Em meio ao avanço das flexibilizações na Europa, o Brasil observa de longe um horizonte que ainda não lhe pertence: o da endemia. Especialistas alertam que transformar a Covid-19 de pandemia em endemia não é um decreto, mas uma conquista construída sobre vacinação ampla, reforços, monitoramento rigoroso e paciência coletiva. O país possui ativos valiosos — como o SUS capilarizado —, mas carrega vulnerabilidades que, se ignoradas, podem transformar a pressa em retrocesso.
Brasil ainda precisa de vacinação ampla e monitoramento para Covid virar endemia
Temos que acompanhar o que está acontecendo no mundo
O que exatamente diferencia uma endemia de uma pandemia? Por que essa distinção importa agora?
Uma pandemia é quando a doença atinge vários continentes simultaneamente. Uma endemia é quando ela fica circunscrita a certas regiões, com comportamento previsível — você sabe quando vai ter surtos, quantas mortes esperar. A importância é que em uma endemia você consegue planejar, preparar o sistema de saúde, não vive em crise permanente.
Mas o Brasil já teve endemia de dengue, febre amarela. Por que a Covid é diferente? Por que não é só deixar acontecer?
Porque a Covid ainda está matando muita gente. A Ômicron matou tanto quanto a Gama, apesar de causar sintomas mais leves na maioria. Não é seguro simplesmente soltar as rédeas.
Então o que falta? O Brasil não tem vacina?
Tem vacina e tem SUS capilarizado, que é uma vantagem enorme. O problema é que ainda há grupos não vacinados e as doses de reforço não estão sendo aplicadas o suficiente.
Quantos grupos? Qual é o número de pessoas sem vacina? O texto não diz.
Verdade, não especifica. Mas Lígia Kerr deixa claro que é um problema real que está atrapalhando a transição.
E as novas variantes? Elas podem estragar tudo?
Podem. Kerr aponta que novas variantes não serão necessariamente mais leves. A Delta quase não fez estrago porque o Brasil tinha proteção imunológica da Gama. Mas não há garantia de que a próxima será assim.
Então é basicamente: vacinem mais, monitorem melhor, e rezem para não aparecer uma variante pior?
Não é rezar. É vigilância ativa, testagem, sequenciamento genético. Países europeus fizeram isso e conseguiram. O Brasil tem a infraestrutura, só precisa usar.
Quanto tempo isso leva?
O texto não diz. Mas Kerr menciona que o que acontece na Europa chega aqui em alguns meses, então provavelmente não é questão de anos.
Mas ninguém sabe quando exatamente a Covid vira endemia no Brasil, certo? É uma previsão, não uma data.
Exato. Depende de como as pessoas se comportarem, se vacinarem, se novas variantes aparecerem.
El Pulso
- A variante Ômicron, mesmo com sintomas leves na maioria dos casos, empurrou o número de mortes no Brasil a patamares próximos ao pico da variante Gama, revelando que 'leve' não significa inofensivo.
- Grupos populacionais ainda sem vacina e uma cobertura insatisfatória de doses de reforço enfraquecem a resposta imunológica do país e mantêm o cenário de endemia fora de alcance.
- Dinamarca e Reino Unido mostram que a transição é possível — mas exigiu investimento pesado em testagem, sequenciamento genético e rastreamento de contatos, infraestrutura que o Brasil ainda não consolidou.
- O SUS, com sua capilaridade única, representa a maior vantagem estrutural do Brasil na corrida pela endemia, sendo capaz de levar vacinas a populações remotas que outros sistemas de saúde não alcançariam.
- Flexibilizar medidas de proteção antes do momento adequado pode desfazer avanços conquistados a alto custo, e novas variantes futuras não têm obrigação de ser mais brandas do que as anteriores.
Em meio ao avanço das flexibilizações na Europa, o Brasil observa de longe um horizonte que ainda não lhe pertence: o da endemia. Especialistas alertam que transformar a Covid-19 de pandemia em endemia não é um decreto, mas uma conquista construída sobre vacinação ampla, reforços, monitoramento rigoroso e paciência coletiva. O país possui ativos valiosos — como o SUS capilarizado —, mas carrega vulnerabilidades que, se ignoradas, podem transformar a pressa em retrocesso.
Enquanto Dinamarca e Reino Unido desmontam suas restrições apoiados em sistemas robustos de vigilância epidemiológica — testagem em massa, sequenciamento genético e rastreamento de contatos —, o Brasil observa esse movimento com cautela. Especialistas ouvidos pela reportagem concordam que o caminho para transformar a Covid-19 em endemia existe, mas ainda não está pavimentado.
O infectologista Julio Croda, da Fiocruz, explica que endemia é uma doença com comportamento previsível: mortes esperadas, surtos em períodos calculáveis, impacto controlável. É o oposto da pandemia, que se espalha por continentes sem aviso. Vitor Mori, do Observatório COVID-19BR, reforça que os países europeus que chegaram lá investiram pesado em infraestrutura de monitoramento — algo que o Brasil ainda precisa construir com mais solidez.
A epidemiologista Lígia Kerr, da Associação Brasileira de Saúde Coletiva, é direta: endemia não se decreta. Ela depende de como a doença realmente se comporta na população, da taxa de imunização e das variantes em circulação. Os indicadores brasileiros de casos e óbitos ainda precisam melhorar, e máscara e vacinação seguem sendo as ferramentas mais poderosas disponíveis.
Para que a transição aconteça, seria necessário ampliar a cobertura vacinal — incluindo reforços e imunização infantil —, além de fortalecer o monitoramento. Kerr reconhece que o momento atual é o melhor que o Brasil já viveu na pandemia, mas adverte que isso não significa que os problemas estão resolvidos. O que acontece na Europa, historicamente, chega ao Brasil meses depois.
O país tem uma vantagem que poucos possuem: o SUS, com sua presença em localidades remotas, capaz de levar vacinas a quem outros sistemas não alcançam. Mas os riscos são reais. Grupos não vacinados persistem, os reforços estão aquém do necessário, e novas variantes podem surgir sem a gentileza de serem mais leves. A Ômicron, embora de sintomas brandos para a maioria, matou muita gente — chegando perto do pico da Gama. O Brasil está num ponto de inflexão: tem as ferramentas, mas precisa usá-las antes de relaxar.
Alguns países europeus já deixaram para trás as restrições contra a Covid-19. Dinamarca e Reino Unido organizaram sistemas amplos de monitoramento — testagem, sequenciamento genético, controle de contatos — que lhes permitiram passar de um cenário de pandemia para o de endemia. No Brasil, especialistas dizem que esse caminho é possível, mas exige condições que ainda não estão totalmente reunidas.
Julio Croda, infectologista e pesquisador da Fiocruz, define endemia como uma doença comum em certas regiões, com um número de mortes esperado e períodos previsíveis de surto. Quando uma doença atinge esse patamar, é possível prever seu impacto e estar preparado para contê-lo. A diferença fundamental em relação à pandemia é a escala: uma pandemia afeta vários continentes simultaneamente; uma endemia permanece circunscrita, com comportamento previsível. Vitor Mori, pesquisador do Observatório COVID-19BR, aponta que os países europeus que conseguiram fazer essa transição investiram pesadamente em infraestrutura de vigilância epidemiológica.
No Brasil, porém, a situação é mais complexa. Lígia Kerr, epidemiologista e vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva, ressalta que uma endemia não pode ser simplesmente decretada. Ela depende do comportamento real da doença na população, da taxa de imunização e da circulação de variantes. Atualmente, os indicadores brasileiros — número de casos e óbitos — ainda precisam melhorar. Kerr afirma que máscara e vacinação continuam sendo as maiores ferramentas disponíveis, e que o país vive um momento que exige muito cuidado.
Para que a transição para endemia fosse possível no Brasil, seria necessário aumentar significativamente a cobertura vacinal, incluindo a aplicação de doses de reforço e a imunização de crianças. Kerr reconhece que a conjuntura atual é a melhor que o país já teve, mas adverte que isso não significa que os problemas estejam resolvidos. Ela observa que tudo o que acontece na Europa geralmente chega ao Brasil alguns meses depois, razão pela qual acompanhar a experiência internacional é essencial.
O Brasil possui uma vantagem estrutural que muitos países não têm: um sistema de saúde capilarizado. O SUS chega a localidades afastadas dos grandes centros urbanos, garantindo que as vacinas alcancem populações remotas. Kerr destaca que o uso correto e o fortalecimento desse sistema são fundamentais para imaginar o controle da pandemia no país. Essa infraestrutura de saúde é um ativo importante para interromper a circulação do vírus.
Mas há riscos significativos. Kerr ressalta que uma endemia não significará que tudo estará resolvido. Novas variantes podem surgir e não serão necessariamente mais leves do que as anteriores. A variante Delta, por exemplo, não causou um dano maior no Brasil porque o país havia recém saído da onda causada pela Gama e estava evoluindo sua cobertura vacinal, gerando certa proteção imunológica. Já a Ômicron, embora tenha causado sintomas leves na maioria dos infectados, matou muita gente — os números chegaram a patamares próximos ao pico da Gama.
O desafio atual é que ainda existem grupos sociais que não foram vacinados e a aplicação de doses de reforço não é satisfatória. Essa situação enfraquece a resposta do país à variante Ômicron e afasta o cenário de endemia. Flexibilizar as medidas de proteção em um momento inadequado pode prejudicar a condução da pandemia. O Brasil está em um ponto de inflexão: tem as ferramentas e a infraestrutura para chegar à endemia, mas precisa consolidar a vacinação e manter a vigilância antes de poder relaxar.
Citas Notables
Uma doença é considerada endêmica quando ela é comum em certas regiões, tem um número de mortes esperado e apresenta períodos de surto— Julio Croda, infectologista e pesquisador da Fiocruz
Uma endemia não pode ser decretada por canetada. Depende de circunstâncias como o comportamento da doença na população, a taxa de imunização e a circulação de variantes— Lígia Kerr, epidemiologista e vice-presidente da Abrasco