Brasil é 2º país com mais jovens fora da escola e desempregados, aponta OCDE

Milhões de jovens brasileiros enfrentam situação de limbo sem acesso à educação ou oportunidades de emprego, comprometendo seu futuro e o desenvolvimento econômico do país.
Uma geração inteira presa numa espécie de vácuo
Descrição da situação de milhões de jovens brasileiros que não estudam nem trabalham, segundo dados da OCDE.
Mark

Por que o Brasil está tão atrás nesse ranking? É falta de empregos ou falta de acesso à educação?

Mimi

É os dois, mas não da forma que parece simples. Não é que não existam empregos — é que os jovens pobres precisam trabalhar para sobreviver antes de terminar a escola, e aí eles saem. E quando saem, fica difícil voltar.

Mark

Então a culpa é da pobreza?

Mimi

A pobreza é o contexto, mas há mais. Há falta de políticas que conectem educação com oportunidades reais. Um jovem em área rica tem rede, tem tempo, tem segurança. Um jovem em área pobre está resolvendo problema imediato de sobrevivência.

Mark

E por que especialistas falam em "sem-sem" em vez de "nem-nem"?

Mimi

Porque "nem-nem" soa como se fosse escolha deles, como se fossem preguiçosos. "Sem-sem" reconhece que eles estão sem acesso, sem oportunidade — não é negligência deles, é negligência do sistema.

Mark

Qual é o risco real se isso continuar assim?

Mimi

Demográfico e econômico. O Brasil envelhece. Menos jovens para trabalhar, mais idosos para sustentar. Se esses jovens não estão produtivos, quem paga a conta?

Mark

E a solução é profissionalizar o ensino médio?

Mimi

É uma parte. Mas precisa vir com políticas de renda, de acesso, de permanência. Profissionalizar sem mudar a desigualdade regional é só colocar um curativo.

  • O Brasil figura em segundo lugar num ranking de 37 países com maior proporção de jovens fora da escola e do mercado de trabalho, segundo relatório recente da OCDE.
  • A desigualdade regional aprofunda a crise: nas regiões mais pobres, a concentração de jovens desocupados é dramaticamente maior do que nas áreas mais ricas do país.
  • Especialistas rejeitam o rótulo 'nem-nem' e adotam 'sem-sem', sinalizando que a exclusão desses jovens não é passividade, mas consequência de barreiras estruturais que bloqueiam qualquer saída.
  • O envelhecimento acelerado da população brasileira torna o problema ainda mais urgente: sem jovens integrados ao trabalho, o país não terá base para sustentar sua crescente população idosa.
  • A transformação do ensino médio em formação profissionalizante emerge como proposta central para romper o ciclo e conectar jovens ao mercado antes que o limbo se torne permanente.

Entre 37 nações avaliadas pela OCDE, o Brasil ocupa o segundo lugar na proporção de jovens que não estudam nem trabalham, superado apenas pela África do Sul. Por trás desse dado há uma geração inteira suspensa num vácuo de oportunidades — não por escolha, mas por obstáculos sistêmicos enraizados em décadas de desigualdade. O país envelhece enquanto parte significativa de seus jovens permanece à margem, colocando em risco tanto o destino individual de milhões quanto a sustentabilidade econômica coletiva.

Um relatório da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico revelou que o Brasil ocupa o segundo lugar entre 37 países na proporção de jovens que não estudam e não trabalham, ficando atrás apenas da África do Sul. O dado expõe não apenas uma estatística, mas uma geração inteira presa num vácuo de oportunidades.

As histórias individuais ilustram a dimensão humana do problema. Enquanto alguns jovens têm tempo e apoio familiar para planejar o futuro, outros — como Marisa Costa Alves, que abandonou os estudos em 2020 após duas gestações — viram seus sonhos de carreira se dissolverem sem que houvesse espaço para escolha. Para esses, a ausência não foi decisão: foi a vida acontecendo sem rede de proteção.

Especialistas preferem o termo 'sem-sem' ao popular 'nem-nem', reconhecendo que esses jovens enfrentam obstáculos sistêmicos, não inércia voluntária. O economista Hélio Zylberstajn alerta para uma armadilha demográfica: o Brasil envelhece rapidamente e produz cada vez menos jovens, mas uma parcela expressiva deles não estará em condições de sustentar a população idosa que cresce.

A desigualdade regional torna o quadro ainda mais grave. Nas regiões mais pobres, a proporção de jovens desocupados é alarmantemente superior à das áreas ricas — uma disparidade que não é acidental, mas herança de décadas de exclusão que se reproduz entre gerações.

Diante disso, economistas e sociólogos defendem a transformação do ensino médio em formação profissionalizante, para que os jovens saiam da escola com uma ocupação concreta. A proposta é vista como caminho para romper o ciclo que compromete não apenas vidas individuais, mas o futuro econômico do país.

Um relatório recém-divulgado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico colocou o Brasil em segundo lugar numa lista que ninguém gostaria de ocupar: entre 37 países analisados, apenas a África do Sul supera o Brasil quando o assunto é a proporção de jovens que não estudam e não trabalham. A pesquisa expõe uma realidade que vai além dos números — é uma geração inteira presa numa espécie de vácuo, sem acesso às ferramentas que poderiam transformar suas vidas.

Os rostos por trás dessa estatística contam histórias diferentes. Kailane Moreira Franco, aos vinte anos, estava num ponto de decisão quando poderia ter escolhido entre biologia ou medicina veterinária. Seus pais lhe ofereciam tempo e apoio para pensar sobre o futuro. Mas para Marisa Costa Alves, dona de casa que cuida de dois filhos, a trajetória foi outra. Ela não voltou aos estudos desde 2020. Duas gestações a afastaram da escola, e com elas desapareceu o sonho de ser delegada ou advogada. Não foi uma escolha; foi a vida acontecendo sem que houvesse espaço para planejamento.

Especialistas preferem chamar esses jovens de "sem-sem" em vez de "nem-nem", uma distinção que importa. O termo reconhece que a ausência de educação e emprego não é resultado de decisões livres, mas de obstáculos sistêmicos que bloqueiam o caminho. Hélio Zylberstajn, professor de economia na USP, vê o problema em sua dimensão completa: o Brasil envelhece enquanto produz cada vez menos jovens, e uma parcela significativa desses poucos jovens que existem não terá condições de sustentar a população idosa que cresce. É uma tragédia tanto em escala macro quanto microeconômica.

O país revela sua divisão mais profunda quando se observa essa questão através da lente geográfica. Nas regiões mais pobres, onde vive a maioria da população brasileira, a proporção de jovens fora da escola e do mercado de trabalho é alarmantemente alta. Nas áreas ricas, o cenário é radicalmente diferente. Essa disparidade não é acidental; é o reflexo de décadas de desigualdade que se perpetua de geração em geração.

Economistas e sociólogos apontam para a urgência de reimaginar como o Brasil prepara seus jovens para a vida adulta. A proposta que ganha força é transformar o ensino médio em algo mais prático e profissionalizante, permitindo que os adolescentes saiam da escola com uma ocupação real, não apenas um diploma. É uma tentativa de quebrar o ciclo que deixa milhões de brasileiros jovens presos numa situação de limbo, comprometendo não apenas suas vidas individuais, mas o futuro econômico do país inteiro.

É uma tragédia macro, microeconômica. A gente vive mais e nós estamos produzindo cada vez menos jovens. E uma parte grande desses jovens que a gente tem vai ser incapaz de sustentar os idosos
— Hélio Zylberstajn, professor da Faculdade de Economia da USP
De 2020 para cá, nunca mais estudei, não tive oportunidade. Eu tinha um sonho de ser ou delegada ou advogada
— Marisa Costa Alves, dona de casa
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