Brasil que dá certo: Inpe, Impa, Embraer, Porto Digital e Embrapa mostram o valor da ciência e da formação

O Brasil fica preso ao debate Estado versus mercado; esses projetos mostram outro caminho
Marcos Lisboa resume o que une Inpe, Impa, Embraer, Porto Digital e Embrapa.
Mark

Por que a Folha reúne esses cinco casos justamente agora?

Mimi

Porque o segundo turno quase não tocou em educação, ciência e inovação. A reportagem mostra que esses temas estão no centro de projetos que o país admira.

Mark

O que une instituições tão diferentes?

Mimi

Marcos Lisboa fala em ciência aplicada, liberdade para inovar, formação de gente e abertura ao exterior. Para ele, é Estado e mercado juntos.

Luke

Isso é a leitura de um economista, não uma conclusão comprovada. O texto não compara com casos que falharam.

Mark

E o episódio do Inpe em 2019?

Mimi

Mostra o prestígio funcionando como proteção. Os dados abertos permitem que qualquer um os teste.

Luke

Vale notar que a reportagem diz que o prestígio serviu de blindagem, mas não mede quanto. Galvão foi demitido de qualquer forma.

Mark

Há números firmes?

Mimi

Muitos: 541 empresas no Porto Digital, 9.000 aeronaves da Embraer, 18 milhões de estudantes na olimpíada do Impa.

Luke

Vários vêm das próprias instituições ou de seus dirigentes, como a Embraer por e-mail. E o trecho final sobre a Embrapa está cortado, então o dado de 110% fica sem o contexto completo.

  • Em plena disputa eleitoral, temas como ciência e educação ficaram quase invisíveis no segundo turno, enquanto o país seguia dividido entre Estado e mercado.
  • O episódio do Inpe em 2019, quando dados de desmatamento foram questionados e seu diretor acabou demitido, expõe a fragilidade de instituições que dependem de vontade política.
  • Projetos como o Porto Digital, que saiu de duas empresas e 50 funcionários para mais de 24 mil trabalhadores, buscam combinar incentivo público e iniciativa privada sem se deixar capturar por interesses específicos.
  • A tendência aponta para modelos de cooperação entre governo e setor privado, em que autonomia institucional e formação de pessoas aparecem como condições para resultados duradouros.

Há uma tradição brasileira, menos barulhenta que as disputas de palanque, de instituições que aprenderam a unir rigor científico, formação de gente e liberdade para inovar. Em uma eleição na qual educação, ciência e tecnologia quase não ocuparam o centro do debate, a Folha lembra que o Inpe, o Impa, a Embraer, o Porto Digital e a Embrapa mostram um caminho em que Estado e mercado não precisam se excluir. Seus exemplos sugerem que a confiança pública se constrói com transparência e autonomia, e que o país ainda tem muito a aprender com o que já deu certo.

Em 2019, pressionado por alertas de desmatamento na Amazônia, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que os números do Inpe eram "mentirosos" e acusou o diretor Ricardo Galvão de servir a alguma ONG. Galvão foi demitido, mas o monitoramento seguiu mostrando um desmatamento elevado. É dessa tensão entre dados e poder que parte a reportagem da Folha sobre cinco projetos brasileiros que deram certo, publicada num segundo turno em que educação, ciência e inovação foram pouco discutidos.

O grupo reúne o Inpe e o Impa, ligados ao governo federal, a Embrapa, a Embraer, empresa privada, e o Porto Digital do Recife, impulsionado por governos estadual e municipal. Para o economista Marcos Lisboa, o que os une é a combinação de ciência aplicada, liberdade para inovar, investimento em pessoas e abertura ao exterior. Ele vê nesses casos uma saída para o debate estéril entre Estado e mercado.

O Inpe, criado em 1961, observa a Terra por satélite e acumula credibilidade pela formação de suas equipes e pela transparência: dados e metodologias estão abertos para qualquer um testar. O Impa, por sua vez, formou centenas de doutores e mestres e criou uma olimpíada de matemática que alcança milhões de estudantes de escolas públicas. Seu diretor atribui o prestígio a menos burocracia e mais atenção à substância.

A Embraer, nascida de engenheiros do ITA e privatizada em 1994, tornou-se a principal exportadora brasileira de bens de alto valor agregado e acaba de registrar carteira de pedidos recorde. O Porto Digital, surgido em 2000 para revitalizar o centro histórico do Recife e reter jovens talentos, hoje reúne centenas de empresas e dezenas de milhares de trabalhadores. Já a Embrapa ajudou o país a deixar de importar grande parte de seus alimentos e elevou a produtividade agrícola, graças a um modelo jurídico que lhe deu mais autonomia.

Os cinco casos mostram que resultados duradouros dependem menos de ideologia do que de instituições bem formadas, transparentes e protegidas de interferências momentâneas.

Em julho de 2019, pressionado pela imprensa sobre os altos alertas de desmatamento na Amazônia, o então presidente Jair Bolsonaro (PL) disse ter "convicção" de que os números do Inpe eram "mentirosos" e acusou o diretor do instituto, Ricardo Galvão, de estar a serviço de alguma ONG. Galvão rebateu e acabou demitido. O monitoramento, porém, seguiu mostrando que o desmatamento havia se estabilizado em um patamar alto. A cena abre uma reportagem da Folha sobre cinco projetos brasileiros bem-sucedidos, publicada num segundo turno eleitoral em que educação, ciência e inovação receberam pouca atenção dos candidatos.

O grupo reúne o Inpe e o Impa, ligados ao governo federal, a Embrapa, a Embraer, empresa privada, e o Porto Digital do Recife, projeto basicamente privado impulsionado pelos governos estadual e municipal. Para o economista Marcos Lisboa, o que têm em comum é "muita ciência aplicada e liberdade para inovar e empreender", além de investimento na formação de pessoas e abertura ao exterior. Segundo ele, o país se prende à disputa entre Estado e mercado, e esses casos apontam outro caminho: a combinação dos dois.

O Inpe, fundado em 1961, pesquisa ciências espaciais e atmosféricas, observa a Terra por satélite e estuda mudanças climáticas. Tem cerca de 480 pesquisadores distribuídos em 12 unidades, de São Martinho da Serra (RS) a Belém (PA). Claudio Almeida, coordenador do Programa de Monitoramento dos Biomas Brasileiros, atribui a credibilidade à boa formação das equipes e à transparência: todos os dados e metodologias estão na internet para qualquer pessoa testar. Em 2004, diz ele, o instituto foi o primeiro do mundo a liberar gratuitamente imagens de satélite. O projeto Prodes, que mapeia a remoção da vegetação na Amazônia, existe desde 1988, e hoje todos os biomas são monitorados. Na pós-graduação, desde 1968, foram concedidos 1.507 doutorados e 2.761 mestrados.

O Impa, fundado em 1952, passou a ensinar cerca de dez anos depois e soma 550 doutorados e 900 mestrados, com 46 pesquisadores fixos. Em 2005 criou a Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas, que teve mais de 18 milhões de estudantes na primeira fase de sua edição mais recente. O diretor, Marcelo Viana, atribui a boa reputação também a menos amarras burocráticas: "damos mais importância à substância do que às regras formais". Artur Avila doutorou-se ali aos 21 anos e, 14 anos depois, ganhou a medalha Fields, primeiro latino-americano a recebê-la.

A Embraer, fundada em 1969, cresceu com engenheiros formados no ITA. Foi privatizada em 1994, no governo Itamar Franco. Já entregou mais de 9.000 aeronaves a clientes em mais de cem países, é a principal exportadora brasileira de bens de alto valor agregado e líder mundial em jatos comerciais de até 150 assentos. Na sexta-feira, dia 23, anunciou carteira de pedidos recorde no terceiro trimestre: R$ 179,8 bilhões, 14% a mais que um ano antes. Em outubro, o caça Gripen E, desenvolvido com a sueca Saab, fez seu voo inaugural em Gavião Peixoto (SP), primeiro supersônico produzido no Brasil. A subsidiária Eve prevê lançar o eVTOL, o carro voador, em 2028.

O Porto Digital nasceu em 2000, no centro histórico do Recife, para enfrentar a degradação da área antiga e a perda de recém-formados em computação por falta de bons empregos. Reuniu governo estadual, sob Jarbas Vasconcelos, acadêmicos e empresários, com incentivos fiscais da prefeitura. Cláudio Marinho e Silvio Meira são vistos como seus principais idealizadores. Começou com duas empresas e 50 funcionários; hoje são 541 companhias e mais de 24 mil trabalhadores. O diretor do NGPD, Pierre Lucena, diz que o contratação no setor segue crescendo no Recife enquanto está estagnada no país, e que a governança não se deixa capturar por interesses específicos. O programa Embarque Digital já formou mais de 3.000 estudantes de escolas públicas. Há unidade em Caruaru e outra abre em Petrolina no ano que vem.

A Embrapa, criada em 1973, responde em grande parte pela mudança de um país que importava 30% dos alimentos no início dos anos 1960, lembra José Alexandre Scheinkman. Eliseu Alves, seu primeiro diretor de recursos humanos, enviou cerca de 2.000 pesquisadores para se aprimorar no exterior e presidiu a empresa de 1979 a 1995. Hoje tem 95 anos e vive em Brasília. Segundo José Eustáquio Vieira Filho, do Ipea, o modelo jurídico dava mais autonomia que o de outros órgãos. Seus avanços, como a tecnologia para melhorar o solo do cerrado, elevaram a produtividade em 110%. O texto original é interrompido nesse ponto.

Muita ciência aplicada e liberdade para inovar e empreender.
— Marcos Lisboa, economista
Damos mais importância à substância do que às regras formais e proibições.
— Marcelo Viana, diretor do Impa
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