Das margens de Duque de Caxias às urnas da Flórida, Felipe Sousa Lazaballet percorreu um caminho que condensa décadas de luta silenciosa por pertencimento — primeiro como imigrante irregular, depois como ativista, agora como candidato. Aos 40 anos, ele disputa uma vaga na Câmara estadual da Flórida pelo Distrito 42 de Orlando, carregando consigo a memória dos que vivem à sombra das leis e a esperança de que a política possa ser habitada por quem mais precisou dela.
Brasileiro que foi imigrante irregular concorre a deputado na Flórida
Sua história falava por si só
Como um imigrante em situação irregular conseguiu chegar a esse ponto, disputando um cargo político?
Felipe tinha algo que muitos não têm: acesso à educação e uma rede de apoio. Quando descobriu que não podia ir para a universidade, encontrou uma faculdade que aceitava imigrantes como ele. Depois, se envolveu com o movimento pelos dreamers, ganhou o Daca, e nunca parou de trabalhar pela comunidade.
Mas é importante notar que o Daca é proteção temporária, renovável a cada dois anos. Felipe só conquistou a cidadania em 2021, depois de mais de duas décadas nos EUA. Quantos imigrantes têm essa paciência ou oportunidade?
E quanto à sua identidade como gay e democrata em um distrito republicano?
Essas são características que o tornam uma figura rara na política da Flórida. Ele viveu o massacre da Pulse em 2016, trabalhou com as vítimas. Sua vida é inseparável dessas lutas.
Verdade, mas precisamos ser claros: ele está em um distrito que é dominado por republicanos. Não sabemos ainda se os eleitores vão responder à sua história ou se ela será usada contra ele. A eleição é em novembro.
Por que Anna Eskamani o escolheu especificamente?
Ela disse que sua história falava por si só. Felipe sempre atuou pelos marginalizados, tendo sido um deles. Isso dá credibilidade.
Mas também é verdade que Eskamani cumpriu o limite de mandatos e precisava de um sucessor. Não sabemos quanto peso sua recomendação terá com os eleitores do Distrito 42.
Le Pouls
- Um brasileiro que chegou aos EUA aos 14 anos com visto de turista e ficou irregular por mais de uma década agora concorre a deputado estadual em um dos estados mais conservadores do país.
- A candidatura democrata em um distrito republicano de Orlando enfrenta ventos contrários: Felipe é imigrante, gay e ativista — três identidades que o tornam alvo em um cenário político hostil.
- Sua trajetória inclui uma marcha de 1.500 quilômetros até Washington em 2010 e o trabalho direto com sobreviventes do massacre da boate Pulse, eventos que moldaram sua visão política e sua base de apoio.
- O programa Daca, criado por Obama em 2012, foi o primeiro degrau legal de Felipe; a cidadania veio em 2021, abrindo o caminho para a candidatura que pode torná-lo o primeiro brasileiro eleito para o cargo.
- Se vencer em 3 de novembro, Felipe será simultaneamente o primeiro brasileiro e o primeiro imigrante abertamente gay a servir como deputado estadual na Flórida, reescrevendo o que é possível naquele parlamento.
Das margens de Duque de Caxias às urnas da Flórida, Felipe Sousa Lazaballet percorreu um caminho que condensa décadas de luta silenciosa por pertencimento — primeiro como imigrante irregular, depois como ativista, agora como candidato. Aos 40 anos, ele disputa uma vaga na Câmara estadual da Flórida pelo Distrito 42 de Orlando, carregando consigo a memória dos que vivem à sombra das leis e a esperança de que a política possa ser habitada por quem mais precisou dela.
Felipe Sousa Lazaballet nasceu em Duque de Caxias, filho de uma empregada doméstica cearense que o criou sozinha. Em 2001, aos 14 anos, foi levado pela irmã mais velha para a Flórida com um visto de turista que jamais seria renovado. Tornou-se um dos melhores alunos do colégio — até que, aos 16 anos, um orientador escolar o informou que sua condição irregular o impediria de entrar em uma universidade. O golpe foi duro, mas um conhecido da igreja revelou que o Miami Dade College aceitava estudantes sem documentação. Felipe se matriculou em relações internacionais e começou a descobrir, ao mesmo tempo, o ativismo pelos chamados dreamers.
Em 2010, ele ajudou a organizar a Trail of Dreams, uma marcha a pé de 1.500 quilômetros da Flórida até Washington para pressionar pela legalização dos imigrantes trazidos ao país ainda crianças. A empreitada durou cinco meses. Dois anos depois, o presidente Obama criou o Daca, e Felipe, então com 26 anos, foi um dos beneficiados. Hoje, 436 mil imigrantes mantêm o programa, entre eles quase 3 mil brasileiros.
De volta à Flórida em 2016, Felipe passou a trabalhar com a Prefeitura de Orlando. Naquele junho, o massacre da boate Pulse — 49 mortos em um ataque homofóbico — o marcou profundamente. Ele atuou no suporte a sobreviventes e familiares das vítimas, e depois assumiu a liderança da Hope CommUnity Center, organização de apoio a imigrantes. Conquistou o green card, casou-se e, em 2021, obteve a cidadania americana.
Em 2025, a deputada Anna Eskamani, que havia chegado ao limite de mandatos permitido pela lei local, o convidou a disputar sua vaga. Ela lhe disse que sua história falava por si só. Agora, Felipe concorre pelo Distrito 42 de Orlando como democrata em reduto republicano. Se eleito em 3 de novembro, será o primeiro brasileiro e o primeiro imigrante abertamente gay a servir como deputado estadual na Flórida — a culminação de uma vida construída nas margens e direcionada, desde sempre, para o centro do que importa.
Felipe Sousa Lazaballet nasceu em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, e aos 14 anos foi levado pela irmã mais velha para a Flórida em 2001, com um visto de turista que nunca foi renovado. Agora, aos 40 anos, ele disputa uma vaga na Câmara de Deputados da Flórida pelo Distrito 42, na região metropolitana de Orlando, como candidato democrata em um reduto republicano. Se vencer nas eleições de 3 de novembro, será o primeiro brasileiro eleito para esse cargo no estado.
Sua mãe era empregada doméstica natural do Ceará e criou Felipe sozinha. A irmã, que havia emigrado seis anos antes, prometeu trazê-lo assim que se estabilizasse. Quando chegou, Felipe foi matriculado no colégio e se tornou um dos melhores alunos, construindo uma vida que parecia promissora. Mas aos 16 anos, um orientador de profissões da escola o informou que sua condição de imigrante irregular — seu visto havia expirado — o impediria de ingressar em uma universidade. A notícia o devastou, pois o ensino superior era seu grande sonho.
Meses depois, um conhecido da igreja que frequentava, também imigrante brasileiro, lhe contou que o Miami Dade College aceitava estudantes em situação irregular. Felipe se matriculou e cursou relações internacionais. Durante esse período, tomou consciência cada vez maior de seu status migratório justamente quando crescia nos Estados Unidos um debate que o incluía diretamente: a luta pela legalização de imigrantes trazidos ao país quando crianças, os chamados "dreamers" (sonhadores). Em 2006, começou a se envolver com o movimento, participando de reuniões e mobilizações.
A ação mais marcante ocorreu em 2010, quando Felipe e outros jovens adultos na mesma situação organizaram a Trail of Dreams, uma marcha a pé de 1.500 quilômetros da Flórida até Washington. A empreitada durou cinco meses, de janeiro a maio, e buscava pressionar o governo pela legalização dos dreamers. Dois anos depois, o presidente Barack Obama criou o programa Daca, que oferecia proteção temporária de dois anos e autorização de trabalho para imigrantes que haviam entrado nos EUA antes dos 16 anos e tivessem menos de 31 anos, além de diploma do ensino médio. Felipe, então com 26 anos, se enquadrava nos critérios e recebeu o benefício. Atualmente, 436 mil imigrantes mantêm o Daca, entre eles 2.990 brasileiros, a sétima nacionalidade mais representada no programa.
Após um breve período em Nova York, Felipe retornou à Flórida em 2016 para trabalhar com a Prefeitura de Orlando. Naquele junho, o atirador Omar Mateen matou 49 pessoas em um ataque homofóbico na boate Pulse, o maior ataque contra a comunidade LGBTQIA+ na história dos Estados Unidos. Felipe trabalhou no suporte aos sobreviventes e aos familiares das vítimas. Posteriormente, começou a liderar a Hope CommUnity Center, uma organização de apoio a imigrantes. Casou-se, conquistou o green card e, em 2021, obteve a cidadania americana.
Em 2025, a deputada democrata Anna Eskamani, filha de imigrantes iranianos, o convidou para disputar sua vaga na Câmara da Flórida. Eskamani havia cumprido quatro mandatos consecutivos de dois anos, o limite permitido pela legislação local. Segundo Felipe, Anna lhe disse que sua história falava por si só e que sua atuação consistente em favor dos mais marginalizados, tendo sido ele próprio um imigrante em situação irregular, lhe dava a credibilidade necessária para concorrer. Se eleito, Felipe será não apenas o primeiro brasileiro a servir como deputado estadual na Flórida, mas também o primeiro imigrante abertamente gay a ocupar esse cargo. Sua candidatura representa uma trajetória que atravessa décadas de ativismo pelos direitos dos imigrantes e pela comunidade LGBTQIA+, em um estado que historicamente tem sido dominado por políticos conservadores.
Citations marquantes
Minha mãe sempre me ensinou a importância da educação, do trabalho duro, da honestidade— Felipe Sousa Lazaballet
Sua história falava por si só, e o fato de sempre ter atuado pelos mais marginalizados, tendo sido ele próprio um imigrante em situação irregular, dava-lhe a credibilidade necessária para concorrer— Anna Eskamani, deputada democrata que o convidou para disputar sua vaga