Brasil tem maior probabilidade de calor extremo do mundo até sexta-feira

Populações vulneráveis como gestantes, idosos e crianças enfrentam risco aumentado; 232 mil imóveis ficaram sem energia em São Paulo; reservatórios reduzem até 30% em algumas cidades.
O ar quente fica bloqueado, impedindo a dispersão do calor
Como funciona a redoma térmica que se instalou no Centro-Sul do Brasil desde o final de janeiro.

Índice de Previsão Extrema aponta valores acima de 0,8 no Centro-Oeste, Sudeste e Sul, indicando probabilidade muito alta de condições incomuns. Cidades como São Paulo, Belo Horizonte e Campinas distribuem água e instalam bebedouros, mas especialistas alertam que medidas devem ir além.

  • Índice de Previsão Extrema acima de 0,8 no Centro-Oeste, Sudeste e Sul
  • 232 mil imóveis sem energia em São Paulo após tempestade
  • Redução de até 30% em reservatórios de água em algumas cidades
  • 220 municípios com seca moderada e severa entre novembro e janeiro

Brasil é o país com maior probabilidade de calor extremo no mundo até sexta-feira, segundo Centro Europeu de Meteorologia. Uma redoma de calor no Centro-Sul causa temperaturas acima da média e afeta reservatórios de água.

Desde o final de janeiro, uma redoma de calor se instalou sobre o Centro-Sul do Brasil, e o país agora enfrenta a maior probabilidade de condições meteorológicas extremas do mundo até sexta-feira. Segundo o Centro Europeu de Meteorologia, o Índice de Previsão Extrema registra valores acima de 0,8 no Centro-Oeste, Sudeste e Sul — números que indicam uma probabilidade muito alta de eventos incomuns e severos. A escala do índice vai de -1 a 1, e quanto mais próximo de 1, mais extremo o fenômeno previsto. Meteorologistas brasileiros confirmam que os modelos europeus estão entre os mais confiáveis e utilizados globalmente. Humberto Barbosa, coordenador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites, aponta que o sinal é intenso para o evento que ocorre agora, com previsão de que o bloqueio atmosférico se intensifique no dia 25 de fevereiro. Ainda é cedo para afirmar com certeza se o sistema se estenderá até o fim do mês, mas a possibilidade existe.

O sistema de alta pressão que se instalou há semanas funciona como uma redoma: o ar quente e seco desce, aquece ainda mais a superfície e fica bloqueado, impedindo a dispersão do calor. Vários municípios já registram temperaturas acima da média mesmo para o verão. Em São Paulo, na tarde de terça-feira, os termômetros chegaram a 37°C pela manhã, antes de uma tempestade com trovoadas, ventos de até 35 quilômetros por hora e granizo transformar o céu. A chuva deixou 232 mil imóveis sem energia na região metropolitana, mas não foi suficiente para aliviar o calor. O Instituto Nacional de Meteorologia emitiu alertas de novas chuvas até a manhã de quarta-feira para quase todo o estado de São Paulo, além de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Tocantins.

As consequências já aparecem nos reservatórios de água. Em São Carlos, a redução chegou a 30% em algumas unidades. No Paraná, a prefeitura de Tubarão contratou caminhões-pipa para abastecer a população, enquanto Palmeira emitiu avisos de possível desabastecimento. Em Santa Catarina, as concessionárias de Camboriú, Itajaí e Capivari dispararam alertas pedindo economia de água, cujo consumo cresceu significativamente nos últimos dias. O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais registrava 220 municípios com seca moderada e severa entre novembro e janeiro, especialmente no Acre, Pará, Tocantins e Mato Grosso.

Diante deste cenário, cidades vêm adotando medidas emergenciais. Belo Horizonte, São Paulo, Passos, Americana, Agudos, Jaú e Campinas distribuem água e instalam bebedouros públicos. Governos estaduais e prefeituras divulgam boletins meteorológicos e orientações gerais à população, reforçando a importância da hidratação, evitar exposição ao sol e usar roupas leves. No Rio Grande do Sul, a Secretaria de Saúde recomendou climatização das unidades de atendimento com disponibilização de água potável e ajuste de horários para evitar aglomerações. No Mato Grosso do Sul, o governo sugeriu mais alimentos com concentração de água nas refeições escolares e reposicionamento dos horários de atividades físicas.

Mas especialistas alertam que essas ações, embora bem-vindas, são insuficientes. A distribuição de água e boletins informativos não bastam. Karina Bruno Lima, doutoranda em Climatologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, enfatiza que as cidades precisam repensar seus espaços urbanos como preparação para a intensificação de eventos extremos. Planos de adaptação climática devem ser pensados para a realidade de cada lugar, criando e ampliando espaços verdes e azuis — vegetação e corpos de água contribuem muito para o resfriamento do ambiente. Também é necessário incorporar superfícies permeáveis, investir em isolamento térmico nas construções e aumentar a capacidade de refletir a radiação de telhados e pavimentos com cores mais claras.

Andrews Lucena, professor do Programa de Pós Graduação em Geografia da Universidade Federal Rural do Rio, propõe a criação de "ilhas de frescor urbanas" em áreas verdes ampliadas. Lucena preside a comissão de mudanças climáticas da universidade e representa o Ministério Público do estado no acompanhamento das ações climáticas da prefeitura do Rio. Para ele, o mais importante é rearranjar os espaços para enfrentar o calor, aumentando a refrigeração e melhorando a infraestrutura arquitetônica dos prédios e espaços públicos como praças e pontos de ônibus.

Outra preocupação central é o cuidado com populações vulneráveis. Especialistas destacam que agentes comunitários de saúde devem acompanhar gestantes, idosos e crianças. A organização de abrigos climatizados e a flexibilização de horários de trabalho, principalmente para quem trabalha nas ruas, são providências recomendadas. Essas medidas vão além do imediato, reconhecendo que o calor extremo afeta desproporcionalmente aqueles com menos recursos para se proteger. O desafio agora é transformar essas recomendações em políticas públicas antes que o próximo evento extremo chegue.

O sinal é muito intenso sobre esse evento que ocorre agora, das temperaturas extremas
— Humberto Barbosa, coordenador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites
É essencial que planos de adaptação climática sejam pensados para a realidade de cada lugar, para criar e ampliar espaços verdes e azuis
— Karina Bruno Lima, doutoranda em Climatologia pela UFRGS
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que o Brasil está em uma situação tão particular agora, comparado ao resto do mundo?

Model

A redoma de calor que se instalou aqui cria um bloqueio atmosférico muito específico — o ar quente fica preso, sem conseguir se dispersar. É como se o país estivesse sob uma tampa invisível. Isso não está acontecendo em outros continentes no mesmo momento.

Inventor

O que significa exatamente esse índice de 0,8 que os meteorologistas mencionam?

Model

É uma medida de quão extremo e incomum é o evento. Quanto mais perto de 1, mais raro e severo. Um 0,8 significa que as condições que estamos vendo agora são realmente fora do padrão, mesmo para o verão.

Inventor

As chuvas em São Paulo não resolveram o problema?

Model

Não. Choveu bastante, deixou centenas de milhares sem energia, mas a temperatura não caiu. A redoma continua ali. É como tentar esfriar uma panela com a tampa fechada — a água entra, mas o calor não sai.

Inventor

Por que os especialistas insistem que distribuir água não é suficiente?

Model

Porque água é um curativo, não uma cura. Você está tratando o sintoma imediato — a desidratação — mas não está mudando a realidade urbana que torna as pessoas vulneráveis. Sem espaços verdes, sem sombra, sem infraestrutura pensada para o calor, o problema volta na próxima onda.

Inventor

Essas "ilhas de frescor urbanas" — como funcionariam na prática?

Model

Seriam áreas verdes ampliadas, com vegetação densa e corpos de água. Praças redesenhadas, ruas com mais árvores, superfícies que refletem luz em vez de absorver. Cria-se um microclima mais fresco onde as pessoas podem ir, especialmente os mais vulneráveis.

Inventor

Qual é o risco se nada mudar nos próximos meses?

Model

Os reservatórios continuam caindo — alguns já perderam 30%. Se a redoma persistir até o fim de fevereiro, como é possível, você tem desabastecimento de água em cidades inteiras, colapso de infraestrutura, e populações vulneráveis enfrentando risco real à vida.

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