A verdadeira maldição das múmias online: bolor tóxico, não magia

Dez de doze conservadores morreram em 1970 após inalarem esporos de fungo durante abertura de túmulo; Lord Carnarvon morreu em 1923 possivelmente por aspergilose.
Dez de doze conservadores morreram após inalarem esporos de um fungo antigo
Precedente histórico que mostra o verdadeiro risco biológico das múmias, não magia.
Mark

Porque é que isto está a acontecer agora? As múmias sempre existiram.

Mimi

Porque a internet democratizou o acesso. Antes, estas peças estavam em museus ou em coleções privadas muito restritas. Agora qualquer pessoa com dinheiro pode comprar online, sem intermediários, sem regulação.

Mark

Mas as pessoas não sabem que isto é perigoso?

Mimi

Aparentemente não. Ou sabem e ignoram. O estudo sugere que há pouco conhecimento dos perigos ou uma decisão deliberada de os ignorar. Os vendedores não dão orientações. As fotografias mostram pessoas a tocar em corpos antigos com as mãos nuas, como se fosse seguro.

Mark

E quanto aos compradores? Estão a ficar doentes?

Mimi

Não há dados sobre isso no estudo. Mas há precedentes históricos muito claros. Dez de doze conservadores morreram em 1970 depois de abrir um túmulo. Lord Carnarvon morreu em 1923. Estes não eram colecionadores amadores — eram especialistas com equipamento.

Mark

Então a maldição das múmias era real?

Mimi

Não era magia. Era aspergilose. Era fungos nos pulmões. A história preferiu chamar-lhe maldição porque era mais romântico, mais assustador. Mas o perigo real é microbiológico e químico — chumbo, mercúrio, arsénio, esporos que matam.

Mark

E ninguém está a fazer nada para parar isto?

Mimi

O estudo foi publicado. Os investigadores alertaram. Mas não há regulação. O mercado continua não regulamentado. As caixas continuam a chegar aos compradores.

  • Mãos, pés e cabeças mumificadas são vendidos em plataformas de leilão como se fossem souvenirs inofensivos, sem qualquer orientação de segurança para quem os compra.
  • Os restos contêm chumbo, mercúrio e arsénio dos processos de embalsamamento antigo, além de esporos fúngicos e agentes patogénicos que prosperam na biodegradação.
  • A história é clara nos seus avisos: dez dos doze conservadores que abriram o túmulo de Casimiro IV em 1970 morreram após inalar esporos de Aspergillus; Lord Carnarvon pode ter morrido pela mesma razão em 1923.
  • Apesar dos riscos documentados, o mercado permanece sem regulação — os vendedores ignoram os perigos, as caixas continuam a ser enviadas pelo correio, e os compradores manuseiam material biológico milenar com as mãos nuas.

Entre leilões de móveis antigos e joias vintage, circulam silenciosamente restos humanos mumificados — mãos, pés, cabeças — vendidos online sem qualquer aviso de segurança. Um estudo da Universidade de Staffordshire revelou que este mercado não regulamentado expõe colecionadores a substâncias tóxicas do embalsamamento e a agentes patogénicos potencialmente letais, os mesmos que a história registou como causadores de mortes reais entre arqueólogos e conservadores. O que a lenda chamou de maldição, a ciência reconhece como contaminação microbiana — e ela continua a chegar, discreta e anónima, às casas de quem compra sem saber o que está realmente a tocar.

Numa plataforma de leilões qualquer, entre móveis antigos e joias vintage, está à venda uma mão mumificada. Noutro anúncio, um pé. Noutro, uma cabeça. Ninguém avisa o comprador sobre o que está realmente a levar para casa.

Um estudo publicado na International Journal of Cultural Property mapeou cerca de 130 anúncios online de restos humanos e animais mumificados. Os investigadores da Universidade de Staffordshire encontraram algo perturbador pela sua banalidade: vendedores a ignorar sistematicamente os perigos biológicos e químicos do que comercializavam. Alguns anúncios mostravam pessoas a tocar fragmentos de corpos antigos com as mãos nuas. Nenhum orientava sobre manuseamento ou conservação. Muitos nem mencionavam que os restos eram enviados pelo correio, dentro e fora de fronteiras, sem qualquer consideração pelos riscos.

A bioarqueóloga Kirsty Squires foi direta: os restos mumificados vendidos online apresentam sinais de biodeterioração, mas os vendedores não fornecem qualquer orientação de segurança — por ignorância profunda ou por decisão deliberada de ignorar os perigos. Os artigos mais comuns eram partes do corpo humano, com mais de metade dos lotes a incluir cabeças em vários estados de integridade.

O risco não é sobrenatural. É químico e microbiológico. Muitos corpos ainda contêm vestígios de chumbo, mercúrio e arsénio usados no embalsamamento antigo. Mas o perigo mais imediato vem dos agentes patogénicos que prosperam na biodegradação. Em 1970, dez dos doze conservadores que abriram o túmulo do rei Casimiro IV Jagelão em Cracóvia morreram após inalar esporos do fungo Aspergillus. Em 1923, Lord Carnarvon — o mecenas da expedição ao túmulo de Tutankhamon — morreu provavelmente pela mesma razão, embora a história tenha preferido chamar-lhe maldição.

A ironia é que o perigo real é tão concreto quanto uma febre e tão invisível quanto um esporo. Colecionadores em Londres, São Paulo ou Tóquio manuseiam material biológico milenar sem proteção e sem saber o que estão realmente a tocar. O mercado não regulamentado continua a ignorar os riscos, e as caixas continuam a chegar — discretas, anónimas, potencialmente letais.

Numa plataforma de leilões qualquer, entre anúncios de móveis antigos e joias vintage, está à venda uma mão mumificada. Noutro lado, um pé. Noutro ainda, uma cabeça em estado de conservação incerto. Ninguém avisa o comprador sobre o que está realmente a levar para casa.

Um estudo publicado há pouco na International Journal of Cultural Property mapeou cerca de 130 anúncios online que ofereciam restos humanos e animais mumificados. O que os investigadores da Universidade de Staffordshire encontraram foi perturbador pela sua banalidade: vendedores a ignorar sistematicamente os perigos biológicos e químicos daquilo que estavam a comercializar. Alguns anúncios incluíam fotografias de pessoas a tocar em fragmentos de corpos antigos com as mãos nuas, como se fossem souvenirs inofensivos. Nenhum orientava sobre como manusear ou conservar estas peças. Muitos nem sequer mencionavam que os restos estavam a ser enviados pelo correio, tanto dentro de fronteiras como para o estrangeiro, sem qualquer consideração pelos riscos que isso implicava.

A bioarqueóloga Kirsty Squires, autora principal do estudo, foi clara: "A nossa investigação revelou que os restos mumificados vendidos online apresentam sinais de biodeterioração, mas os vendedores não dão quaisquer orientações de segurança." Isto sugeria, acrescentava, ou uma ignorância profunda dos perigos envolvidos ou uma decisão deliberada de os ignorar. Os artigos mais comuns eram partes do corpo humano — mãos e pés — mas mais de metade dos lotes incluía cabeças em vários estados de integridade.

O verdadeiro risco não é sobrenatural. É químico e microbiológico. Muitos destes corpos ainda contêm vestígios das substâncias usadas no embalsamamento antigo: chumbo, mercúrio, arsénio. Mas o perigo mais imediato vem dos agentes patogénicos que prosperam na biodegradação. A história oferece precedentes claros e mortais. Em 1970, quando uma equipa abriu o túmulo do rei Casimiro IV Jagelão em Cracóvia, dez dos doze conservadores morreram após inalarem esporos do fungo Aspergillus. Mais de um século antes, em 1923, Lord Carnarvon, o mecenas que financiou a expedição ao túmulo de Tutankhamon, morreu — provavelmente pela mesma razão, embora a história tenha preferido chamar-lhe maldição.

Essas lendas sobre maldições egípcias têm raízes mais profundas em preconceitos culturais ultrapassados e em racismo do que em qualquer intervenção sobrenatural. Mas a ironia é que o perigo real — o que matou aqueles conservadores, o que pode matar um colecionador desatento — é tão concreto quanto uma febre, tão invisível quanto um esporo. A biodegradação aumenta o risco de contaminação microbiana mesmo quando os restos parecem estar bem preservados. Um colecionador em Londres, outro em São Paulo, outro em Tóquio, todos a manusear material biológico com milhares de anos sem qualquer proteção, sem qualquer conhecimento do que realmente estão a tocar.

Squires concluiu que apesar dos riscos significativos para a saúde e a segurança, o mercado não regulamentado de restos mumificados continua a ignorá-los. Ninguém está a regular isto. Ninguém está a avisar. E enquanto isso, as caixas continuam a chegar aos compradores, discretas, anónimas, potencialmente letais.

A nossa investigação revelou que os restos mumificados vendidos online apresentam sinais de biodeterioração, mas os vendedores não dão quaisquer orientações de segurança
— Kirsty Squires, bioarqueóloga, Universidade de Staffordshire
Apesar dos riscos significativos para a saúde e a segurança associados ao manuseamento de restos mumificados, os vendedores deste mercado não regulamentado tendem a ignorá-los
— Kirsty Squires
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