Ato de ler é criativo e nenhum narrador é confiável, diz Kitamura na Flip

Um livro só é um livro quando há um leitor
Katie Kitamura sobre como a leitura é um ato criativo que completa a obra literária.
Mark

Por que vocês insistem em chamar seus livros de artefatos literários e não simplesmente de romances?

Mimi

Porque um romance tradicional oferece uma história. Um artefato oferece um espaço onde a história precisa ser construída. É a diferença entre receber um presente pronto e receber os materiais para fazer seu próprio presente.

Mark

Mas isso não frustra o leitor? Ele quer saber o que aconteceu.

Mimi

Ele quer saber, sim. Mas o que aconteceu depende de quem está perguntando. Quando você conta a um amigo o que viu em um filme, você já está interpretando. Já está escolhendo o que importa.

Mark

Então nenhuma história é verdadeira?

Mimi

Todas são verdadeiras e nenhuma é. A verdade está na linguagem, na forma como você a conta. E a linguagem tem poder — poder de persuadir, de controlar, de mudar como as pessoas veem a realidade.

Mark

Seus personagens parecem estar sempre discutindo isso. Não é cansativo?

Mimi

Não para mim. Porque eles não estão discutindo filosofia abstrata. Estão vivendo as consequências de não saber em quem confiar, de não saber qual versão é real. Isso é urgente.

Mark

E o leitor? O que ele leva embora?

Mimi

Uma experiência de leitura que o muda. Um livro que o obriga a pensar sobre como ele mesmo constrói sentido. Talvez seja isso que importa mais que qualquer trama.

  • Katie Kitamura, autora de "Audição" (finalista do Booker Prize) e "Uma Separação"
  • Marta Pérez-Carbonell lançou "Nada Mais Ilusório" no Brasil pela Amarcord
  • Ambas argumentam que nenhum narrador é confiável e que o leitor é responsável por dar sentido à narrativa

Kitamura defende que um livro só existe com um leitor ativo e que a interpretação é mais importante que a trama linear. Pérez-Carbonell explora como a linguagem é performativa e como a ficção nutre a realidade, criando camadas infinitas de verdade.

Katie Kitamura e Marta Pérez-Carbonell discutem na Flip como a leitura é um ato criativo que depende do leitor para dar sentido às narrativas não lineares, destacando a subjetividade da narração.

Na sexta-feira que encerrou a programação do palco principal da Flip, duas escritoras subiram ao palco para falar sobre livros que não contam histórias no sentido tradicional. Katie Kitamura, americana, e Marta Pérez-Carbonell, espanhola, chamam suas obras de artefatos literários — estruturas que exigem do leitor um trabalho ativo de montagem e interpretação. Não são quebra-cabeças decorativos. São reflexões sobre como as narrativas funcionam, como quem conta sempre filtra a verdade através de sua própria perspectiva, e como cada pessoa que lê reconstrói a história de forma única.

Kitamura é autora de "Audição", finalista do Booker Prize, publicado no Brasil pela Fósforo. Também escreveu "Uma Separação", lançado pela Companhia das Letras. Este último romance apresenta duas realidades paralelas: em uma delas, uma atriz encontra um jovem que afirma ser seu filho; na outra, esse mesmo jovem é alguém próximo a ela. Não existe hierarquia entre as versões. O livro não escolhe qual é verdadeira. Essa escolha cabe inteiramente ao leitor, e é justamente aí que a obra ganha sentido.

"Penso muito em como o ato de ler é criativo", disse Kitamura durante o encontro. "Um livro só é um livro quando há um leitor. É algo que muda conforme quem está lendo e como essa pessoa chega até ele. Eu queria escrever um livro que honrasse essa importância. É uma obra sobre interpretação, e o papel mais importante é o do leitor." Para ela, a linguagem é uma ferramenta de poder — a pergunta clássica "quem está contando a história?" não é retórica. Nenhum narrador é confiável, nem mesmo quando contamos algo a um amigo. Sempre damos nossa interpretação.

Pérez-Carbonell chegou ao Brasil há poucos meses com "Nada Mais Ilusório", publicado pela Amarcord. O romance segue uma mulher que viaja de trem com dois desconhecidos que conversam em uma cabine. Os capítulos alternam entre a narração dela sobre o diálogo e trechos do livro que um dos personagens está escrevendo. A linguagem é protagonista aqui também. A autora explora como as palavras têm poder performativo — como converter uma vida em texto não é um ato inocente, mas um exercício de poder que afeta a realidade. "Não só a realidade afeta a ficção, mas a história nutre a realidade de volta", disse ela.

Os personagens de Pérez-Carbonell debatem quanto somos donos de nossas próprias histórias e quanto somos vulneráveis a elas. A relação entre ficção e verdade, segundo a autora, é uma cebola de camadas infinitas. Sua resposta foi escrever de forma aberta e tateante, sem oferecer resoluções definitivas. "Gosto de tramas que têm diferentes níveis de verdade. Que são como um cubo mágico para o leitor", comparou ela.

A mediadora Gabriela Mayer, jornalista que apresenta o podcast Café da Manhã na Folha, observou que nos dois livros "a gente vê o tecido, mas demora a perceber qual a trama". Ela perguntou às autoras se a verdade importa. Kitamura respondeu que sim, especialmente considerando o clima político dos Estados Unidos. "Há tantas definições diferentes de verdade ficcional. E eu tenho interesse em como as narrativas são uma forma de persuasão, coerção e controle. Estou buscando a verdade, mas tentando enquadrar as coisas de formas diferentes."

Pérez-Carbonell concordou com a ideia de que a confiabilidade do narrador é uma ilusão. Comparou seus romances com salas de espelhos de parque de diversão — múltiplas reflexos, nenhuma imagem definitiva. Os melhores livros, segundo ela, são aqueles cuja trama você descreve aos amigos dizendo que, na verdade, a história não importa. O que importa é o que acontece dentro de quem lê.

Um livro só é um livro quando há um leitor. É algo que muda conforme quem está lendo e como essa pessoa chega até ele.
— Katie Kitamura
Não só a realidade afeta a ficção, mas a história nutre a realidade de volta.
— Marta Pérez-Carbonell
Contact Us FAQ