Canção de protesto chilena resiste sob governo de ultradireita

Víctor Jara foi torturado e assassinado em setembro de 1973 no Estádio Chile; o governo atual analisa indultos para condenados por crimes de lesa-humanidade cometidos na ditadura.
A música política é a que incomoda um pouco. E é isso que transcende.
Marisol García, pesquisadora da tradição de protesto chilena, sobre o poder duradouro da canção política.
Mark

Por que a canção de protesto chilena continua tão viva, mesmo com um governo que corta orçamentos culturais e homenageia Pinochet?

Mimi

Porque os problemas que essas canções denunciam nunca foram resolvidos. "El Derecho de Vivir en Paz" foi composta em 1973 e continua sendo cantada em protestos globais porque a paz, para muitos, ainda é um direito negado.

Luke

Mas há uma diferença entre uma canção ser tocada e ela ter poder político real. Quantas pessoas ouvem essas músicas hoje? Qual é o alcance delas fora dos festivais?

Mimi

Boa pergunta. O Inti-Illimani continua lotando estádios. Bad Bunny tocou Jara no Estádio Nacional. Mas você está certo — não sabemos exatamente qual é o impacto político concreto.

Mark

E as novas gerações? Elas estão criando suas próprias canções ou apenas reinterpretando as antigas?

Mimi

Estão fazendo os dois. Candelabro, Tenemos Explosivos — são bandas novas que retomam o espírito de protesto, mas com suas próprias vozes e suas próprias histórias.

Luke

O governo Kast está analisando indultos para condenados por crimes contra a humanidade. Isso não deveria ser o foco principal, em vez de festivais de música?

Mimi

Não é um ou outro. O festival Muda é justamente uma resposta a isso — uma forma de dizer que a memória importa, que a história não foi encerrada.

Mark

Marisol García diz que a música política é a que incomoda. Mas incomodar quem? O governo Kast?

Mimi

Incomoda quem está no poder, sim. Mas também incomoda a própria sociedade, obrigando-a a confrontar questões que preferiria deixar de lado.

Luke

A reportagem não deixa claro se há censura direta ou se é apenas uma questão de falta de financiamento. São coisas diferentes.

Mimi

Verdade. O corte de orçamento é uma forma de censura, mas não é a mesma coisa que proibir apresentações. A canção continua acontecendo, mas com menos recursos.

  • José Antonio Kast tomou posse em março de 2026 e nomeou ex-advogados de Pinochet para ministérios-chave
  • Governo Kast cortou 10% do orçamento do Ministério das Culturas e analisa mais de 100 pedidos de indulto para condenados por crimes contra a humanidade
  • Víctor Jara foi torturado e assassinado em setembro de 1973 no Estádio Chile
  • Festival Muda acontece nos dias 3 e 4 de outubro com cerca de 40 artistas, reunindo gerações de músicos de protesto

O governo Kast cortou orçamentos culturais, nomeou ex-advogados de Pinochet e analisa indultos para condenados por crimes contra a humanidade. Músicas como 'El Derecho de Vivir en Paz' continuam relevantes décadas depois, ressurgindo em protestos globais e gerando novas gerações de artistas comprometidos.

No Chile, a tradição da canção de protesto persiste apesar da ascensão do ultradireitista José Antonio Kast à presidência, com artistas e novas gerações mantendo viva a herança de Víctor Jara e outros ícones da música política.

O Chile transformou a canção em arma política de um jeito que poucos países conseguiram. Desde a campanha presidencial de Salvador Allende em 1970, passando pelas composições que desafiaram a ditadura de Augusto Pinochet, até os protestos de rua de 2019, a música chilena carregou nas costas a história do país — vitórias eleitorais, golpes, exílios, e o retorno às ruas meio século depois. Víctor Jara, Quilapayún, Inti-Illimani e Violeta Parra não foram apenas músicos. Foram testemunhas e construtores de memória.

Agora, com o ultradireitista José Antonio Kast na presidência desde março de 2026, essa tradição enfrenta um teste diferente. Kast nunca disfarçou sua admiração por Pinochet. Entregou os ministérios da Defesa e da Justiça a dois ex-advogados do ditador, Fernando Barros e Fernando Rabat, e seu governo analisa mais de cem pedidos de indulto, a maioria para condenados por crimes contra a humanidade cometidos durante o regime militar. Em setembro, pela primeira vez desde o retorno da democracia em 1990, não houve cerimônia oficial marcando o aniversário do golpe. Meses antes, em abril, um decreto havia cortado quase 10% do orçamento do Ministério das Culturas — a maior redução proporcional entre todos os ministérios — afetando diretamente o Museu da Memória e dos Direitos Humanos e o Museu Violeta Parra.

Mas a canção de protesto chilena não desapareceu. Marisol García, jornalista e pesquisadora que escreveu o livro "Canción Valiente" sobre três décadas de canto social no Chile, vê a força dessa tradição como algo que vem de longe e permanece firme. Ela reconhece que houve um momento especial — a chamada nova canção chilena, inspirada principalmente por Violeta Parra — com grandes expoentes e colaboração intensa entre músicos. Mas insiste que mesmo sem líderes ou porta-vozes hoje, a música chilena mantém uma sensibilidade provavelmente superior à média do pop porque, para os chilenos, isso importa. E porque o Chile é um país de grandes poetas. As canções antigas continuam vivas porque continuam sendo necessárias. "El Derecho de Vivir en Paz", de Jara, ressurgiu nos protestos de 2019. "El Baile de los que Sobran", que Los Prisioneros lançaram nos anos 1980 para falar de desigualdade na educação, continua vigente. García admite que às vezes isso a deprime: queria que pudessem superar essas canções, mas elas continuam ali, porque os problemas que denunciam continuam ali.

Em janeiro deste ano, manifestantes cantaram "El Pueblo Unido Jamás Será Vencido", do Quilapayún, em espanhol, durante protestos contra a polícia anti-imigração de Donald Trump em Minneapolis. Bad Bunny tocou "El Derecho de Vivir en Paz" no Estádio Nacional de Santiago durante sua turnê. Jara, preso após o golpe, foi torturado e assassinado em setembro de 1973, a poucos quilômetros dali, no Estádio Chile, que hoje leva seu nome. É nesse mesmo Estádio Nacional — que funcionou como campo de prisioneiros nos primeiros meses do regime Pinochet — que acontece nos dias 3 e 4 de outubro o festival Muda, dedicado a memória e direitos humanos, reunindo cerca de 40 artistas do Inti-Illimani a nomes formados depois da ditadura como Ana Tijoux, Camila Moreno e Candelabro. Parte da bilheteria vai para antigos centros de detenção e tortura transformados em sítios de memória, com prioridade para os que funcionam sem financiamento estatal.

Jorge Coulón, fundador do histórico Inti-Illimani, define o papel da banda hoje como o de uma ponte — entre gerações e com a história. Depois de quase 60 anos de carreira, o que se acumula é responsabilidade com a história vivida, a responsabilidade de transmitir sem impor, de ser testemunha das mudanças. Javier Sanfeliú, publicitário chileno e criador do programa musical Puro Chile da emissora pública TVN, afirma que a tradição do protesto nunca saiu de cena. Quilapayún e Inti-Illimani continuam lotando estádios. São patrimônio nacional. Víctor Jara é um ícone que continua presente como se estivesse vivo.

A tradição chega às novas gerações. O rock está voltando ao Chile com bandas de gente de 20 anos tocando guitarra, mostrando raiva e desalento. Candelabro, formada em Santiago em 2021, retoma esse espírito. Os jovens de 20 a 30 anos sentem uma responsabilidade, e a mudança sempre vem da juventude. Eduardo Pavez, vocalista do Tenemos Explosivos, banda da nova safra do rock chileno que abriu o show do Linkin Park no país com canções sobre história e memória, afirma que a tradição passa de geração a geração porque o Chile ainda é um país mentalmente colonizado. Há uma tentativa de emancipação dessa colonização, que é o que o folclore tradicional já dizia e continua dizendo, porque seguem presos na mesma coisa. Essa colonização se reflete na política externa de Kast, que se aproximou de Donald Trump. Quatro dias antes de sua posse, o presidente chileno participou do lançamento do Escudo das Américas, aliança de segurança contra narcotráfico e crime organizado criada pelos americanos, da qual Brasil e México não fazem parte.

Para Pavez, festivais como o Muda fazem uma provocação ao juntar expoentes da canção de protesto de ontem e hoje. Obrigam a voltar a visitar certa música, certo espírito. E ao voltar, obrigam a perguntar quanto disso havia, há ou poderá haver no futuro. A memória é sempre urgente, mas agora o mais urgente é não perder a esperança. Para García, a resposta está no que sempre moveu essa canção: a música política é a música que incomoda um pouco. E é isso que, no fim, transcende.

A música política é a música que incomoda um pouco. E é isso que, no fim, transcende.
— Marisol García, pesquisadora e autora de 'Canción Valiente'
Uma ponte entre gerações e uma ponte com a história. Se algo se acumula numa carreira longa como a nossa, de quase 60 anos, é a responsabilidade com a história vivida.
— Jorge Coulón, fundador do Inti-Illimani
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