Daniel Santos, ex-prefeito de Ananindeua, disse em debate que o governo trata o produtor rural como bandido e que garimpeiros querem oportunidade de se legalizar. A governadora Hana Ghassan, que coordenou preparativos para a COP30 em Belém, é uma dos poucos candidatos em toda a Amazônia que menciona combate ao desmatamento e redução da devastação. Ainda assim, faz acenos aos produtores: "Sabemos que o Pará tem vocação para produzir, o governo vai apoiar cada vez mais. A regularização fundiária é fundamental".
No Amapá, tanto o governador Clécio Luís quanto seu oponente, o ex-prefeito Antônio Furlan, defendem exploração de petróleo na costa amazônica. A Petrobras detectou hidrocarbonetos em perfuração de poço em alto-mar na altura de Oiapoque, na divisa com a Guiana Francesa, e vai perfurar mais três poços para dimensionar viabilidade comercial. A disputa eleitoral amazônica, em seus candidatos competitivos, ignora sistematicamente a preservação da floresta em pé como questão política. O que avança são promessas de abertura, exploração e infraestrutura.
Citations marquantes
Todo mundo disse que ia ter uma grande seca e não está tendo. Isso aqui está normal.— Omar Aziz, senador do PSD-AM, em debate na TV Globo
Criaram reserva em cima de área documentada, tirando pai de família de área produtiva— Adailton Fúria, ex-prefeito de Cacoal, em debate sobre demarcações de terras