Pela primeira vez em duas décadas, o câncer de mama destituiu o câncer de pulmão do topo da lista das doenças oncológicas mais comuns no mundo — uma inversão que a OMS tornou oficial em fevereiro de 2021. Por trás dos números estão forças que se entrelaçam: o envelhecimento das populações, a obesidade crescente entre mulheres e uma pandemia que interrompeu tratamentos e afastou pacientes dos consultórios. O que a estatística revela, acima de tudo, é a vulnerabilidade silenciosa de milhões de mulheres diante de uma doença que, quando encontrada cedo, pode ser vencida.
Câncer de mama é agora a forma mais comum da doença no mundo, alerta OMS
Quando descoberto cedo, a chance de cura chega a 90%
Por que o câncer de mama ultrapassou o de pulmão agora, depois de vinte anos?
Vários fatores convergiram. A obesidade em mulheres é um deles. Mas também temos crescimento populacional e pessoas vivendo mais tempo — o câncer é uma doença que aumenta com a idade.
Espera aí. A OMS nomeou a obesidade, mas não deu números sobre quanto ela contribui. É um fator importante ou é o fator principal?
É um fator importante, mas a OMS não quantificou. O que sabemos é que o crescimento populacional e a expectativa de vida são drivers globais.
E a pandemia? Ela causou mais câncer de mama ou apenas interrompeu o tratamento?
A pandemia não causa câncer de mama. Mas interrompeu tratamentos em metade dos países pesquisados. Atrasos no diagnóstico significam que casos são descobertos mais tarde, quando são mais graves.
Então não sabemos se a pandemia aumentou a incidência real ou apenas piorou os resultados dos casos existentes?
Exatamente. A OMS não separou esses dois efeitos. O que ela confirmou é que metade dos países teve interrupções de tratamento.
No Brasil, a queda de 84% em mamografias é assustadora. Isso significa que 84% das mulheres deixaram de fazer o exame?
Não. Significa que o número total de mamografias caiu 84% em 2020 comparado com 2019. Pode ser que menos mulheres tenham feito, ou que as que faziam tenham deixado de fazer repetições.
E a lei que garante mamografia no SUS a partir dos 40 anos — ela está sendo cumprida?
A lei existe desde 2008, atualizada em 2019. Mas a queda de 84% sugere que não está sendo cumprida na prática, pelo menos não durante a pandemia.
Le Pouls
- O câncer de mama ultrapassou o câncer de pulmão e se tornou a forma mais comum de câncer no planeta — uma mudança histórica confirmada pela OMS em 2021.
- Obesidade feminina, crescimento populacional e longevidade alimentam o avanço dos casos, com projeção de 30 milhões de diagnósticos anuais até 2040.
- A pandemia de Covid-19 agravou a crise: metade dos países pesquisados pela OMS relatou interrupção nos tratamentos oncológicos.
- No Brasil, o número de mamografias despencou 84% em 2020 em relação ao ano anterior, empurrando diagnósticos para estágios mais avançados e perigosos.
- A detecção precoce oferece 90% de chance de cura — e a mamografia anual a partir dos 40 anos, garantida por lei no SUS desde 2008, permanece a principal arma disponível.
Pela primeira vez em duas décadas, o câncer de mama destituiu o câncer de pulmão do topo da lista das doenças oncológicas mais comuns no mundo — uma inversão que a OMS tornou oficial em fevereiro de 2021. Por trás dos números estão forças que se entrelaçam: o envelhecimento das populações, a obesidade crescente entre mulheres e uma pandemia que interrompeu tratamentos e afastou pacientes dos consultórios. O que a estatística revela, acima de tudo, é a vulnerabilidade silenciosa de milhões de mulheres diante de uma doença que, quando encontrada cedo, pode ser vencida.
Em 2 de fevereiro de 2021, a Organização Mundial de Saúde anunciou uma virada histórica: o câncer de mama tornou-se a forma mais comum de câncer no mundo, encerrando duas décadas de domínio do câncer de pulmão, agora rebaixado ao segundo lugar, seguido pelo câncer colorretal.
Andre Ilbawi, especialista em câncer da OMS, apontou a obesidade feminina como um dos principais fatores por trás do aumento de casos. A isso se somam o crescimento populacional e o envelhecimento global — conquistas humanas que, paradoxalmente, ampliam a exposição à doença. A projeção para 2040 é de 30 milhões de novos casos de câncer por ano, ante os 19,3 milhões registrados em 2020.
A pandemia de Covid-19 aprofundou o problema. Metade dos países pesquisados pela OMS relatou interrupções nos tratamentos oncológicos, causadas por atrasos em diagnósticos, sobrecarga dos profissionais de saúde e impactos nas pesquisas. O câncer não entra em quarentena.
No Brasil, o cenário foi ainda mais agudo: dados da Fundação do Câncer apontaram queda de 84% no número de mamografias realizadas em 2020 em comparação com 2019. Menos exames significam diagnósticos mais tardios — e resultados piores para as pacientes.
Ainda assim, há esperança concreta: detectado em estágio inicial, o câncer de mama tem 90% de chance de cura. A mamografia anual a partir dos 40 anos é a ferramenta mais eficaz para isso, e seu acesso pelo SUS é garantido por lei desde 2008. O direito existe. O desafio urgente é assegurar que as mulheres consigam, de fato, exercê-lo.
A Organização Mundial de Saúde marcou um ponto de virada na história do câncer global na terça-feira, 2 de fevereiro: o câncer de mama é agora a forma mais comum da doença no mundo. Durante vinte anos, o câncer de pulmão ocupou essa posição sombria. Agora é o segundo, empurrado para trás pelo câncer de mama e seguido pelo câncer coloretal.
Andre Ilbawi, especialista em câncer da OMS, confirmou a mudança com uma frase direta: pela primeira vez, o câncer de mama constitui a forma de câncer com maior ocorrência global. O que explica essa inversão? Ilbawi apontou a obesidade em mulheres como um fator de risco significativo que contribuiu para o aumento de casos. Mas há mais em jogo. O crescimento da população mundial e o aumento da expectativa de vida — fenômenos que deveriam ser celebrados — também amplificam a incidência de câncer. A projeção é alarmante: em 2040, o mundo registrará 30 milhões de novos casos de câncer por ano. Em 2020, foram 19,3 milhões.
A pandemia de Covid-19 adicionou uma camada de crise ao cenário. Segundo a OMS, metade dos países pesquisados relatou interrupção nos tratamentos de câncer. Ilbawi identificou os culpados: atrasos nos diagnósticos, o estresse extremo vivido pelos profissionais de saúde, e o impacto nas pesquisas na área. Quando os sistemas de saúde se contraem, o câncer não espera.
No Brasil, o câncer de mama é o segundo mais comum entre mulheres, atrás apenas do câncer de pele. Mas os números de detecção caíram dramaticamente. A Fundação do Câncer, usando dados do Sistema Único de Saúde, registrou uma redução de 84% no número de mamografias realizadas em 2020 comparado com 2019. Menos exames significam diagnósticos mais tardios, e diagnósticos tardios significam piores resultados.
Há, porém, uma nota de esperança embutida nesses dados. Quando o câncer de mama é descoberto em seu estágio inicial, a chance de cura chega a 90%. A mamografia é uma das ferramentas mais eficazes para essa detecção precoce, e deve ser feita anualmente a partir dos 40 anos. No Brasil, uma lei de 2008, atualizada em 2019, garante o acesso ao exame no SUS para mulheres com mais de 40 anos. O direito está na lei. O desafio agora é garantir que as mulheres consigam exercê-lo.
Citations marquantes
Pela primeira vez, o câncer de mama constitui a forma de câncer com maior ocorrência global— Andre Ilbawi, especialista em câncer da OMS
A pandemia de Covid-19 está interrompendo tratamentos de câncer na metade dos países pesquisados pela OMS— Organização Mundial de Saúde