Num momento em que investidores buscam orientação em meio a incertezas globais, o Bradesco BBI reorganiza sua visão sobre a América Latina e mantém um voto de confiança no Brasil, ainda que com uma fatia um pouco menor. A casa aposta que o país, barato em relação à sua própria história, pode ganhar fôlego se o governo honrar a agenda de ajuste fiscal e reforma tributária e se os juros começarem a recuar. A decisão reflete uma tensão antiga dos mercados emergentes: a promessa de valor esbarra na dúvida sobre quem executará as reformas e quando a política monetária enfim dará trégua.
Bradesco BBI mantém overweight no Brasil, eleva Chile e rebaixa México em carteira para América Latina
Para zerar o déficit em 2024, o governo precisará de R$ 54 bilhões a mais
O que muda de fato na carteira do Bradesco BBI?
O Brasil continua em overweight, mas com exposição um pouco menor. O Chile sobe para overweight, o México cai para neutro, e Peru e Colômbia seguem em underweight.
Por que o México foi rebaixado?
Pelo desempenho forte recente, pelo risco maior nos próximos 12 a 18 meses, com eleições no México e nos EUA, e porque os cortes de juros só devem vir no fim de 2023 ou início de 2024.
Vale lembrar que é uma visão de um banco, não um fato. A expectativa de que a Câmara aprove a regra fiscal em maio é projeção dos estrategistas.
E as ações brasileiras preferidas?
São bond-proxies, como Copel, Equatorial e CCR, que se beneficiam se os juros caírem. CCR entrou; Carrefour e Rede D’Or saíram.
Aí está a dependência: a tese pressupõe queda de juros e compressão de risco. O relatório diz que isso pode acontecer, não que vai.
Há números concretos sobre o ajuste fiscal?
Sim: R$ 54 bilhões a mais de arrecadação neste ano e R$ 43 bilhões no próximo para zerar o déficit primário em 2024.
Mas é o cálculo do BBI. O texto não diz como o governo chegaria lá, e admite que o Congresso resistirá mais a aumentos de receita.
O Pulso
- O Brasil segue em overweight, mas a fatia na carteira encolhe, sinalizando cautela diante de riscos que ainda não se dissiparam.
- O Chile ganha força ao subir para overweight, enquanto o México perde espaço após forte alta e se aproxima de eleições incertas.
- O ajuste fiscal enfrenta a prova do Congresso: a Câmara deve votar a regra em maio e o Senado até julho, com resistência a novas receitas.
- A reforma do IVA, que exige 60% dos votos em duas votações por casa, pode chegar ao fim de 2023 e destravar eficiência econômica.
- Com desemprego prestes a subir e lucros fracos, o banco se refugia em empresas defensivas, e o horizonte aponta para cortes de juros que ainda dependem de datas incertas.
Num momento em que investidores buscam orientação em meio a incertezas globais, o Bradesco BBI reorganiza sua visão sobre a América Latina e mantém um voto de confiança no Brasil, ainda que com uma fatia um pouco menor. A casa aposta que o país, barato em relação à sua própria história, pode ganhar fôlego se o governo honrar a agenda de ajuste fiscal e reforma tributária e se os juros começarem a recuar. A decisão reflete uma tensão antiga dos mercados emergentes: a promessa de valor esbarra na dúvida sobre quem executará as reformas e quando a política monetária enfim dará trégua.
O Bradesco BBI revisou sua carteira para a América Latina e, em linha com o Bank of America e o JPMorgan, manteve o Brasil em overweight, isto é, com exposição acima da média do mercado. A fatia destinada ao país, porém, ficou um pouco menor. Ao mesmo tempo, o banco elevou o Chile para overweight e rebaixou o México para neutro, após a forte valorização recente. Peru e Colômbia continuam em underweight.
A leitura dos estrategistas é de que as ações latino-americanas seguem atraentes, mas enfrentam ventos contrários: lucros fracos, risco de desaceleração e possível aumento de impostos. Por isso, a preferência recai sobre empresas defensivas e de qualidade, especialmente as chamadas bond-proxies, cujo comportamento lembra títulos de longo prazo e que tendem a se beneficiar de juros mais baixos no futuro.
No Brasil, o índice MSCI negocia a 6,7 vezes o lucro e o prêmio de risco ainda está em 8,9 pontos percentuais, o que o banco considera um ponto de partida atrativo. Três fatores podem comprimir esse risco. O primeiro é a execução do ajuste fiscal: a Câmara deve votar a nova regra em maio e o Senado até julho, mas tentativas de elevar receitas devem enfrentar resistência. O segundo é a reforma do IVA, cuja proposta deve chegar em maio e precisa de 60% dos votos em dois turnos por casa; no cenário base, seria aprovada até o fim do ano. O terceiro é o mercado de trabalho e a inflação, que tendem a desacelerar, em paralelo a estimativas de PIB que podem perder fôlego.
No México, o rebaixamento reflete mais volatilidade nos próximos 12 a 18 meses, com eleições no país e nos Estados Unidos. No Chile, a expectativa é de economia mais resiliente e flexibilização monetária a partir do terceiro trimestre. No Peru e na Colômbia, os riscos políticos e macro ainda pesam demais para justificar compras. O que acompanhar agora é a votação da regra fiscal, a proposta do IVA e o momento em que os juros começarem a cair.
O Bradesco BBI revisou sua carteira estratégica para a América Latina e, como o Bank of America e o JPMorgan, manteve o Brasil em overweight, posição de exposição acima da média do mercado, equivalente à compra. Reduziu, porém, ligeiramente a fatia destinada ao país. No mesmo movimento, elevou o Chile de neutro para overweight e rebaixou o México para neutro, depois do desempenho positivo recente. Peru e Colômbia seguem em underweight, exposição abaixo da média, equivalente à venda.
Segundo o relatório, as ações latino-americanas continuam atraentes, mas enfrentam ventos contrários: lucros por ação com desempenho fraco, ameaça de desaceleração econômica e aumento de impostos. Por isso, o banco diz estar posicionado em empresas defensivas e de qualidade. Também gosta das chamadas bond-proxies, cujo negócio se assemelha a um título de renda fixa de longo prazo e que tendem a se beneficiar de futuras quedas nos juros. Por setor, está otimista com consumo defensivo, shoppings e financeiras; neutro em industriais e materiais básicos; e underweight em commodities e em consumo cíclico e construção.
Sobre o Brasil, os estrategistas lembram que o índice MSCI Brasil negocia a 6,7 vezes o Preço/Lucro, com desvio padrão de 1,5 abaixo da média histórica, e que o prêmio de risco das ações ainda está em 8,9 pontos percentuais. Veem três pontos de inflexão que poderiam levar a uma compressão de risco. O primeiro são os ajustes estruturais, como o ajuste fiscal e a reforma tributária. Com o governo detalhando o plano, o desafio passa a ser a execução. O BBI espera que a Câmara aprove a nova regra fiscal em maio e o Senado, até o recesso de meados de julho. As tentativas de elevar receitas devem encontrar mais resistência no Congresso. Para zerar o déficit primário em 2024, afirmam, o governo precisará arrecadar R$ 54 bilhões a mais neste ano e R$ 43 bilhões no próximo.
Outro passo é a reforma do IVA. A proposta deve ser apresentada na segunda quinzena de maio e, por tramitar como PEC, exige 60% dos votos em duas votações em cada casa. No cenário base do banco, o Congresso aprova até o fim de 2023, o que seria um sinal positivo para tornar a economia mais eficiente.
O segundo ponto de inflexão é o mercado de trabalho e a inflação: o desemprego está prestes a subir e os salários desaceleram, o que pode melhorar a tendência subjacente dos preços. O terceiro são as estimativas de PIB. Para os analistas, as surpresas positivas podem ter acabado, e os riscos de baixa devem crescer nos próximos meses, com condições financeiras apertadas e mercado de trabalho mais frio. Ainda assim, o BBI acha que os riscos macro tendem a diminuir no segundo e no terceiro trimestres, com o governo adotando uma agenda de melhora dos fundamentos e com maior visibilidade sobre a flexibilização monetária. Isso poderia reduzir juros longos e taxas de desconto e expandir os múltiplos.
Entre as preferidas dos analistas, com receita mais resiliente e maior sensibilidade à taxa de desconto, estão Copel (CPLE6), Auren (AURE3), Energisa (ENGI11), Equatorial (EQTL3), Santos Brasil (STBP3), CCR (CCRO3), Aliansce Sonae (ALSO3), Direcional (DIRR3) e Cury (CURY3). O banco as descreve como bond-proxies com TIR alta e prêmio sobre os títulos públicos. Na carteira brasileira, entrou a CCR e saíram Carrefour (CRFB3) e Rede D’Or (RDOR3).
No México, o rebaixamento de overweight para neutro vem após a forte alta do índice e diante de mais risco e volatilidade nos próximos 12 a 18 meses, com eleições no país e nos EUA. O banco reduz nomes de longa duração, esperando cortes de juros só no fim de 2023 ou início de 2024. No Chile, prevê resiliência econômica maior que a esperada em 2023, flexibilização monetária a partir do terceiro trimestre e moderação política. No Peru, as ações não estão baratas, têm baixa liquidez, e novos protestos podem ampliar a instabilidade. Na Colômbia, há sinais de moderação do governo e do Congresso, mas os riscos macro e políticos seguem muito altos, e o banco afirma não ver gatilhos suficientes para comprar.
O que acompanhar agora é a votação da regra fiscal na Câmara em maio, a proposta do IVA e o início dos cortes de juros.
Citações Notáveis
Para zerar o déficit primário em 2024, o governo precisará aumentar a arrecadação em R$ 54 bilhões este ano e R$ 43 bilhões no próximo.— Estrategistas do Bradesco BBI