Adolescente de 13 anos morre baleado em ação da PM na Cidade de Deus

Adolescente de 13 anos morto com vários tiros; outro ocupante da moto teve situação desconhecida; três outras pessoas feridas em caso similar dias antes.
Acabaram com um sonho. Era uma criança que passava em qualquer peneira
O tio do adolescente morto descreve o menino que jogava futebol e foi atingido durante ação policial.
Mark

Como é possível que duas versões tão diferentes dos mesmos eventos circulem ao mesmo tempo? A polícia diz que havia confronto, moradores dizem que era execução.

Mimi

Porque não há câmeras corporais sistemáticas, não há transparência imediata. O que temos são relatos de quem estava lá — moradores, familiares — e a versão institucional. Uma pistola foi apreendida, isso é fato. Mas quem atirou primeiro? Isso ainda está sob apuração.

Luke

E aí está o problema. "Procedimento foi instaurado" aparece três vezes nesta história. Mas procedimento não é investigação independente. Procedimento é a polícia investigando a polícia. Não sabemos quem era o policial que atirou em Guilherme Lucas. Não sabemos ainda o que aconteceu com o outro menino na moto.

Mark

O tio do adolescente disse algo que me marcou: "Estavam erradas por estar na moto, mas não estavam levando perigo". Isso sugere que talvez houvesse razão para abordagem, mas não para disparos.

Mimi

Exatamente. Ninguém está dizendo que crianças em motos à noite não devem ser abordadas. A questão é a proporção da resposta. Um menino de 13 anos jogador de futebol versus múltiplos disparos que o mataram.

Luke

Mas precisamos ser cuidadosos aqui. Não sabemos se havia arma na moto. A polícia diz que dois homens atiraram. Se isso for verdade, muda a análise. Se não for, muda completamente. Essa é a apuração que falta.

Mark

E os outros casos? Parecem conectados.

Mimi

Três mortes em dias consecutivos, todas envolvendo polícia, todas com versões conflitantes. Guilherme Lucas era frentista com carteira assinada. Os dez no Complexo da Penha — a polícia diz que eram traficantes. Mas em nenhum caso temos investigação independente clara.

Luke

O padrão é real. Mas cuidado em conectar os pontos demais. Cada caso tem suas próprias circunstâncias. O que eles compartilham é a falta de clareza sobre o que realmente aconteceu e quem será responsabilizado.

  • Adolescente de 13 anos morto a tiros na Cidade de Deus, Rio de Janeiro, em 6 de agosto
  • Vítima era estudante e jogador de futebol sem envolvimento com crime, segundo familiares
  • Polícia Militar alega confronto com dois homens em moto; apreendeu pistola 9mm
  • Três outras mortes por ação policial ocorreram em dias consecutivos no Rio

Vítima era estudante e jogador de futebol sem envolvimento com crime, segundo familiares que questionam necessidade da ação policial. Polícia Militar afirma que dois homens atiraram contra guarnição e apreendeu pistola 9mm no local; procedimento foi instaurado para apuração.

Adolescente de 13 anos foi morto com vários tiros durante ação da PM na Cidade de Deus, Rio de Janeiro. Moradores afirmam que disparos foram de policiais; PM alega confronto com dois homens em moto.

Na noite de domingo, 6 de agosto, um adolescente de 13 anos foi morto a tiros durante uma ação da Polícia Militar na Cidade de Deus, comunidade na zona oeste do Rio de Janeiro. Ele estava em uma motocicleta quando foi atingido. Moradores da região afirmam que os disparos partiram de policiais. A Polícia Militar, por sua vez, sustenta uma versão diferente: dois homens em uma moto teriam atirado contra a guarnição durante policiamento de rotina, e o adolescente foi encontrado ferido após o confronto, não resistindo aos ferimentos.

Segundo familiares, o menino era estudante, jogador de futebol, frequentava uma igreja e não tinha qualquer ligação com atividades criminosas. O tio da vítima, em entrevista à NGB News, descreveu a situação com amargura: as duas crianças na moto estavam erradas por estar ali, reconheceu, mas não representavam perigo para os policiais. "Acabaram com um sonho. Era uma criança que em qualquer clube que fazia a peneira, passava", disse. Não há informações até o momento sobre o outro ocupante do veículo.

A Secretaria de Estado de Polícia Militar informou que uma pistola calibre 9 mm foi apreendida no local. A área foi isolada e a Delegacia de Homicídios acionada. O comando da secretaria instaurou procedimento para apurar as circunstâncias do fato. Vídeos divulgados pela NGB News durante a madrugada de segunda-feira mostraram cápsulas de munição espalhadas pela estrada Marechal Miguel Salazar, a principal via do bairro onde a morte ocorreu. O corpo do adolescente permaneceu no chão, cercado por familiares, até a chegada da perícia por volta das 3h30.

Uma familiar relatou que o corpo do menino ficou marcado por múltiplos impactos de bala. Ela também afirmou que policiais dispararam balas de borracha e lançaram spray de pimenta quando moradores saíram às ruas para protestar contra a morte. Vídeos nas redes sociais capturam cenas de pessoas correndo, gritando e chorando ao perceberem que o adolescente havia sido atingido.

Este caso não é isolado. Na madrugada do mesmo domingo, um jovem de 26 anos, Guilherme Lucas Martins Matias, foi morto a tiros na saída de um baile funk no morro do Santo Amaro, no Catete, zona sul da cidade. Ele comemorava seu aniversário com três amigos quando o veículo em que estavam foi atingido por disparos de um policial militar. A corporação não identificou o agente. Os outros três ocupantes ficaram feridos e foram levados ao hospital municipal Souza Aguiar. A Polícia Militar instaurou procedimento para apurar as circunstâncias.

A tia de Guilherme Lucas, Maria Luzia Martins, descreveu o sobrinho como frentista em um posto de combustíveis com carteira assinada há quatro anos. "A polícia fuzilou o carro com meu sobrinho dentro. Não tinha um bandido, uma pessoa com antecedente criminal. Meu sobrinho era gente de bem, trabalhador. O carro não era roubado. Os policiais não mandaram parar", disse. Familiares e amigos fizeram manifestação no bairro do Catumbi na tarde de domingo, e o túnel Santa Bárbara chegou a ser interditado no sentido zona sul.

Dois dias antes, no dia 2 de agosto, dez pessoas morreram e quatro ficaram feridas após serem baleadas durante operação conjunta das polícias Civil e Militar no Complexo da Penha, zona norte do Rio. Entre os feridos estavam um policial militar do Bope e um adolescente. A Polícia Militar afirmou que os dez mortos e um ferido eram suspeitos de envolvimento com tráfico, e que o objetivo da ação era prender criminosos de outros estados. Os três casos, ocorridos em dias consecutivos, evidenciam um padrão de confrontos letais que deixa questões abertas sobre as circunstâncias exatas de cada morte e o uso da força policial.

Eram duas crianças na moto. Estavam erradas por estar na moto, mas não estavam levando perigo para os policiais
— Tio da vítima, em entrevista à NGB News
A polícia fuzilou o carro com meu sobrinho dentro. Não tinha um bandido, uma pessoa com antecedente criminal. Meu sobrinho era gente de bem, trabalhador
— Maria Luzia Martins, tia de Guilherme Lucas Martins Matias
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