Apex acumula R$ 985,6 mi em dívidas; dívida dobrou em 18 meses e lucro veio de venda de patrimônio

Investidores e clientes com recursos vinculados às operações do grupo podem sofrer prejuízos; 909 cotistas afetados pelo fechamento de resgates do fundo BRM Carbyne Crédito Estruturado.
Estavam vendendo patrimônio para cobrir despesas operacionais
O lucro de 2025 foi inflado por R$ 73 milhões em venda de participações em outras empresas, revelando a fragilidade operacional do grupo.
Mark

Como uma empresa que construiu uma trajetória de 13 anos chega a uma crise dessa magnitude em tão pouco tempo?

Mimi

A velocidade é o mais perturbador. A dívida dobrou em 18 meses. Isso não acontece por acaso — significa que o grupo estava captando dinheiro muito mais rápido do que conseguia gerar retorno. Estavam investindo em operações que não geravam caixa.

Mark

E o lucro de 2025? Como uma empresa em crise apresenta lucro crescente?

Mimi

Vendendo o que tinha. R$ 73 milhões de um lucro de R$ 119 milhões vieram da venda de participações em outras empresas. Era um lucro contábil, não operacional. Estavam queimando patrimônio para manter a aparência de saúde financeira.

Mark

Por que os acionistas aprovaram um aporte de R$ 176 milhões que nunca saiu do papel?

Mimi

Essa é uma das grandes questões em aberto. Aprovaram em abril, a crise explodiu em agosto. Algo mudou naqueles meses — talvez tenham visto sinais que os levaram a recuar, ou talvez a situação se deteriorasse mais rápido do que esperavam.

Mark

Qual é o risco real para quem tinha dinheiro aplicado nesses fundos?

Mimi

Imediato e concreto. O BTG Pactual fechou os resgates de um fundo com R$ 160,5 milhões e 909 cotistas. Essas pessoas não conseguem sacar seu dinheiro. E há R$ 78 milhões em resgates previstos nos próximos 50 dias — o grupo não tem caixa para isso.

Mark

Fernando Cinelli vai responder por isso?

Mimi

Formalmente, sim. O grupo acionou a Justiça pedindo responsabilização por gestão temerária e má-fé, com bloqueio preventivo de bens. Mas a auditoria externa ainda precisa determinar se houve fraude deliberada ou se foram decisões empresariais que deram errado. São cenários muito diferentes.

Mark

E agora, qual é o próximo passo?

Mimi

A tutela cautelar deu tempo para o grupo se reorganizar. Precisam apresentar um pedido de recuperação judicial, organizar as informações financeiras, preservar ativos e negociar com credores. O desafio é demonstrar que existe uma estrutura capaz de gerar caixa suficiente. Se não conseguirem, a falência é o caminho.

  • Passivo provisório de R$ 985,6 milhões acumulado
  • Dívida dobrou de R$ 413 milhões para R$ 975 milhões em 18 meses
  • Debêntures representam R$ 452,1 milhões do passivo total
  • Fernando Cinelli afastado da presidência em 6 de agosto de 2026
  • Aporte de R$ 176,5 milhões aprovado em abril não se concretizou

Dívida consolidada saltou de R$ 413 milhões para R$ 975 milhões em 18 meses, com debêntures representando R$ 452,1 milhões do passivo total. Lucro de 2025 foi inflado por venda de patrimônio; acionistas aprovaram aporte de R$ 176 milhões que não se concretizou meses antes da crise.

A Apex Partners enfrenta crise financeira com passivo de R$ 985,6 milhões, fundador afastado e dívida que dobrou em 18 meses. Grupo recorreu à Justiça para proteger patrimônio enquanto aguarda auditoria externa.

A Apex Partners, gestora de ativos capixaba que construiu uma trajetória de 13 anos no mercado financeiro, enfrenta uma crise que expõe uma estrutura empresarial frágil e números que não fecham. O grupo acumula um passivo provisório de R$ 985,6 milhões, teve seu fundador afastado da presidência e recorreu à Justiça na última sexta-feira para proteger seu patrimônio enquanto avalia a possibilidade de um pedido de recuperação judicial. Os documentos entregues ao tribunal revelam uma história de expectativas frustradas, dívidas que cresceram vertiginosamente e um lucro que foi inflado pela venda de ativos.

Tudo começou quando os sócios da holding ABM Partnership, controladora da Apex, afastaram Fernando Cinelli da presidência e de todas as funções de administração na quinta-feira, dia 6 de agosto. A nova gestão, liderada interinamente por Marcelo Murad, identificou inconsistências financeiras após uma auditoria interna e decidiu contratar uma perícia externa para fazer uma radiografia real da situação econômica do grupo. O cenário traçado até então não explicava como a empresa chegou a esse ponto, quais eram os valores reais do rombo ou o que provocou a deterioração do patrimônio. Cinelli manifestou-se pela primeira vez no dia seguinte, afirmando estar dedicado a contribuir para a preservação da empresa, investidores e acionistas.

O endividamento cresceu de forma alarmante. A dívida líquida consolidada saltou de R$ 413 milhões para R$ 975 milhões em aproximadamente 18 meses, segundo dados de junho de 2026. Em 2025, R$ 187 milhões desse débito foram destinados a aportes em fundos e operações de fusão e aquisição que não geraram caixa no período. No primeiro semestre de 2026, o grupo contraiu aproximadamente R$ 300 milhões em novas dívidas, dos quais R$ 175 milhões foram utilizados para despesas operacionais correntes e pagamento de dívidas anteriores. As debêntures representam o maior bloco individual do passivo, com R$ 452,1 milhões emitidos pela Rhino Securitizadora com taxas de remuneração entre 110% e 130% do CDI ou IPCA acrescido de 1,1% a 1,3% ao mês. Além disso, o grupo mantém empréstimos bancários de R$ 201,7 milhões com instituições como Daycoval, Sicoob, BTG Pactual e Bancoob.

O lucro apresentado em 2025 esconde uma realidade preocupante. A Apex registrou lucro líquido de R$ 119,2 milhões naquele ano, contra R$ 26,8 milhões em 2024. Porém, grande parte desse resultado, R$ 73,1 milhões, veio de um ganho com a venda de participações em outras empresas. O grupo estava vendendo patrimônio para cobrir despesas operacionais. Além disso, em abril de 2026, os acionistas aprovaram um aumento de capital de R$ 176,5 milhões que nunca se concretizou, uma desistência que ocorreu poucos meses antes da crise vir à tona.

A deterioração dos ativos também é significativa. O grupo tinha uma carteira nominal de R$ 261,5 milhões em ativos realizáveis que, após análise preliminar, foi reduzida para R$ 190,1 milhões. A diferença de R$ 71,4 milhões representa uma perda estimada de 27,3% do valor originalmente contabilizado. Uma das principais perdas está relacionada a empréstimos concedidos pela Apex a outras empresas: 65 contratos foram considerados integralmente perdidos com baixa contábil de R$ 38,1 milhões, incluindo créditos cedidos a negócios do próprio grupo.

Os sócios acionaram a Justiça porque temiam que a substituição do administrador acionasse cláusulas de vencimentos antecipados previstas em contratos bancários e escrituras de debêntures. Esse mecanismo aumentaria a pressão sobre o caixa. A cautelar obtida na sexta-feira busca blindar as 178 personalidades jurídicas ligadas ao grupo e protegê-lo contra medidas de cobrança enquanto estrutura uma eventual recuperação judicial. A defesa também requereu o bloqueio de bens de Cinelli preventivamente, acusando-o de gestão temerária e má-fé.

A estrutura do grupo é complexa. Além de Cinelli, que fundou a empresa em 2013, estão envolvidos executivos como Pedro Henrique de Almeida Petris (diretor de operações), Marcio Luiz Zaganelli Filho (diretor comercial) e Victor Casagrande (diretor institucional, filho do ex-governador Renato Casagrande). Entre os sócios da Rhino Securitizadora, que emitiu as debêntures, aparece Pedro Chieppe Moura de Rezende Ferraço, filho do atual governador Ricardo Ferraço. Para reter talentos, o grupo pulverizou o capital de suas empresas de assessoria, serviços compartilhados e pesquisa, cedendo participações simbólicas de R$ 1,00 cada a dezenas de analistas, assessores e estudantes.

O que falta esclarecer é vasto. A auditoria externa, ainda em contratação, deverá revisar as informações financeiras de 2025 e analisar as contas de 2026. Será necessário reconciliar o passivo consolidado com os registros contábeis individuais das dezenas de empresas do grupo. Ainda não está definido quanto valem atualmente as ações oferecidas como garantia aos debenturistas. Também permanece aberta a pergunta central: houve fraude, desvio de recursos ou qualquer conduta deliberada, ou as perdas decorreram de decisões empresariais malsucedidas e problemas de gestão? Entre 12 de agosto e 30 de setembro, estão previstos R$ 78,2 milhões em pedidos de resgate de fundos regulados. O principal desafio agora é demonstrar que existe uma estrutura capaz de gerar caixa suficiente para fazer frente às dívidas.

Dedicado e comprometido a contribuir da melhor forma para a preservação da empresa, de seus investidores e acionistas
— Fernando Cinelli, fundador da Apex Partners
A Rhino atua no mercado há mais de cinco anos, é autorizada e fiscalizada pela CVM e submete suas contas anualmente a auditoria externa independente
— Nota da Rhino Securitizadora
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