Em um país onde a política frequentemente se veste de símbolos, dois candidatos — um presidente e um prefeito do sertão — chegam à Justiça Eleitoral com chapéus sobre a cabeça, cada um carregando razões distintas para o mesmo gesto. Lula usa o chapéu panamá como resposta a uma cirurgia; Allyson Bezerra, do Rio Grande do Norte, usa o chapéu de vaqueiro como extensão de uma identidade forjada na infância sertaneja. O que poderia parecer coincidência revela, na verdade, como a aparência pública é sempre uma narrativa — e como a Justiça Eleitoral, ao julgar adereços, julga também a relação entre a
Candidato ao governo do RN também se registra com chapéu na Justiça Eleitoral
Vou governar de chapéu, e usarei até em reunião com presidente
Por que o chapéu é tão importante para Bezerra? Parece apenas um detalhe.
Para ele, não é detalhe. É identidade. Ele cresceu com aquilo, é parte de quem é. O chapéu de vaqueiro não é uma escolha de campanha — é uma escolha de vida.
Mas então por que se registrar com ele na Justiça Eleitoral? Não seria mais seguro usar uma foto comum?
Porque para Bezerra, a foto comum seria uma mentira. Ele diz que vai governar de chapéu, que vai usar em reunião com presidente. Para ele, esconder isso seria inautêntico.
E a comparação com Lula? Isso não o ajuda politicamente?
Ele não quer essa comparação. Lula usa chapéu por razão médica, recente. Bezerra usa desde criança. São histórias completamente diferentes, mesmo que o resultado visual seja parecido.
Ele está apostando que a Justiça Eleitoral vai permitir?
Está. Mas não está nervoso com isso. Diz que ninguém contestou até agora. Para ele, é um adereço cultural legítimo, não uma violação das regras.
E a neutralidade presidencial? Como isso se encaixa?
Mostra que ele acredita que sua força está em baixo, no trabalho local, não em alianças nacionais. Bolsonaro e Lula já tentaram influenciar Mossoró. Ele venceu mesmo assim. Agora está dizendo: confiem em mim, não em quem está em Brasília.
The Pulse
- Dois candidatos chegam à Justiça Eleitoral com chapéus nas fotos de registro, criando um precedente inédito sobre o que pode ou não compor a imagem oficial de um candidato.
- O caso de Lula tem origem médica — uma cirurgia de tumor no couro cabeludo —, enquanto o de Bezerra é cultural, enraizado em décadas de vida no sertão nordestino.
- Bezerra declara sem hesitação que governará de chapéu, inclusive em reuniões com o presidente da República, desafiando convenções protocolares do cargo.
- Apesar da semelhança visual com o gesto de Lula, o candidato potiguar mantém neutralidade na disputa presidencial e recusa qualquer leitura de alinhamento político no adereço.
- Nos próximos meses, as decisões da Justiça Eleitoral sobre ambos os casos podem redefinir as regras sobre identidade visual nas campanhas brasileiras.
Em um país onde a política frequentemente se veste de símbolos, dois candidatos — um presidente e um prefeito do sertão — chegam à Justiça Eleitoral com chapéus sobre a cabeça, cada um carregando razões distintas para o mesmo gesto. Lula usa o chapéu panamá como resposta a uma cirurgia; Allyson Bezerra, do Rio Grande do Norte, usa o chapéu de vaqueiro como extensão de uma identidade forjada na infância sertaneja. O que poderia parecer coincidência revela, na verdade, como a aparência pública é sempre uma narrativa — e como a Justiça Eleitoral, ao julgar adereços, julga também a relação entre autenticidade e representação.
Quando Lula se registrou na Justiça Eleitoral usando chapéu panamá — consequência de uma cirurgia para retirada de tumor no couro cabeludo —, sua equipe apostou na aprovação do adereço. Agora, no Rio Grande do Norte, Allyson Bezerra, do União Brasil, fez o mesmo com um chapéu de vaqueiro. A semelhança, porém, para por aí.
Bezerra carrega o chapéu desde a infância, quando vivia em um sítio no sertão. Para ele, não é adaptação nem estratégia: é identidade. "Vou governar de chapéu, e usarei até em reunião com o presidente da República", afirma o ex-prefeito de Mossoró, que disputa o governo estadual contra Cadu Xavier, do PT, e Alvaro Dias, do PL.
O candidato não teme contestações e tampouco pretende capitalizar sobre a coincidência com Lula. Mantém neutralidade na disputa presidencial — postura que já demonstrou em 2024, quando venceu a prefeitura de Mossoró mesmo com Bolsonaro apoiando um adversário e Lula gravando vídeo para outro. Para Bezerra, a vitória veio do histórico de trabalho, não de padrinhos nacionais.
Enquanto isso, a equipe de Lula segue confiante na aprovação judicial do chapéu panamá. Nos próximos meses, os dois casos podem estabelecer precedentes sobre como a Justiça Eleitoral interpreta adereços em registros de candidatos — e sobre o quanto a aparência pública de um político pode ser, ao mesmo tempo, pessoal e política.
Luiz Inácio Lula da Silva não está sozinho. Quando o presidente se registrou na Justiça Eleitoral com uma fotografia usando chapéu panamá — resultado de uma cirurgia para remover um tumor do couro cabeludo no primeiro semestre — sua equipe apostou que a Justiça permitiria o adereço. Agora, no Rio Grande do Norte, outro candidato segue caminho semelhante, mas com uma história bem diferente.
Allyson Bezerra, do União Brasil, se apresentou à Justiça Eleitoral com um chapéu de vaqueiro na foto de registro. Prefeito de Mossoró até abril deste ano, Bezerra carrega o adereço como marca pessoal há décadas. Ele diz que começou a usar chapéu quando era criança, em um sítio no sertão, e nunca parou. Para ele, não se trata de uma adaptação circunstancial, mas de uma expressão de identidade cultural.
"Vou governar de chapéu, e usarei até em reunião com o presidente da República", afirma Bezerra, que disputa o governo estadual contra Cadu Xavier, do PT, e Alvaro Dias, do PL. O candidato se mostra despreocupado com possíveis contestações. "Até agora, ninguém contestou. O chapéu, além de ser um adereço identificado comigo, é algo que vem da nossa cultura do sertão. Em muitas cidades pequenas, muita gente usa", diz.
Apesar da semelhança superficial com o caso de Lula, Bezerra não pretende capitalizar politicamente sobre isso. Ele se mantém neutro na disputa presidencial, uma postura que contrasta com a presença de ambos os candidatos presidenciais em Mossoró durante a eleição anterior. Em 2024, Jair Bolsonaro fez campanha para um adversário de Bezerra na cidade, enquanto Lula gravou apoio para outro candidato. Mesmo assim, Bezerra venceu.
Para o candidato potiguar, essa vitória anterior não foi resultado do apoio de nomes nacionais, mas de seu histórico de trabalho à frente da prefeitura. "As pessoas estão interessadas em meu histórico de trabalho", afirma. Enquanto isso, a equipe de Lula segue confiante de que a Justiça Eleitoral aprovará o uso do chapéu panamá nas campanhas presidenciais. Nos próximos meses, ambos os casos podem estabelecer precedentes sobre como a Justiça Eleitoral interpreta as regras sobre adereços em registros de candidatos.
Notable Quotes
Vou governar de chapéu, e usarei até em reunião com o presidente da República— Allyson Bezerra
As pessoas estão interessadas em meu histórico de trabalho— Allyson Bezerra