Num dia de outono em Bruxelas, a Comissão Europeia apresentou um plano que procura ensinar o continente a viver com um clima que já não é o de antes. Depois de um verão marcado por calor, secas e incêndios, e de perdas estimadas em cerca de 200 mil milhões de euros nos últimos anos, Bruxelas reconhece que a adaptação deixou de ser uma opção teórica. A proposta tenta organizar a resposta: clarificar quem responde por cada risco, reunir planos dispersos num só e alargar a proteção que os seguros ainda deixam por cobrir. É o retrato de uma sociedade que começa a aceitar que a conta da crise climá
Bruxelas apresenta plano de resiliência climática e alerta: o pior ainda pode estar por vir
O verão passado será muito provavelmente o mais ameno dos próximos anos
Qual é, afinal, a grande novidade deste plano?
A Lei de Resiliência Climática. Os Estados-Membros passam a ter um único plano estratégico nacional e têm de dizer claramente quem responde pela gestão de cada risco climático.
Bruxelas diz quem deve ser o responsável?
Não. Hoekstra disse que a Comissão não determina quem faz a tarefa, só exige que a identificação exista.
Convém separar o que é plano do que é facto consumado. É uma proposta, e o texto não diz quando nem como será aprovada.
E os números das mortes?
Ribera falou de entre 30 mil e 50 mil mortes prematuras neste verão na Europa. É um intervalo largo, e o que lhe dá peso é o próprio caráter dramático do valor.
Exatamente: é uma estimativa apresentada pela vice-presidente, e a notícia não explica a metodologia. Algo semelhante vale para os 180 mil milhões de euros de custo do calor e da seca deste verão, que ela disse que se espera.
Porque falam tanto de seguros?
Porque só um quarto das perdas por catástrofes está coberto por seguros privados. O resto recai muitas vezes sobre os orçamentos nacionais.
A aliança de seguros é ainda uma intenção. Não sabemos como funcionará nem quanto custará.
E o aviso de que o pior está por vir?
Vem da projeção de 3 °C até 2100, que Hoekstra tratou como possibilidade científica, ao mesmo tempo que insiste na meta de 1,5 grau.
Le Pouls
- Entre 30 mil e 50 mil mortes prematuras no verão europeu colocam a urgência em termos que já não admitem adiamentos.
- Apenas um quarto das perdas por catástrofes está segurado, deixando os orçamentos nacionais a suportar sozinhos o resto da fatura.
- Bruxelas quer acabar com as disputas sobre responsabilidades depois de cada inundação ou incêndio, exigindo que cada Estado-Membro identifique quem gere cada risco.
- Vários planos nacionais dispersos serão fundidos num único plano estratégico, na tentativa de cortar burocracia e acelerar a execução.
- A Iniciativa Europeia para a Água chega no próximo ano, e as ferramentas digitais de monitorização ganham terreno, mas o desafio de transformar planos em terreno continua em aberto.
Num dia de outono em Bruxelas, a Comissão Europeia apresentou um plano que procura ensinar o continente a viver com um clima que já não é o de antes. Depois de um verão marcado por calor, secas e incêndios, e de perdas estimadas em cerca de 200 mil milhões de euros nos últimos anos, Bruxelas reconhece que a adaptação deixou de ser uma opção teórica. A proposta tenta organizar a resposta: clarificar quem responde por cada risco, reunir planos dispersos num só e alargar a proteção que os seguros ainda deixam por cobrir. É o retrato de uma sociedade que começa a aceitar que a conta da crise climática se paga todos os dias, e que quanto mais cedo se prepara, menos cara ela se torna.
Na manhã desta terça-feira, em Bruxelas, Teresa Ribera abriu a conferência de imprensa com uma afirmação sem rodeios: as alterações climáticas não são uma farsa. Era a apresentação do plano da UE para a Resiliência Climática, pensado para que a Europa consiga antecipar, preparar-se e gerir os riscos do clima.
O ponto de partida foi o verão que passou. Ondas de calor e secas prolongadas alimentaram incêndios perigosos e fizeram descer alguns dos maiores rios europeus a níveis historicamente baixos. Ribera lembrou que o clima é também uma causa de morte e referiu entre 30 mil e 50 mil mortes prematuras neste verão. O comissário Wopke Hoekstra acrescentou que, mesmo que este tenha sido o verão mais quente já registado, provavelmente será o mais ameno dos próximos anos, porque a tendência é de agravamento. O planeamento de cidades, pontes, terras e água tem de contar com um mundo 3 °C mais quente até 2100.
As perdas económicas dos danos climáticos entre 2022 e 2025 rondam os 200 mil milhões de euros. Só o calor e a seca deste verão deverão custar cerca de 180 mil milhões, 1% da economia europeia. Ribera deu rosto aos números: colheitas perdidas, centrais energéticas paradas por falta de água e trabalhadores que morrem de calor ao ar livre nas horas mais quentes.
O centro da proposta é a Lei de Resiliência Climática, que substitui várias obrigações de planeamento por um único plano estratégico nacional e exige que cada país identifique quem responde por cada risco, evitando disputas depois de uma inundação. Bruxelas quer ainda uma aliança europeia de seguros climáticos, já que apenas um quarto das perdas por catástrofes está coberto por seguros privados. Hoekstra apelou a governos e autarcas para investirem agora, para poupar no futuro e proteger os cidadãos.
Na água, a Iniciativa Europeia para a Água chega no próximo ano para acelerar a Estratégia de Resiliência Hídrica. No plano digital, novas ferramentas de previsão e monitorização climática vão ser reunidas numa plataforma comum, numa aposta em decisões baseadas em dados.
Na manhã desta terça-feira, em Bruxelas, a vice-presidente da Comissão Europeia, Teresa Ribera, começou a conferência de imprensa com uma frase que dispensava rodeios: as alterações climáticas não são uma farsa. Era a abertura da apresentação do plano da UE para a Resiliência Climática, desenhado para reforçar a capacidade da Europa de antecipar, preparar-se e gerir os riscos do clima.
O ponto de partida, segundo a Comissão, foi o verão que passou. Ondas de calor e secas prolongadas alimentaram incêndios florestais perigosos e fizeram descer alguns dos maiores rios europeus a níveis de água historicamente baixos. Nos últimos anos, houve ainda cheias devastadoras. Ribera recordou que o clima é também uma causa poderosa de morte e apontou para entre 30 mil e 50 mil mortes prematuras ocorridas na Europa neste verão.
O comissário para o Clima, Wopke Hoekstra, foi mais longe na perspetiva. Disse que o verão passado pode ter sido o mais quente alguma vez registado, mas que muito provavelmente será o mais ameno dos próximos anos, e que, façamos o que fizermos, a tendência é de agravamento. As evidências científicas apresentadas por Bruxelas indicam que o mundo caminha para um aquecimento de 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais até 2030, 2 °C até 2050 e 3 °C até 2100. Por isso, defendeu, o planeamento de cidades, infraestruturas, pontes, terras, água e recursos tem de contar com esse cenário, mesmo que o esforço principal continue focado na meta de 1,5 grau.
A Comissão sublinha que 75% dos europeus vivem em cidades e áreas urbanas, onde sentem os impactos em primeira mão. As perdas económicas estimadas com danos climáticos entre 2022 e 2025 rondam os 200 mil milhões de euros, cerca de 50 mil milhões por ano. Só o calor e a seca deste verão deverão custar cerca de 180 mil milhões, 1% da economia europeia. Ribera traduziu o número em exemplos: agricultores com colheitas perdidas, centrais de energia desligadas por falta de água e não de combustível, trabalhadores que desmaiam ou morrem de calor ao ar livre nas horas mais quentes. Citou também investigação do Banco Central Europeu, segundo a qual a produção local fica 1,5 ponto percentual mais baixa dois anos após uma onda de calor, três pontos após uma seca e 2,8 pontos após uma inundação, quatro anos depois.
O centro da proposta é a Lei de Resiliência Climática, que pretende aliviar encargos administrativos dos Estados-Membros ao substituir várias obrigações e instrumentos de planeamento por um único plano estratégico nacional. Hoekstra explicou que o quadro exigirá clareza sobre quem é responsável pela gestão dos riscos climáticos em áreas políticas fundamentais. Bruxelas não vai ditar quem deve fazê-lo, mas exige que a identificação seja feita, para evitar disputas políticas sobre responsabilidades, por exemplo, depois de uma inundação.
Bruxelas quer também criar uma aliança europeia de seguros climáticos, para reduzir a grande lacuna de cobertura. Segundo Hoekstra, apenas um quarto das perdas causadas por catástrofes está hoje coberto por seguros privados, pelo que os orçamentos nacionais acabam muitas vezes como segurador de último recurso. A Comissão defende ainda um plano europeu para as ondas de calor, que ajude cidades, regiões e pessoas a enfrentar, a curto prazo, novos verões escaldantes. O apelo de Hoekstra a governos e autarcas foi direto: investir agora, poupar mais no futuro e proteger os cidadãos.
Na água, Ribera disse que a Estratégia de Resiliência Hídrica da UE dá um quadro de ação, mas que o verão mostrou ser preciso acelerar a sua aplicação. A Comissão apresentará a Iniciativa Europeia para a Água no próximo ano. Na vertente digital, a plataforma europeia em linha para a resiliência climática ganhará o European Climate Viewer, do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas a Médio Prazo, com mapa interativo dos perigos projetados; a evolução da Destination Earth, com supercomputação; o Navigator of Climate Resilience Tools, da Agência Europeia do Ambiente; e o Explorador de Soluções, com medidas de adaptação testadas pela Missão da UE para a Adaptação às Alterações Climáticas.
Citations marquantes
As alterações climáticas não são uma farsa; basta pensar nas 30 mil a 50 mil mortes prematuras deste verão na Europa.— Teresa Ribera, vice-presidente da Comissão Europeia
É muito melhor realizar o investimento inicial do que lidar mais tarde com o sofrimento das ondas de calor e das inundações.— Wopke Hoekstra, comissário europeu para o Clima