Acordo de Paz com Farc completa 10 anos sob pressão de ataques e expansão armada

Desde 2016, 493 ex-combatentes foram mortos, mais de 290 mil pessoas sofreram deslocamentos forçados em 2025, e massacres aumentaram de 137 mortos em 2016 para 256 em 2025.
A janela para cumprir as promessas está se fechando
Alerta do Instituto Kroc sobre o prazo de 2031 para implementar as 578 cláusulas do acordo.
Mark

Como você avalia o que o acordo realmente conquistou nestes dez anos?

Mimi

Mais de 13 mil pessoas deixaram as armas. Isso é inegável. E 85% delas continuam em processos de reincorporação. Mas enquanto isso, o número de combatentes em grupos armados quadruplicou.

Luke

Espera—quadruplicou de quanto para quanto? De 6.519 em 2017 para 24.610 em 2025. Mas são grupos diferentes das Farc, certo? Não é a mesma organização voltando?

Mimi

Não, são grupos armados remanescentes e outras organizações que ocuparam os espaços que as Farc deixaram. O Estado não conseguiu ocupar esses territórios.

Mark

E quanto aos deslocamentos forçados? Aumentaram?

Mimi

Quase dobraram. Chegaram a mais de 290 mil em 2025. É um número devastador.

Luke

Mas isso é comparado a quê? O artigo não diz quantos havia em 2016. Sabemos que aumentou, mas não temos a linha de base exata.

Mimi

Verdade. Mas o ponto é que a violência não diminuiu como se esperava. Massacres aumentaram de 137 mortos em 2016 para 256 em 2025.

Mark

E os ex-guerrilheiros? Eles estão seguros?

Mimi

Não. 493 foram mortos desde a assinatura. A proteção falhou completamente.

Luke

Segundo quem? Segundo a Missão de Verificação das Nações Unidas, em relatório de julho. Mas isso inclui mortes por quê? Crime comum? Represálias? O artigo não especifica.

Mimi

Boa pergunta. Não sabemos as circunstâncias. Mas o fato é que ex-combatentes continuam sendo alvo.

Mark

Por que apenas 36% das cláusulas foram implementadas?

Mimi

Falta de comprometimento político. Cada governo teve uma abordagem diferente. Santos assinou, Duque quis modificar, Petro focou em "paz total" em vez de implementar o acordo de 2016.

Luke

E agora Espriella está cortando 37% do orçamento. Mas quanto era o orçamento antes? R$ 32,5 bilhões em 2026 para R$ 20,5 bilhões em 2027. É um corte real e significativo.

Mimi

Exatamente. A janela para cumprir tudo até 2031 está se fechando.

Mark

Ainda há esperança?

Mimi

Sim. Metade dos processos de paz fracassa em cinco anos. A Colômbia chegou a dez. Não fracassou, mas também não avançou como deveria.

  • Acordo assinado em 26 de setembro de 2016 entre Santos e Rodrigo Londoño
  • Mais de 13 mil guerrilheiros deixaram as armas; 85% em reincorporação
  • Combatentes em grupos armados: 6.519 em 2017 para 24.610 em 2025
  • Deslocamentos forçados: mais de 290 mil em 2025
  • 493 ex-combatentes mortos desde 2016
  • Apenas 36% das 578 cláusulas completamente implementadas até 2025
  • Orçamento reduzido em 37% para 2027 sob governo Espriella

Mais de 13 mil guerrilheiros deixaram as armas desde 2016, mas a violência persiste com quase o quádruplo de combatentes em grupos armados em 2025 comparado a 2017. Deslocamentos forçados quase dobraram desde o acordo, chegando a 290 mil em 2025, e 493 ex-combatentes foram mortos, revelando falhas na proteção e implementação.

Uma década após o histórico acordo de paz entre a Colômbia e as Farc, o país enfrenta escalada de violência com expansão de grupos armados, deslocamentos forçados e assassinatos de ex-combatentes, enquanto apenas 36% das cláusulas foram implementadas.

Há dez anos, em Cartagena, o presidente colombiano Juan Manuel Santos e o líder das Farc, Rodrigo Londoño, apertaram as mãos diante de uma multidão vestida de branco. Era 26 de setembro de 2016. Santos declarou que o país tinha se cansado da guerra. Londoño, conhecido como Timochenko, pediu desculpas às vítimas do conflito. O documento que assinaram naquele dia encerrava 52 anos de combate entre o Estado e a guerrilha marxista, e rendeu a Santos o Prêmio Nobel da Paz. Mas a celebração durou pouco.

Menos de uma semana depois, os colombianos foram às urnas e rejeitaram o acordo por margem mínima: 50,2% contra 49,8%, uma diferença de apenas 54 mil votos. O texto foi reformulado e assinado novamente em novembro, desta vez em cerimônia modesta no Teatro Colón, em Bogotá. O tropeço inicial sinalizava as dificuldades que viriam. Uma década depois, o país enfrenta uma escalada de violência sob um presidente que prometeu "estripar" líderes de esquerda.

O acordo trouxe conquistas concretas. Mais de 13 mil pessoas deixaram as armas, e cerca de 85% delas seguem em processos de reincorporação à vida civil. Mas a violência não cessou. Desde 2016, nenhum governo conseguiu frear o crescimento de grupos armados. Em 2017, havia 6.519 combatentes nas três principais organizações. Em 2025, esse número saltou para 24.610 distribuídos em quatro grupos—quase o quádruplo em oito anos. Os deslocamentos forçados, cicatriz da guerra, quase dobraram: passaram de números não especificados em 2016 para mais de 290 mil em 2025, segundo a Unidade para as Vítimas. Os massacres também cresceram: de 137 mortos em 2016 para 256 em 2025, conforme dados do Indepaz.

O Instituto Kroc, da Universidade Notre Dame, mapeou a implementação das 578 cláusulas do acordo. Em 2025, apenas 36% foram completamente executadas. Oito por cento nem sequer começaram. O prazo para cumprir tudo é 2031, 15 anos após a assinatura. "A janela para cumprir as promessas está se fechando, deixando as vítimas mais marginalizadas ainda aguardando resultados tangíveis", alertou o instituto em maio. Entre os sucessos, especialistas apontam os Programas de Desenvolvimento com Enfoque Territorial. Entre 2018 e 2024, essas iniciativas reduziram em média mais de 15 pontos percentuais o índice de pobreza multidimensional nos 170 municípios mais impactados pelo conflito. Mas a proteção de ex-guerrilheiros fracassou. Desde a assinatura, 493 ex-combatentes foram mortos, segundo relatório da Missão de Verificação das Nações Unidas divulgado em julho.

A oposição ao acordo nunca desapareceu. Em 2017, Fernando Londoño, correligionário de Iván Duque, prometeu "rasgar em pedaços aquele maldito pedaço de papel". Duque, eleito em 2018, afirmou que modificaria o acordo, não o destruiria. Em 2022, a Colômbia elegeu seu primeiro presidente de esquerda, Gustavo Petro, defensor vocal do acordo. Mas em vez de avançar na implementação, Petro direcionou esforços para sua promessa de "paz total", negociando com grupos armados remanescentes. Quanto mais o acordo de 2016 era relegado a segundo plano, menos os grupos armados se animavam a conversar. Pesquisadores que participaram das negociações relatam que os combatentes questionavam: "E quando a Presidência de Petro terminar? Quem cumprirá suas promessas?".

Agora, o novo presidente Abelardo de la Espriella, eleito em junho com margem parecida à do plebiscito de 2016, planeja destinar 12,94 trilhões de pesos colombianos (R$ 20,5 bilhões) para o acordo em 2027—37% menos do que os 20,56 trilhões de pesos (R$ 32,5 bilhões) de 2026. Apesar do cenário sombrio, especialistas não descartam esperança. Segundo pesquisadores, 50% dos processos de paz fracassam cinco anos após a assinatura. A Colômbia, dez anos depois, ainda não pode ser declarada fracassada. A paz com as Farc não terminou, mas tampouco avançou como prometido.

O que nós assinamos hoje é uma declaração do povo colombiano diante do mundo de que nos cansamos da guerra
— Juan Manuel Santos, presidente da Colômbia, 26 de setembro de 2016
A janela para cumprir as promessas do acordo dentro do prazo estabelecido está se fechando, deixando as vítimas mais marginalizadas do conflito ainda aguardando que o processo produza resultados tangíveis
— Instituto Kroc, Universidade Notre Dame, maio de 2025
Os territórios que as Farc controlavam não foram totalmente ocupados pelas instituições, e isso permitiu um ressurgimento da violência
— Paola Molano Ayala, especialista em direito internacional
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