Em 1976, o psicanalista alemão Erich Fromm lançou uma pergunta que atravessa décadas e ainda ressoa nas escolhas cotidianas: o que resta de nós quando perdemos o que possuímos? Em sua obra 'Ter ou Ser?', Fromm distinguiu dois modos de existir — um centrado no acúmulo, outro enraizado na experiência e nos vínculos — e alertou que confundir identidade com posses é construir o eu sobre um chão que pode desaparecer. Cinquenta anos depois, sua reflexão permanece um espelho incômodo e necessário diante do consumismo que promete pertencimento e entrega ansiedade.
A pergunta de Fromm que incomoda: se perco o que tenho, quem sou eu?
Quem se define pelas posses perde junto um pedaço de si
Por que uma pergunta feita há cinquenta anos ainda incomoda tanto? Parece que estamos mais presos ao consumo agora do que em 1976.
Porque Fromm identificou algo estrutural, não apenas uma moda. Ele viu que quando a gente confunde o que temos com quem somos, a gente fica refém de coisas que podem desaparecer. E sim, hoje é pior porque a publicidade e as redes sociais tornaram isso muito mais intenso.
Mas ele não estava sendo um pouco duro? Ter coisas que a gente gosta não é necessariamente ruim. Tem gente que guarda objetos por razões afetivas legítimas, não por vaidade.
Verdade. Fromm não estava dizendo para não ter nada. Ele estava separando dois modos de existir: um onde você se define pelas posses, e outro onde você se define pelo que você faz, sente e cria.
E como a gente sabe em qual modo está vivendo?
Quando você perde algo, o que acontece? Você perde um pedaço de si, ou você segue em frente? Se a resposta é a primeira, você está muito preso ao modo ter.
Mas aí tem uma questão prática: a gente vive numa sociedade que mede valor por posses. Não é só escolha individual. Perder o emprego, por exemplo, é perder status, renda, identidade social.
Exato. Por isso Fromm falava de ansiedade constante. Quem se apoia só em posses vive com medo de perder. E numa sociedade que muda rápido, esse medo é bem fundado.
Então a pergunta dele é um convite para repensar o que realmente sustenta a gente?
É. Vínculos, talentos, histórias. Coisas que ninguém leva embora.
Il Polso
- A pergunta de Fromm — 'se o que tenho se perde, quem então sou eu?' — expõe uma fragilidade que o consumismo moderno prefere deixar sem resposta.
- Quem ancora a própria identidade em bens, cargos e status vive sob ameaça constante: a segurança prometida pelo objeto se converte em medo permanente de perdê-lo.
- O ciclo não termina: quando a satisfação dura só até a próxima novidade, a identidade passa a depender da fatura seguinte, e o carrinho de compras vira substituto do autoconhecimento.
- A reflexão de Fromm oferece um filtro prático — perguntar, antes do impulso, se a compra atende a uma necessidade real ou apenas à vontade de parecer alguém.
- O que sustenta a pessoa nas perdas maiores — fim de emprego, enchente, mudança — são vínculos, talentos e histórias: coisas que ninguém leva embora.
Em 1976, o psicanalista alemão Erich Fromm lançou uma pergunta que atravessa décadas e ainda ressoa nas escolhas cotidianas: o que resta de nós quando perdemos o que possuímos? Em sua obra 'Ter ou Ser?', Fromm distinguiu dois modos de existir — um centrado no acúmulo, outro enraizado na experiência e nos vínculos — e alertou que confundir identidade com posses é construir o eu sobre um chão que pode desaparecer. Cinquenta anos depois, sua reflexão permanece um espelho incômodo e necessário diante do consumismo que promete pertencimento e entrega ansiedade.
Há cinquenta anos, Erich Fromm escreveu uma pergunta que ainda ecoa nas promoções do celular e nas vitrines dos shoppings: 'Se eu sou o que tenho, e se o que tenho se perde, quem então sou eu?' Publicada em 1976, a obra 'Ter ou Ser?' vendeu mais de dez milhões de exemplares em 26 idiomas e permanece uma das críticas mais penetrantes ao consumismo moderno.
Fromm nasceu em Frankfurt em 1900, formou-se psicanalista em Berlim e emigrou para os Estados Unidos em 1934, fugindo do nazismo. Lecionou em Columbia, na New School e na Universidade Nacional Autônoma do México, antes de se mudar para a Suíça, onde morreu em 1980. Sua marca foi aplicar a psicanálise às questões sociais, indo além do consultório para entender como a sociedade molda a psique.
No livro que completa meio século em 2026, Fromm separa dois modos de existir. No modo 'ter', a pessoa se define pelo que acumula — bens, status, poder. No modo 'ser', o centro está na experiência, no amor e na atividade criativa. A distinção tem peso prático: quem se define pelas posses carrega uma fragilidade invisível, pois tudo o que se tem pode ser perdido. A segurança prometida pelo objeto vira fonte constante de ansiedade, e o ciclo nunca termina.
A lógica vale para o carro novo, o celular do ano e também para o cargo no trabalho. Para Fromm, o problema não é comprar — é transformar a compra em prova de valor pessoal. Quando a satisfação dura só até a próxima novidade, a identidade passa a depender da fatura seguinte.
A pergunta do psicanalista pode servir de filtro antes de qualquer impulso de consumo, mas também alcança perdas maiores: o fim de um emprego, um bem levado por uma enchente. Nessas horas, o que sustenta a pessoa são vínculos, talentos e histórias — coisas que ninguém leva embora. Para marcar o meio século da obra, a Sociedade Internacional Erich Fromm organiza em novembro um dia de estudos em Frankfurt, cidade natal do autor.
Há cinquenta anos, um psicanalista alemão fez uma pergunta que ainda ecoa nas vitrines, nos carrões de compras e nas notificações de promoção que chegam ao celular. "Se eu sou o que tenho, e se o que tenho se perde, quem então sou eu?" Erich Fromm escreveu isso em 1976, no livro Ter ou Ser?, que vendeu mais de dez milhões de exemplares em 26 idiomas e segue como uma das críticas mais penetrantes ao consumismo moderno. A pergunta não é retórica. Ela aponta para algo que a maioria das pessoas sente mas raramente nomeia: o risco de construir a própria identidade sobre alicerces que podem desaparecer.
Fromm nasceu em Frankfurt em 1900 e se formou psicanalista em Berlim. Entrou para o Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt em 1930, mas quando os nazistas chegaram ao poder, mudou-se para os Estados Unidos em 1934. Trabalhou na Universidade Columbia e lecionou na New School entre 1941 e 1959, depois foi professor na Universidade Nacional Autônoma do México. Em 1974, mudou-se para a Suíça, onde morreu em 1980. Sua marca foi aplicar a psicanálise a questões sociais e políticas, frequentemente discordando de pontos centrais da teoria de Freud. Fromm não estava interessado apenas em consultório; ele queria entender como a sociedade molda a psique.
No livro que completa meio século em 2026, Fromm separa dois modos fundamentais de existir. No modo ter, a pessoa se define pelo que acumula: bens, status, poder. No modo ser, o centro está na experiência, no amor, na partilha e na atividade criativa. A distinção não é acadêmica. Quem vive preso ao primeiro modo carrega uma fragilidade invisível. Tudo o que se tem pode ser perdido, e quando isso acontece, quem se definiu pelas posses perde junto um pedaço de si. A segurança que o objeto promete vira, na prática, uma fonte constante de ansiedade. A pessoa vive com medo de perder o que acumulou, presa num ciclo que nunca termina.
A lógica vale para o carro novo, o celular do ano, a roupa de grife e também para o cargo no trabalho. No Rio, onde a vitrine do shopping e a promoção no celular disputam o salário apertado, a pergunta vira rotina: quem eu seria sem isso? Para Fromm, a resposta saudável está no que a pessoa faz, sente e constrói com os outros. O consumismo entra exatamente aí. Na leitura do autor, o problema não é comprar. O problema é transformar a compra em prova de valor pessoal. Quando a satisfação dura só até a próxima novidade, o ciclo recomeça, e a identidade passa a depender da fatura seguinte. É a psicanálise olhando para o carrinho de compras.
A pergunta de Fromm pode servir de filtro antes da compra por impulso. Perguntar se aquilo atende a uma necessidade real ou só à vontade de parecer alguém é um exercício simples e não exige abrir mão de conforto nem de pequenos prazeres. A reflexão também alcança perdas maiores: o fim de um emprego, uma mudança de bairro, um bem levado por uma enchente. Nessas horas, o que sustenta a pessoa são vínculos, talentos e histórias, coisas que ninguém leva embora. Se a frase de Erich Fromm mexeu com você, a sugestão é escolher hoje algo que você é, e não algo que você tem, e cuidar disso com carinho. A Sociedade Internacional Erich Fromm organiza em novembro um dia de estudos sobre o livro em Frankfurt, a cidade natal do autor, para marcar o meio século da obra.
Citazioni salienti
Se eu sou o que tenho, e se o que tenho se perde, quem então sou eu?— Erich Fromm, Ter ou Ser? (1976)