Campos Neto vê menor pressão inflacionária externa e convergência da inflação à meta

O mundo está desinflacionando, mas o grande questionamento é o que vai acontecer nos EUA
Campos Neto identifica a desaceleração americana como o fator crítico para a estabilidade inflacionária global e brasileira.

Diante do Congresso, Roberto Campos Neto ofereceu um retrato do momento inflacionário global como um processo de convergência silenciosa: o mundo desinflaciona em uníssono, e o Brasil, a seu modo, acompanha esse ritmo. Mas o alívio externo não apaga as tensões internas — juros estruturalmente elevados, poupança escassa e crédito de difícil recuperação revelam que a arquitetura econômica brasileira carrega peso próprio, independente do que acontece além de suas fronteiras.

  • A inflação global recua de forma sincronizada, mas os Estados Unidos seguem como a grande incógnita — uma desaceleração desordenada americana poderia contaminar mercados emergentes como o Brasil.
  • No campo doméstico, o custo dos alimentos em casa pressiona a inflação brasileira, enquanto a inflação implícita deu sinais de alta antes de mostrar alguma estabilização.
  • As taxas de juros brasileiras permanecem 'absurdamente altas' nas palavras do próprio presidente do BC, sustentadas por baixa recuperação de crédito, dívida elevada e poupança insuficiente.
  • O Banco Central defende a meta contínua de inflação como âncora que reduz o custo do combate inflacionário — e aponta que Chile, Colômbia e Peru descumpriram suas metas com mais frequência que o Brasil.
  • Empresas demonstram mais pessimismo inflacionário do que o mercado financeiro, um sinal de alerta que o BC monitora enquanto os efeitos da política monetária ainda levam entre 12 e 18 meses para se materializar.

Roberto Campos Neto compareceu às Comissões de Desenvolvimento Econômico e de Finanças e Tributação da Câmara na terça-feira com uma mensagem de alívio cauteloso: o mundo está desinflacionando de forma sincronizada, e o Brasil acompanha esse movimento — ainda que com suas próprias complexidades.

O principal ponto de atenção global, segundo o presidente do Banco Central, são os Estados Unidos. O cenário-base é de desaceleração lenta e organizada da economia americana, o que pouparia o Brasil de turbulências externas. Na América Latina, pressões inflacionárias ligeiramente maiores se explicam, em grande parte, por energia e alimentos — fatores fora do alcance direto da política monetária.

No Brasil, o crescimento surpreendeu positivamente e o mercado de trabalho permanece aquecido, sem que isso tenha gerado pressões relevantes nos serviços. A inflação converge para a meta, embora o custo dos alimentos em domicílio siga como principal vetor de alta. A inflação implícita subiu, mas sinais recentes apontam para estabilização.

Campos Neto não desviou do tema mais espinhoso: os juros brasileiros são, em suas próprias palavras, 'absurdamente altos'. Ele atribui esse patamar a fatores estruturais — taxa de recuperação de crédito entre as mais baixas do mundo, poupança doméstica reduzida e relação dívida/PIB elevada. Ainda assim, lembrou que entre 2019 e 2024 o Brasil registrou sua menor inflação justamente no período de menores taxas de juros.

Sobre a meta de inflação, o presidente do BC defendeu o modelo contínuo como alinhado a padrões internacionais e capaz de reduzir o custo da desinflação. Ele reforçou que a meta é definida pelo governo, não pelo BC, e que a autoridade monetária atua como instituição técnica dentro do mandato que lhe é conferido — com efeitos que só se fazem sentir entre 12 e 18 meses após as decisões.

Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, apresentou-se terça-feira diante das Comissões de Desenvolvimento Econômico e de Finanças e Tributação da Câmara dos Deputados com uma mensagem de alívio temperado: o mundo inteiro está desinflacionando, e o Brasil está acompanhando esse movimento, ainda que com desafios próprios que permanecem intocados.

O cenário global, segundo Campos Neto, é de queda sincronizada da inflação. A grande incógnita, porém, permanece nos Estados Unidos. "A gente trabalha com cenário de desaceleração nos EUA de forma mais organizada", disse. Se essa desaceleração americana ocorrer de maneira lenta e controlada, o Brasil não deverá sofrer o "movimento de desorganização que o mercado teme". A América Latina começou a registrar pressões inflacionárias ligeiramente maiores, mas quando se examina a fundo, trata-se basicamente de energia e alimentos — fatores que escapam ao controle direto da política monetária.

No Brasil especificamente, o quadro é mais matizado. O país conseguiu crescimento acima do esperado, com números de emprego muito sólidos, sem que isso tivesse gerado até agora impactos significativos nos custos de serviços. A inflação vem convergindo para a meta estabelecida, apesar de alguns ciclos de alta ao longo do caminho. O custo da alimentação a domicílio tem sido o principal puxador da inflação recentemente — um problema que também afeta outros países da região. A inflação implícita começou a subir, mas sinais recentes sugerem estabilização.

Mas há um elefante na sala que Campos Neto não evita: as taxas de juros brasileiras são, em suas próprias palavras, "absurdamente altas". Ele reconhece que o Brasil possui uma taxa de juros neutra superior à de outros países. Ainda assim, argumenta que ao longo do tempo o país tem conseguido trabalhar com taxas progressivamente menores. Entre 2019 e 2024, o Brasil registrou sua menor inflação do período justamente quando operava com as menores taxas de juros desse intervalo.

O presidente do BC justifica os juros elevados por fatores estruturais: a taxa de recuperação de crédito no Brasil é muito baixa, ficando atrás apenas de países como Turquia e Angola. Isso se traduz em spreads mais altos. Além disso, a poupança dos brasileiros é reduzida comparada a outros países, e a relação dívida/PIB permanece elevada. Campos Neto argumenta que, diante desses fatores, "não é possível afirmar que a gente tem uma taxa de juros exorbitante, apesar de inflação muito baixa".

Quanto à meta de inflação, Campos Neto defende a estrutura atual. A meta contínua alinha o Brasil com padrões internacionais e permitiu ao Banco Central conduzir um processo de desinflação com custo relativamente baixo em termos de redução da atividade econômica. Quando a inflação está ancorada, o custo de combatê-la cai significativamente. Ele também ressaltou que outras nações latino-americanas — Chile, Colômbia, Peru — descumpriram suas metas inflacionárias com maior frequência que o Brasil.

Campos Neto explicou aos parlamentares que as medidas de política monetária levam entre 12 e 18 meses para fazer efeito, razão pela qual o Banco Central trabalha com horizonte temporal diferente do que muitos esperam. Ele enfatizou que a meta de inflação é determinada pelo governo, não pela autoridade monetária, e que o BC é uma instituição técnica que trabalha para cumprir o mandato que lhe é atribuído. Empresas têm se mostrado mais pessimistas quanto à inflação do que o mercado financeiro, um sinal que merece atenção contínua.

As taxas de juros no Brasil são absurdamente altas, mas ao longo do tempo temos conseguido trabalhar com taxas de juros mais baixas
— Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central
Quando a inflação está ancorada, o custo para combatê-la é muito menor
— Roberto Campos Neto
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Campos Neto diz que o mundo está desinflacionando, mas por que isso importa para o Brasil se temos problemas próprios?

Model

Porque a inflação não é um fenômeno isolado. Se os EUA desaceleram de forma organizada, não há choque de demanda global que puxe nossos preços para cima. Mas se houver caos lá, nossas importações ficam caras e tudo desanda.

Inventor

Ele reconhece que os juros são absurdamente altos. Por que não simplesmente reduzi-los?

Model

Porque não é uma escolha. A recuperação de crédito no Brasil é péssima — as pessoas não pagam. Isso força os bancos a cobrar mais. Se o Banco Central baixasse juros sem resolver isso, o crédito desapareceria.

Inventor

Mas então o Brasil está preso em um círculo vicioso?

Model

Não exatamente. Campos Neto mostra que entre 2019 e 2024 tivemos a menor inflação com as menores taxas de juros do período. Há progresso, mas é lento.

Inventor

E a alimentação? Por que está puxando a inflação agora?

Model

É um choque de oferta, não de demanda. Afeta toda a América Latina. O Banco Central não controla colheitas ou clima. Mas está se estabilizando.

Inventor

Ele parece estar se defendendo muito. De quem?

Model

Do mercado e dos políticos que acham que 3% de meta é impossível. Ele quer mostrar que o BC é técnico, que cumpre seu mandato, e que o Brasil não é exceção — outros países também lutam com isso.

Inventor

Então qual é o risco real que ele não está dizendo?

Model

Que se os EUA não desacelerarem de forma organizada, tudo muda. E que a estrutura de crédito e poupança do Brasil não se resolve com discurso — precisa de reformas profundas.

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