Por duas décadas, Abramovich direcionou bilhões via empresas fantasma caribenhas, banco austríaco e consultores de Wall Street que frequentemente desconheciam a verdadeira origem do dinheiro. A Concord Management, pequena consultoria liderada por Michael Matlin, organizou mais de 100 investimentos em fundos como Millennium Management, BlackRock e Carlyle Group para o oligarca.
Abramovich usou empresas de fachada para enviar bilhões aos EUA, evitando sanções
Ninguém precisava saber que o dinheiro vinha de Abramovich
Como alguém consegue mover bilhões de dólares sem que ninguém saiba de quem é o dinheiro?
Criando camadas. Você cria uma empresa em um lugar, move o dinheiro para outro lugar, depois para outro. Cada pessoa na cadeia sabe apenas seu pequeno pedaço. O advogado não sabe quem é o cliente final. O gerente do fundo não sabe quem está investindo. É como um jogo de telefone, mas com dinheiro.
Mas Wall Street tem regras sobre isso, certo? Compliance, due diligence?
Tem, mas as regras funcionam só se alguém realmente quer descobrir a verdade. Se você contrata um banco grande para verificar se uma empresa é legítima, e esse banco diz que é, ninguém questiona mais. Ninguém quer ser o chato que faz perguntas demais.
E a Concord Management sabia que estava ajudando Abramovich?
Provavelmente sim. Mas a beleza do esquema é que ninguém precisa admitir isso. A Concord podia dizer que era apenas uma consultoria independente. Os fundos de hedge podiam dizer que não sabiam. Cada pessoa tinha uma versão da verdade que a protegia.
Então por que isso importa agora?
Porque agora Abramovich está sancionado. Seus bens foram congelados na Europa e no Canadá. Mas nos Estados Unidos, o dinheiro dele pode estar tão bem escondido que as autoridades não conseguem encontrá-lo. E se não conseguem encontrá-lo, não conseguem congelá-lo.
O que muda com o Enablers Act?
Teoricamente, força consultores como a Concord a realmente investigar quem são seus clientes. Mas a Concord já desapareceu do radar. O dinheiro já está onde precisa estar. A lei chega tarde demais para pegar Abramovich, mas talvez impeça o próximo oligarca.
El Pulso
- Vinte milhões de dólares transferidos em julho de 2012 das Ilhas Virgens Britânicas para as Ilhas Cayman
- Concord Management organizou mais de 100 investimentos em fundos de hedge para Abramovich ao longo de duas décadas
- Fortuna estimada de Abramovich em treze bilhões de dólares, derivada principalmente de venda de empresa de petróleo russa
- State Street apresentou relatórios de atividades suspeitas em 2015 e 2016 sobre transações da Concord
Por duas décadas, Abramovich direcionou bilhões via empresas fantasma caribenhas, banco austríaco e consultores de Wall Street que frequentemente desconheciam a verdadeira origem do dinheiro. A Concord Management, pequena consultoria liderada por Michael Matlin, organizou mais de 100 investimentos em fundos como Millennium Management, BlackRock e Carlyle Group para o oligarca.
Oligarca russo Roman Abramovich utilizou rede complexa de empresas de fachada em paraísos fiscais para transferir bilhões de dólares a fundos de hedge americanos, evitando sanções através de intermediários que desconheciam a verdadeira origem dos recursos.
Em julho de 2012, vinte milhões de dólares saíram de uma empresa registrada nas Ilhas Virgens Britânicas e entraram em um veículo de investimento nas Ilhas Cayman. A transferência era o ponto final de meses de trabalho cuidadosamente orquestrado — um pequeno exército de advogados, diretores corporativos, gerentes de fundos e consultores espalhados pelos Estados Unidos, Europa e Caribe, todos operando sob uma premissa simples: ninguém precisava saber que o dinheiro vinha de Roman Abramovich.
Por vinte anos, o oligarca russo confiou nessa estratégia. Criava empresas de fachada, canalizava recursos através de um pequeno banco austríaco, aproveitava as conexões de grandes nomes de Wall Street. Bilhões de dólares fluíram silenciosamente para fundos de hedge proeminentes e empresas de private equity nos Estados Unidos. A engenhosidade do esquema residia em uma verdade simples: cada pessoa envolvida — o advogado, o diretor, o gerente do fundo — podia dizer honestamente que não estava trabalhando para Abramovich. Em muitos casos, nem sabiam para quem estavam movimentando o dinheiro.
A Concord Management, uma pequena consultoria fundada em 1999 e liderada por Michael Matlin, foi o coração dessa operação. Não administrava diretamente os recursos de Abramovich. Funcionava como intermediária: recomendava investimentos aos diretores de empresas fantasma caribenhas, apresentava executivos a fundos de hedge através de grandes bancos como Credit Suisse, Goldman Sachs e Morgan Stanley. Ao longo dos anos, a Concord organizou mais de cem investimentos em diferentes fundos — Millennium Management, BlackRock, Sarissa Capital Management, Carlyle Group, D.E. Shaw, Bear Stearns. Mantinha um perfil tão discreto que nem tinha site, nem estava registrada nos órgãos reguladores americanos. Uma das poucas vezes que veio à luz foi em 2020, quando recebeu um empréstimo de duzentos e sessenta e cinco mil dólares do Paycheck Protection Program durante a pandemia.
O sigilo criou suspeitas. Em 2015 e 2016, investigadores da State Street apresentaram relatórios de atividades suspeitas ao governo americano sobre transações que a Concord organizava envolvendo as empresas-fantasma caribenhas de Abramovich. Mas na maioria das vezes, os financistas americanos não tinham interesse em descobrir a origem do dinheiro. Contanto que as verificações de antecedentes de rotina não levantassem bandeiras vermelhas, tudo corria bem. John Paulson, que administra um dos maiores fundos de hedge do país, recebeu investimentos de uma empresa que a Concord representava e disse depois que não tinha conhecimento dos investidores por trás dela. O JPMorgan Chase foi contratado para garantir que empresas de fachada fossem legítimas e que os investimentos obedecessem às regras de combate à lavagem de dinheiro — e liberou o investimento sem nunca descobrir a verdadeira origem do dinheiro.
Abramovich construiu uma fortuna estimada em treze bilhões de dólares, principalmente através da compra oportuna de uma empresa de petróleo de propriedade do governo russo, que depois vendeu de volta ao Estado com lucro enorme. Seus ativos nos Estados Unidos incluem imóveis de luxo perto de Aspen, no Colorado, além de investimentos significativos em instituições financeiras. Seus laços com Vladimir Putin e a origem controversa de sua riqueza o tornaram uma figura polêmica. Em março de 2022, autoridades europeias e canadenses impuseram sanções contra ele e congelaram seus bens, incluindo o clube de futebol Chelsea. Os Estados Unidos, porém, não o sancionou.
Agora, enquanto Washington e seus aliados impõem sanções a pessoas próximas a Putin, rastrear essas fortunas representa um desafio significativo. O IRS pediu mais recursos ao Congresso para ajudar a supervisionar o programa de sanções do governo Biden, enquanto o Departamento de Justiça criou uma nova força-tarefa de cleptocracia. No Capitólio, legisladores promovem o Enablers Act, um projeto de lei que exigiria que consultores de investimentos identificassem e examinassem com mais cuidado seus clientes. A questão que paira é se essas medidas chegam tarde demais — se bilhões já não estão além do alcance das autoridades, escondidos em estruturas tão complexas e indiretas que rastreá-los pode levar anos, se é que for possível.
Citas Notables
A chave era que todo advogado, diretor corporativo, gerente de fundo de hedge e consultor de investimentos envolvido no processo pudesse dizer honestamente que não estava trabalhando diretamente para Abramovich— Documento investigativo sobre as operações financeiras
Não tinha conhecimento dos investidores da Concord— John Paulson, gerente do fundo Paulson & Co.