Por sete décadas, economistas apontaram para impostos, burocracia e insegurança jurídica como causas do atraso brasileiro — mas o economista Alexandre Rands propõe que esses obstáculos são sintomas de algo mais enraizado: uma aliança política entre classe média e elite que capturou o Estado e o moldou para servir a si mesma. Enquanto essa coalizão garantia empregos públicos, aposentadorias generosas e universidades gratuitas para os seus, recusava-se a financiar a educação básica que poderia transformar a produtividade do país. O resultado não é um acidente histórico, mas uma escolha — e enqua
Aliança entre classe média e elite explica estagnação econômica brasileira
O Estado inchado existe porque precisa gerar empregos para burocratas
Então o argumento é que a burocracia e os impostos não são o problema real — são apenas sintomas?
Exatamente. Rands diz que esses obstáculos existem porque alguém se beneficia deles. A burocracia cria empregos públicos bem pagos. Os impostos complexos geram demanda por advogados e auditores. Os subsídios protegem empresas conectadas. Tudo faz sentido se você entender que o sistema foi desenhado para servir a quem está no topo.
Mas espera — como ele prova que a classe média foi a "vencedora" dos conflitos pós-1950? Isso é uma interpretação histórica, não um fato econômico. Diferentes grupos poderiam contar essa história de forma bem diferente.
É verdade que é uma interpretação. Mas ele aponta para evidências concretas: quem tem os empregos públicos estáveis? Quem tem as aposentadorias generosas? Quem tem acesso garantido às universidades federais? A classe média.
E os pobres? Por que não conseguem se organizar politicamente?
Rands diz que há "imensa heterogeneidade" entre os pobres. Não é um grupo coeso. Alguns trabalham na informalidade, outros em setores diferentes, alguns estão desempregados. Sem coesão, sem representação, eles não conseguem negociar como bloco.
Mas isso é uma descrição do que aconteceu, não uma explicação de por que aconteceu. Por que a classe média conseguiu se organizar e os pobres não? Há fatores históricos, educacionais, de acesso à informação que ele não está nomeando explicitamente.
Justo. O livro se concentra mais em mostrar o resultado da aliança do que em explicar como ela se formou em primeiro lugar.
Se tudo isso é verdade, como se muda? Ele oferece um caminho?
Ele diz que reformas tecnocráticas não funcionam. Você precisa de uma mudança política real — uma nova aliança focada em produtividade geral e inclusão dos trabalhadores.
Mas como você constrói essa nova aliança? Quem sai perdendo? A classe média e a elite vão simplesmente aceitar perder seus privilégios porque um economista escreveu um livro? Isso é o ponto fraco da análise — ela diagnostica bem, mas a prescrição é vaga.
Verdade. Ele identifica o que precisa mudar — educação pública, redução do Estado, fim das pensões corporativas — mas não explica a mecânica política de como isso aconteceria.
The Pulse
- O Brasil de 2023 tinha um PIB per capita equivalente a apenas 25,5% do americano — sete décadas e meia depois de ter todas as condições para crescer.
- A tese de Rands é perturbadora: cada entrave que os reformadores identificam — burocracia, subsídios, complexidade tributária — é uma engrenagem deliberada de um sistema que funciona perfeitamente para quem está dentro dele.
- A classe média demonstrou plasticidade política notável ao longo do tempo, aliando-se a ditadores ou à democracia conforme a conveniência, sempre com o objetivo de preservar seus privilégios.
- A recusa sistemática em investir em educação básica de qualidade para trabalhadores pobres destruiu a possibilidade de acumulação de capital humano e condenou a produtividade à estagnação.
- Reformas tecnocráticas isoladas estão fadadas ao fracasso: sem alterar a correlação de forças políticas, a aliança dominante simplesmente encontra novas formas de capturar recursos públicos.
Por sete décadas, economistas apontaram para impostos, burocracia e insegurança jurídica como causas do atraso brasileiro — mas o economista Alexandre Rands propõe que esses obstáculos são sintomas de algo mais enraizado: uma aliança política entre classe média e elite que capturou o Estado e o moldou para servir a si mesma. Enquanto essa coalizão garantia empregos públicos, aposentadorias generosas e universidades gratuitas para os seus, recusava-se a financiar a educação básica que poderia transformar a produtividade do país. O resultado não é um acidente histórico, mas uma escolha — e enquanto a estrutura de poder que a sustenta permanecer intacta, reformas técnicas continuarão a fracassar.
Quando economistas tentam explicar o atraso brasileiro, os suspeitos habituais aparecem sempre: burocracia, insegurança jurídica, labirinto tributário, protecionismo. Alexandre Rands Barros, doutor em economia pela Universidade de Illinois e ex-professor da UFPE, argumenta em seu livro "O Grande Fracasso" que essas explicações tratam sintomas, não a doença. A causa real seria uma aliança política entre classe média e elite que capturou o Estado ao longo de décadas e o moldou para servir exclusivamente aos seus interesses.
A lógica da aliança é simples e eficaz: a elite precisava de um amortecedor político, e a classe média aceitou o papel em troca de empregos públicos estáveis, aposentadorias generosas e vagas gratuitas nas universidades federais. "A elite sempre fez concessões à classe média, que funciona como um colchão de proteção a seus privilégios", resume Rands. Os pobres, fragmentados e sem força política, ficaram de fora.
O preço dessa aliança foi pago em produtividade. Para manter seus privilégios intactos, as classes dominantes recusaram-se sistematicamente a financiar educação básica de qualidade para trabalhadores pobres — preferindo escolas privadas para seus filhos a impostos que universalizassem o ensino público. Sem força de trabalho qualificada, a produtividade não decolou. Sem produtividade, o capital humano não se acumulou. O fosso entre o Brasil e as nações desenvolvidas — o PIB per capita brasileiro equivale a apenas 25,5% do americano — não é acidente, é consequência.
Rands mostra que cada obstáculo identificado pelos reformadores é, na verdade, uma engrenagem bem lubrificada desse sistema: o Estado inchado gera empregos para burocratas; a complexidade tributária cria renda para advogados e auditores; os subsídios protegem elites empresariais da concorrência. O sistema funciona — para quem está dentro dele.
A conclusão é incômoda: reformas tecnocráticas não bastam. Simplificar impostos, enxugar a burocracia ou eliminar subsídios não resolve nada se a aliança que os criou permanecer no poder e encontrar novas formas de capturar recursos. Destravar o crescimento exigiria uma transformação política genuína — concentrar recursos na educação fundamental, eliminar regimes previdenciários corporativos, cortar o clientelismo parlamentar. Nenhuma dessas mudanças é tecnicamente impossível. Todas são politicamente inviáveis enquanto a aliança que as bloqueia mantiver o controle.
Quando economistas tentam explicar por que o Brasil não cresce, costumam apontar para os culpados óbvios: a burocracia que sufoca, a insegurança jurídica que afasta investidores, o labirinto de impostos, o protecionismo histórico. Essas explicações não estão erradas, mas segundo o economista Alexandre Rands Barros, elas tratam os sintomas, não a doença. Em seu livro "O Grande Fracasso: O Porquê do Brasil Não Ter se Desenvolvido nos Últimos 75 anos", Rands propõe que a verdadeira razão pela qual a economia brasileira estagnou está em algo mais profundo: uma aliança política entre a classe média e a elite que capturou o Estado e o moldou para servir aos seus próprios interesses, deixando para trás centenas de milhões de pessoas.
Rands, que tem doutorado em economia pela Universidade de Illinois e foi professor da Universidade Federal de Pernambuco, inverte a lógica convencional. Aqueles obstáculos que todos mencionam — a máquina estatal inchada, a complexidade tributária, os subsídios corporativos — não são acidentes da história ou falhas de gestão. São o resultado direto de uma estrutura de classes que se consolidou ao longo de décadas. A elite sempre precisou de um amortecedor político, e encontrou na classe média um parceiro perfeito. Em troca de proteção de seus privilégios, a elite ofereceu à classe média acesso a empregos públicos bem remunerados e estáveis, aposentadorias generosas, e vagas garantidas nas universidades federais gratuitas. "A elite sempre fez concessões à classe média, que funciona como um colchão de proteção a seus privilégios, seja em regimes previdenciários vantajosos ao funcionalismo, seja em um Estado inchado para gerar empregos", explica Rands. Enquanto isso, os pobres permaneceram fragmentados, sem força política para se organizar e exigir sua própria fatia.
Os números revelam a profundidade do fracasso. Em 2023, o PIB per capita brasileiro era apenas 25,5% do americano e cerca de um terço da média dos países do G7. Sete décadas e meia de independência, e o Brasil ainda está preso em um patamar de renda que o separa radicalmente das nações desenvolvidas. Rands argumenta que a classe média foi a grande vencedora dos conflitos sociais que se desenrolaram após 1950. Ela mostrou uma plasticidade política notável, aliando-se a ditadores quando necessário, abraçando a democracia quando conveniente, sempre com o objetivo de preservar e expandir seus privilégios. Essa hegemonia se traduziu em captura de recursos públicos: cargos de alta remuneração no funcionalismo, pensões subsidiadas, acesso prioritário ao ensino superior público.
Mas havia um preço. Para manter essa aliança funcionando, a classe média e a elite recusaram-se sistematicamente a investir em educação básica de qualidade para os trabalhadores pobres. Preferiam financiar escolas privadas para seus filhos a pagar impostos que universalizassem uma educação pública robusta. Essa escolha teve consequências econômicas devastadoras. Sem uma força de trabalho qualificada, a produtividade não decolou. Sem produtividade, o capital humano não se acumulou. Sem acumulação de capital humano, o Brasil ficou para trás enquanto o resto do mundo avançava. O fosso entre o Brasil e as nações desenvolvidas não é um acidente; é o resultado de uma decisão política deliberada.
Rands mostra como os entraves tradicionais que todos mencionam são, na verdade, subprodutos dessa estrutura. O Estado inchado existe porque precisa gerar empregos para burocratas e profissionais liberais. A burocracia é complexa porque cria oportunidades de renda para advogados e auditores que precisam navegar o sistema. Os subsídios e proteções setoriais existem porque beneficiam as elites empresariais, desestimulando a concorrência e a inovação. Cada obstáculo que os reformadores identificam é, na verdade, uma engrenagem bem lubrificada de um sistema que funciona perfeitamente — para quem está dentro dele.
O livro sustenta uma conclusão incômoda: reformas tecnocráticas não funcionam se deixarem intacta a estrutura de incentivos das classes dominantes. Você pode simplificar o código tributário, enxugar a burocracia, eliminar subsídios — mas se a aliança entre classe média e elite permanecer no poder, ela encontrará novas formas de capturar recursos públicos. Para destravar o crescimento, seria necessária uma transformação política genuína: uma nova aliança focada na produtividade geral e na inclusão dos trabalhadores. Isso significaria concentrar recursos na educação fundamental pública, reduzir o tamanho do Estado, eliminar os regimes previdenciários corporativos, cortar as emendas parlamentares que financiam clientelismo, e simplificar os impostos o suficiente para expor o setor produtivo à competição real. Nenhuma dessas mudanças é tecnicamente impossível. Todas são politicamente inviáveis enquanto a aliança que as bloqueia mantiver o controle.
Notable Quotes
A elite sempre fez concessões à classe média, que funciona como um colchão de proteção a seus privilégios, seja em regimes previdenciários vantajosos ao funcionalismo, seja em um Estado inchado para gerar empregos— Alexandre Rands Barros, economista
Entre os pobres há imensa heterogeneidade, impedindo que se organizassem politicamente— Alexandre Rands Barros