No coração de uma crise de governança corporativa, a ABM Partnership — holding do Grupo Apex — carrega R$ 42,3 milhões em dívidas atreladas a cinco aeronaves cujos credores permanecem sem identificação nos autos judiciais. A opacidade dos contratos de leasing, somada ao afastamento de dois executivos de cúpula e à contratação de auditoria externa, revela que o problema não é apenas financeiro, mas de confiança institucional. Como tantas crises empresariais, esta começa não com um colapso súbito, mas com perguntas que deveriam ter respostas simples — e não têm.
Apex acumula R$ 42,3 mi em dívidas com cinco aeronaves; credores não identificados
Ninguém sabe exatamente quem emprestou o dinheiro
Por que ninguém consegue identificar quem financiou essas aeronaves?
Os documentos judiciais listam as dívidas, mas não nomeiam a instituição credora. Há duas empresas do grupo com nomes ligados à aviação, mas sua participação real não está clara nos autos. É como saber que alguém deve dinheiro sem saber para quem.
O que significa exatamente que a Apex "usa" os aviões mas não é dona deles?
No leasing financeiro, quem financiou é o proprietário legal. A Apex tem o direito de voar e operar os aviões enquanto paga as parcelas. Se parar de pagar, quem financiou pode tentar recuperar o bem — mas não é automático, depende do contrato.
Se a empresa não conseguir pagar, o que acontece com os aviões?
Teoricamente, quem financiou pode retomá-los e vendê-los. Mas isso não apaga outras dívidas que a Apex possa ter. Se vender um avião por menos do que é devido, a empresa ainda fica devendo a diferença.
Por que a empresa afastou o presidente e o diretor financeiro?
Porque descobriu inconsistências financeiras — basicamente, algo não bate nas contas. O presidente foi acusado de gestão temerária e má-fé. A empresa quer responsabilizá-lo e está bloqueando seus bens preventivamente.
Isso significa que a Apex vai à falência?
A empresa nega que seja recuperação judicial. Diz que é apenas uma medida preventiva enquanto uma auditoria externa investiga. Mas o fato de precisar de uma liminar cautelar para proteger o patrimônio sugere que a situação é séria.
E os aviões? Continuam voando?
Os documentos não dizem. Ninguém sabe quem está usando os aviões agora ou se continuam em operação. É mais um mistério nessa história.
El Pulso
- R$ 42,3 milhões em dívidas de leasing de aeronaves aparecem nos autos judiciais do Grupo Apex sem que os credores sejam identificados — uma lacuna que alimenta a desconfiança sobre a real situação financeira do grupo.
- O presidente Fernando Cinelli e o diretor financeiro Eduardo Siqueira foram afastados após a descoberta de inconsistências financeiras, sinalizando uma ruptura abrupta na liderança da companhia.
- A empresa prepara ação judicial contra Cinelli por gestão temerária e má-fé, com pedido de bloqueio preventivo de bens, enquanto uma liminar cautelar já protege o patrimônio do grupo.
- Uma auditoria externa e independente foi contratada para mapear o tamanho real dos danos — o impacto verdadeiro das inconsistências ainda é desconhecido.
- A Apex reforça que não se trata de recuperação judicial e que as dívidas das aeronaves são compromissos de longo prazo, não obrigações vencidas — mas a credibilidade dessa narrativa depende do que a auditoria vai revelar.
No coração de uma crise de governança corporativa, a ABM Partnership — holding do Grupo Apex — carrega R$ 42,3 milhões em dívidas atreladas a cinco aeronaves cujos credores permanecem sem identificação nos autos judiciais. A opacidade dos contratos de leasing, somada ao afastamento de dois executivos de cúpula e à contratação de auditoria externa, revela que o problema não é apenas financeiro, mas de confiança institucional. Como tantas crises empresariais, esta começa não com um colapso súbito, mas com perguntas que deveriam ter respostas simples — e não têm.
A ABM Partnership, holding do Grupo Apex, acumula R$ 42,3 milhões em dívidas ligadas a cinco aeronaves — dois Cessna Citation Bravo e três Super King Air B200 — em contratos de leasing financeiro. Cada aeronave carrega seu próprio saldo devedor, que varia entre R$ 7,5 milhões e R$ 9,3 milhões. Dentro de um passivo total estimado em quase R$ 1 bilhão, a quantia é significativa. Mas o que torna a situação ainda mais delicada é a opacidade: o mapa de credores anexado ao processo judicial não identifica qual instituição financeira financiou as operações. Os contratos têm avais de pessoas físicas, e duas empresas do perímetro do grupo aparecem com nomes sugestivos, mas sem detalhamento de sua participação real.
No leasing financeiro, a propriedade jurídica das aeronaves permanece com quem financiou enquanto o contrato está vigente. A empresa usa os aviões, mas não os possui. O não pagamento não implica retirada imediata — tudo depende das cláusulas contratuais. Em situações de crise, há saídas: renegociação, devolução voluntária, substituição de garantias. O que não há, por ora, é clareza sobre quem são os credores.
A crise de governança veio à tona com o afastamento do presidente Fernando Cinelli e do diretor financeiro Eduardo Siqueira, após a descoberta de inconsistências financeiras. Marcelo Murad, sócio sênior com mais de 25 anos de mercado, assumiu interinamente a presidência. A empresa contratará auditoria externa para dimensionar os impactos reais. Também ajuizará ação de responsabilidade contra Cinelli por gestão temerária e má-fé, com pedido de bloqueio preventivo de bens, e já obteve liminar cautelar para proteger seu patrimônio. A Apex fez questão de esclarecer que não se trata de recuperação judicial — apenas de uma medida preventiva enquanto a apuração avança.
A ABM Partnership, a holding que comanda a estrutura do Grupo Apex, carrega nos ombros uma dívida de R$ 42,3 milhões ligada a cinco aeronaves. O problema não é apenas o tamanho do número — é que ninguém sabe exatamente quem emprestou o dinheiro.
Os contratos de leasing financeiro envolvem uma frota modesta: dois Cessna Citation Bravo e três Super King Air B200. Cada avião tem seu próprio saldo devedor. Os dois Cessna devem R$ 9,3 milhões e R$ 8,4 milhões, respectivamente. Os três King Air carregam dívidas de R$ 8,9 milhões, R$ 8 milhões e R$ 7,5 milhões. Somados, chegam àquele número que aparece nos autos judiciais: R$ 42,3 milhões. Dentro do passivo total do grupo — estimado em quase R$ 1 bilhão — essa quantia representa uma fatia significativa, ainda que não seja a maior.
O que torna a situação peculiar é a opacidade. Os contratos têm avais de pessoas físicas, nomes de gente que colocou seu patrimônio como garantia. Mas o mapa de credores anexado ao processo judicial não identifica qual instituição financeira realmente financiou as operações. Duas empresas do perímetro do grupo têm nomes sugestivos — a BRM Apex INV VCPE A2 Aviation Ltda., sediada em Vitória, e a PSAPX Participações Ltda. — mas os documentos não detalham sua participação real nos contratos. Também não está claro quem usa os aviões ou como eles se encaixam na operação do grupo.
Para entender o que significa essa dívida, é preciso compreender como funciona o leasing financeiro. Segundo o economista Ricardo Paixão, trata-se de um arrendamento mercantil em que uma instituição adquire o bem — neste caso, as aeronaves — e o disponibiliza à empresa mediante pagamentos periódicos. A empresa usa o avião, mas não é dona dele. Enquanto o contrato está vigente, a propriedade jurídica permanece com quem financiou. A empresa arrendatária recebe a posse e o direito de explorar economicamente o ativo conforme as condições do contrato. No Brasil, esses arranjos devem ser inscritos no Registro Aeronáutico Brasileiro.
O não pagamento das parcelas não significa que a aeronave seja imediatamente retirada. Tudo depende do que está escrito no contrato — regras de mora, cláusulas de vencimento antecipado, procedimentos judiciais. Se a empresa deixar de cumprir as obrigações e não conseguir renegociar, o proprietário pode buscar recuperar o ativo, mas respeitando as regras contratuais e legais. Em situações de crise financeira, há alternativas: renegociar as parcelas, alongar os prazos, devolver voluntariamente a aeronave, substituir garantias ou encerrar o contrato antecipadamente.
A Apex Partners, quando procurada pela reportagem, não respondeu perguntas específicas sobre essas operações. Mas a empresa divulgou uma nota explicando as medidas que tomou após descobrir inconsistências financeiras. Fernando Antonio Kulnig Cinelli, presidente da companhia, foi afastado na quinta-feira anterior à publicação. Eduardo Siqueira, diretor financeiro, também saiu. Marcelo Murad, sócio sênior com mais de 25 anos de mercado, assumiu interinamente a presidência. A empresa contratará uma auditoria externa e independente para dimensionar os impactos das inconsistências e aprofundar a apuração dos fatos.
A Apex também informou que ajuizará uma ação de responsabilidade contra Cinelli, buscando sua responsabilização por gestão temerária e má-fé, com pedido de bloqueio preventivo de bens. A empresa obteve uma liminar cautelar na Justiça para proteger seu patrimônio enquanto a auditoria trabalha. Deixou claro que não se trata de recuperação judicial — apenas de uma medida preventiva. A companhia ressaltou que os valores mencionados na ação não representam obrigações vencidas ou imediatas, mas sim compromissos de longo prazo. O impacto real das inconsistências financeiras ainda será validado pela auditoria externa.
Citas Notables
Uma empresa é proprietária, outra utiliza economicamente a aeronave— Ricardo Paixão, economista
Os valores mencionados na ação judicial não representam obrigações vencidas, nem obrigações imediatas — mas sim de longo prazo— Nota da Apex Partners