Entre janeiro e agosto de 2026, o Grande ABC perdeu 271 crianças com até 12 anos — a maioria delas bebês que mal haviam chegado ao mundo. O número cresceu 5,8% em relação ao ano anterior, e carrega em si uma verdade incômoda: a maior parte dessas mortes poderia ter sido evitada. Partos prematuros, doenças maternas, infecções preveníveis e acidentes domésticos compõem um mosaico de vulnerabilidades que a medicina conhece, nomeia e, em grande medida, sabe como enfrentar — mas que continuam cobrando seu preço onde a prevenção ainda não é prioridade.
Bebês com menos de um ano representam 80% das mortes infantis no Grande ABC
A criança pode explorar o mundo sem se colocar em risco
Por que tantas mortes concentram-se em bebês menores de um ano? Isso é normal?
Não é normal em países com sistemas de saúde robustos. Aqui, 80% das mortes infantis acontecem nessa faixa etária porque as complicações do parto e do nascimento — especialmente partos prematuros — são a causa principal. Quando o pré-natal é inadequado e as mães têm condições como hipertensão e obesidade, o risco aumenta muito.
Mas a gente sabe por que esses partos prematuros estão acontecendo? O texto diz que 10% a 12% dos partos são prematuros, mas não explica se isso é uma taxa esperada ou se é alta para a região.
Boa pergunta. A pediatra cita o número, mas não contextualiza se é acima ou abaixo da média nacional. É um dado que fica solto.
E quanto aos acidentes domésticos? Afogamento, quedas — parecem evitáveis.
Completamente evitáveis. A médica é clara: com informação e ambiente preparado, essas mortes não precisariam acontecer. Mas isso exige que as famílias tenham acesso a essa informação e recursos para implementá-la.
O texto não diz quantas das 271 mortes foram por acidentes domésticos. Sabemos que afogamento e traumatismo craniano são as principais causas acidentais, mas qual é o peso real delas no total?
Exatamente. Temos as causas listadas, mas não temos a proporção. Isso deixa a gente sem saber se estamos falando de 5% ou 30% das mortes.
Santo André tem 83 mortes em oito meses. Isso é muito?
Para uma população infantil, é significativo. E cresceu 5,8% em relação a 2025. Mas o texto não dá a população infantil de Santo André, então fica difícil avaliar a taxa de mortalidade por 1.000 nascidos vivos.
Esse é o ponto — temos números absolutos, mas não temos as taxas. Sem contexto populacional, fica difícil saber se o Grande ABC está pior que outras regiões ou se acompanha a média nacional.
As pediatras dizem que muitas mortes são evitáveis. Mas quem está evitando? Quem deveria estar fazendo isso?
O sistema público, através de pré-natal, vacinação, saneamento básico e informação. Mas o texto não diz se essas políticas estão sendo implementadas aqui ou se há gargalos específicos.
The Pulse
- 271 crianças morreram em apenas oito meses na região, com 80% dos óbitos concentrados em bebês menores de um ano — um ritmo que acelera em relação a 2025.
- Santo André lidera o ranking com 83 mortes, e o crescimento de 5,8% nos óbitos acende um alerta sobre a trajetória da saúde infantil no Grande ABC.
- Partos prematuros, hipertensão e obesidade materna, cardiopatias congênitas e infecções como meningite e pneumonia formam o núcleo das causas clínicas identificadas por especialistas.
- Afogamentos, traumatismos cranianos, intoxicações e quedas completam o quadro — mortes acidentais que ocorrem quando o ambiente não está preparado para proteger crianças em desenvolvimento.
- Pediatras e especialistas são unânimes: pré-natal adequado, vacinação, saneamento básico e prevenção de acidentes domésticos poderiam evitar a maioria dessas perdas.
Entre janeiro e agosto de 2026, o Grande ABC perdeu 271 crianças com até 12 anos — a maioria delas bebês que mal haviam chegado ao mundo. O número cresceu 5,8% em relação ao ano anterior, e carrega em si uma verdade incômoda: a maior parte dessas mortes poderia ter sido evitada. Partos prematuros, doenças maternas, infecções preveníveis e acidentes domésticos compõem um mosaico de vulnerabilidades que a medicina conhece, nomeia e, em grande medida, sabe como enfrentar — mas que continuam cobrando seu preço onde a prevenção ainda não é prioridade.
Entre janeiro e agosto de 2026, o Grande ABC registrou 271 mortes de crianças com até 12 anos. Desse total, 215 — 80% — eram bebês menores de um ano. Os dados, levantados pela Associação dos Registradores de Pessoas Naturais do Estado de São Paulo a pedido do Diário, revelam um padrão persistente e, em grande parte, evitável.
Santo André lidera o ranking com 83 óbitos, seguida por São Bernardo (74), Mauá (53), Diadema (38), São Caetano (16), Ribeirão Pires (5) e Rio Grande da Serra (2). Em comparação ao mesmo período de 2025, quando foram registrados 256 óbitos, o crescimento é de 5,8% — um sinal de alerta que especialistas não ignoram.
A pediatra Denise Shoeps, professora da Faculdade de Medicina do ABC, explica que as mortes se concentram no primeiro mês de vida porque é quando as complicações do parto e do nascimento são mais intensas. Entre 10% e 12% dos partos na região resultam em prematuridade, e condições maternas como hipertensão e obesidade ampliam os riscos antes mesmo de o bebê nascer.
A pediatra Anna Dominguez Bohn, dos hospitais Albert Einstein e Sírio-Libanês, detalha outras causas: comorbidades congênitas — como cardiopatias, doenças neurológicas e problemas renais — e infecções graves como meningite e pneumonia. Em alguns casos, a morte não vem da doença em si, mas das complicações dos tratamentos necessários para tentar salvar a criança.
Nem todas as mortes, porém, têm origem clínica. Afogamentos e traumatismos cranianos lideram as causas acidentais, seguidos por intoxicações, queimaduras e acidentes de trânsito. Bohn lembra que crianças pequenas ainda estão em desenvolvimento neurológico e motor, incapazes de avaliar perigos — e que até os 2 anos o risco é ainda maior, pois a cabeça proporcionalmente maior torna qualquer desequilíbrio mais perigoso.
O que pesa sobre esses números é a constatação de que a maioria dessas mortes é prevenível. Pré-natal adequado, vacinação, saneamento básico e ambientes domésticos seguros poderiam mudar o curso de muitas dessas histórias. Os países com menor mortalidade infantil atuam nessas frentes de forma simultânea e estruturada. O Grande ABC, com sua tendência de crescimento, ainda percorre um caminho diferente.
Entre janeiro e agosto de 2026, o Grande ABC registrou 271 mortes de crianças com até 12 anos. O número é devastador em sua concentração: 215 dessas mortes — exatamente 80% — ocorreram em bebês menores de um ano. Os dados, levantados pela Associação dos Registradores de Pessoas Naturais do Estado de São Paulo a pedido do Diário, revelam um padrão que pediatras conhecem bem, mas que continua marcando a região com força.
Santo André lidera o triste ranking com 83 óbitos infantis, seguida por São Bernardo com 74, Mauá com 53, Diadema com 38, São Caetano com 16, Ribeirão Pires com 5 e Rio Grande da Serra com 2. Comparado ao mesmo período de 2025, quando foram registrados 256 óbitos, o crescimento é preocupante: 5,8% a mais de crianças perdidas em 2026.
A concentração de mortes nos primeiros meses de vida não é acidental. Denise Shoeps, pediatra e professora da Faculdade de Medicina do ABC, explica que as complicações mais graves ocorrem justamente no primeiro mês após o nascimento. Enquanto a mortalidade infantil brasileira caiu significativamente nas últimas décadas — graças à expansão da vacinação e do acesso a saneamento básico — o que permanece são as causas ligadas ao parto e ao nascimento. Entre 10% e 12% dos partos na região resultam em nascimentos prematuros, e é aí que muitas das tragédias começam. Além disso, condições maternas como hipertensão e obesidade aumentam o risco, criando uma sobreposição de vulnerabilidades que começa antes mesmo do bebê nascer.
Anna Dominguez Bohn, pediatra que atua nos hospitais Israelita Albert Einstein e Sírio-Libanês em São Paulo, detalha o quadro clínico. As comorbidades congênitas — alterações presentes desde o nascimento — e as doenças infecciosas respondem por uma parcela importante dos óbitos. Meningite e pneumonia estão entre as infecções mais letais. As síndromes genéticas envolvem problemas renais, doenças neurológicas e cardiopatias graves, condições que geram consequências orgânicas profundas. Às vezes, a morte não vem da doença em si, mas das complicações dos tratamentos, das medicações e das cirurgias necessárias para tentar salvá-los.
Mas nem todas as mortes infantis no Grande ABC vêm de doenças. Entre as causas acidentais, afogamento e traumatismo craniano lideram. Há também intoxicações, queimaduras e acidentes automobilísticos. Bohn explica que crianças pequenas estão em desenvolvimento neurológico e motor contínuo, incapazes de avaliar perigos e consequências. Quanto menor a criança, mais vulnerável ela fica se o ambiente não estiver preparado — o corpo simplesmente não consegue absorver o impacto de uma queda da mesma forma que um adulto. Até os 2 anos, o risco é ainda maior porque a cabeça é proporcionalmente maior em relação ao resto do corpo, fazendo com que qualquer desequilíbrio puxe a criança para baixo com força aumentada.
O que torna esses números ainda mais pesados é que a maioria dessas mortes é evitável. Complicações no nascimento e na fase perinatal podem ser prevenidas com pré-natal adequado e condução apropriada do trabalho de parto. Muitas infecções que levam ao óbito podem ser evitadas com vacinação, saneamento básico e nutrição adequada. Os acidentes domésticos — afogamento, intoxicação, quedas — são preveníveis com informação e preparação do ambiente. Bohn ressalta que o papel preventivo da pediatria e de todo o sistema público é essencial: a criança pode explorar o mundo sem se colocar em risco, mas para isso precisa de proteção estruturada.
Os países desenvolvidos têm menor mortalidade infantil justamente porque atuam nessas três frentes simultaneamente. O Grande ABC, com seus 271 óbitos em oito meses e sua tendência de crescimento, segue um caminho diferente — um que deixa claro que a prevenção, quando não é prioridade, cobra seu preço em vidas pequenas.
Notable Quotes
O que temos hoje são as causas relacionadas ao parto e ao nascimento, especialmente ao parto prematuro— Denise Shoeps, pediatra e professora da Faculdade de Medicina do ABC
A maioria das mortes são evitáveis. Quando pensamos que uma parcela relevante dos óbitos na infância são acidentes domésticos, o papel preventivo da pediatria e de todo o sistema público é essencial— Anna Dominguez Bohn, pediatra