Aquecimento acima de 1,5°C pode causar perdas irreversíveis de gelo, aponta relatório da ONU

Voltar a 1,5°C não devolve o gelo que já se foi
Relatório do Pnuma e da ICCI diz que parte da perda de gelo continua mesmo se a temperatura cair depois.
Mark

O que muda com a ideia de overshoot? Não bastava ficar abaixo de 1,5°C?

Mimi

O overshoot é ultrapassar o limite e depois voltar. O relatório diz que a volta não restaura o gelo: parte dos impactos em geleiras, mantos de gelo e permafrost pode durar décadas ou séculos.

Mark

E o gelo já está em movimento?

Mimi

Está. Groenlândia e Antártida perdem massa cerca de seis vezes mais rápido que na década de 1990.

Luke

Esse número está atribuído ao relatório. O texto não detalha o método nem o período exato da comparação.

Mark

E o nível seguro para o gelo?

Mimi

Os autores o situam perto de 1°C, ou abaixo. Ou seja, abaixo da meta de 1,5°C.

Luke

Cuidado com as projeções. Falar em vários metros e em alguns centímetros por ano se refere a instabilidades possíveis ao longo de séculos, não a algo previsto para os próximos anos.

Mark

E para o Brasil?

Mimi

O texto cita inundações costeiras, erosão de praias e salinização de aquíferos e áreas agrícolas, mas não quantifica esses riscos.

Luke

Também não diz quanto gelo se perderia em cada cenário. A recomendação de cortar 5% ao ano limita parte das perdas, não todas.

  • Groenlândia e Antártida já perdem massa de gelo cerca de seis vezes mais rápido do que nos anos 1990, e o ritmo segue acelerando.
  • Um período de overshoot acima de 1,5°C pode desencadear perdas que não voltam mesmo com o recuo posterior da temperatura.
  • Instabilidades nos mantos de gelo podem elevar o nível do mar em vários metros ao longo dos próximos séculos, com avanços de centímetros por ano.
  • Cientistas pedem cortes de pelo menos 5% ao ano nas emissões e neutralidade líquida até meados do século para encurtar e diminuir a ultrapassagem.
  • A trajetória atual deixa pouco espaço de manobra: parte dos danos já é considerada inevitável, e o que resta depende de agir sem demora.

Num mundo que já sente cada décimo de grau, um novo relatório da ONU e de dezenas de cientistas lembra que o gelo do planeta responde ao tempo de forma lenta e obstinada. Mesmo que a temperatura global ultrapasse por pouco tempo o limite de 1,5°C e depois recue, parte das perdas em geleiras, mantos de gelo e permafrost tende a persistir por décadas ou séculos. A história que se desenha é a de uma dívida: o que se derrete hoje cobra seu preço sobre o nível do mar muito além do horizonte de quem decide agora.

Em 2017, um urso polar se equilibrava sobre uma plataforma de gelo no Estreito de Franklin, no Ártico canadense. Essa imagem da AP volta agora às páginas por causa de um novo relatório que examina o que acontece com o gelo do planeta caso a temperatura média global passe de 1,5°C, mesmo que por um curto período.

Elaborado pelo Pnuma e pela International Cryosphere Climate Initiative, com a participação de mais de 80 cientistas, o documento analisa o chamado overshoot: a fase em que o aquecimento ultrapassa o limite e depois volta a cair. A conclusão central é que a volta não desfaz tudo. Geleiras, mantos de gelo, permafrost e oceanos polares podem seguir perdendo massa por décadas ou séculos, acelerando a elevação do nível do mar.

O ponto de partida já preocupa. Groenlândia e Antártida perdem gelo cerca de seis vezes mais rápido que nos anos 1990. Quanto mais longo e intenso o aquecimento acima de 1,5°C, maior tende a ser essa contribuição. Os autores alertam para instabilidades que, nos próximos séculos, podem elevar o mar em vários metros, e avaliam que, para as grandes camadas de gelo, o nível mais seguro estaria perto de 1°C.

Para o Brasil, o principal efeito visível é o avanço do mar: mais inundações costeiras, erosão de praias e infiltração de água salgada em aquíferos e lavouras.

O recado do relatório é de urgência. Cortar as emissões em pelo menos 5% ao ano e chegar à neutralidade líquida até meados do século ainda pode reduzir parte das perdas, ainda que alguns impactos já não tenham volta.

Em 2017, um urso polar se equilibrava sobre uma plataforma de gelo no Estreito de Franklin, no Arquipélago Ártico canadense. A imagem, feita pela agência AP, ilustra agora a divulgação de um novo relatório que trata do que acontece com o gelo do planeta se a temperatura passar do limite de 1,5°C, mesmo que por pouco tempo.

O documento foi elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e pela International Cryosphere Climate Initiative (ICCI), com a participação de mais de 80 cientistas. Ele examina o chamado overshoot: o período em que a temperatura média global ultrapassa 1,5°C de aquecimento e depois volta a cair.

A conclusão central é que a volta atrás não desfaz tudo. Segundo os pesquisadores, mesmo que o aquecimento seja reduzido depois, parte dos impactos sobre geleiras, mantos de gelo, permafrost e oceanos polares pode continuar por décadas ou séculos. Ultrapassar o limite, ainda que temporariamente, pode portanto causar perdas irreversíveis de gelo e acelerar a elevação do nível do mar.

O ponto de partida já é pesado. As grandes camadas de gelo da Groenlândia e da Antártida perdem massa cerca de seis vezes mais rápido do que na década de 1990. De acordo com o relatório, quanto maior e mais duradouro for o aquecimento acima de 1,5°C, maior tende a ser a contribuição do gelo para a elevação do mar.

Os autores alertam que algumas instabilidades nos mantos de gelo podem, ao longo dos próximos séculos, elevar o nível do mar em vários metros e produzir períodos de avanço de até alguns centímetros por ano. Mesmo em cenários nos quais a temperatura volte a 1,5°C, parte da perda de gelo seguirá em curso. Para as grandes camadas de gelo, o nível considerado mais seguro estaria mais perto de 1°C de aquecimento, ou até abaixo disso.

Os efeitos alcançam também os oceanos. O aquecimento e a acidificação das águas polares, somados a mudanças nas grandes correntes oceânicas, podem persistir por séculos depois de uma eventual queda das temperaturas globais.

Para o Brasil, uma das principais consequências é a elevação do nível do mar, que aumenta o risco de inundações costeiras, de erosão de praias e de entrada de água salgada em aquíferos e áreas agrícolas.

O relatório defende cortes rápidos nas emissões de gases de efeito estufa, para que qualquer ultrapassagem de 1,5°C seja a mais curta e pequena possível. Reduzir as emissões em pelo menos 5% ao ano e alcançar emissões líquidas zero até meados do século ainda pode limitar parte das perdas, embora alguns impactos já não possam ser completamente revertidos.

Mesmo com a redução posterior do aquecimento, parte dos impactos sobre o gelo e os oceanos polares pode durar décadas ou séculos.
— Relatório do Pnuma e da ICCI (paráfrase)
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