A escrita é pá e pedra: o valor do processo diante da IA

Quem mais perde é a autora, que abre mão do processo.
Madalosso responde à colunista que ditava artigos de opinião à IA, sem condená-la.
Mark

Qual é o ponto central do texto da Giovana Madalosso?

Mimi

Que escrever não é só entregar uma ideia pronta. Para ela, o processo e o resultado são inseparáveis: a escrita é pá e pedra ao mesmo tempo.

Mark

E o que a motivou a escrever isso?

Mimi

A revelação de que uma colunista da Folha usava IA para redigir artigos de opinião, ditando as ideias e deixando a ferramenta estruturá-las. A colunista admitiu e disse que saber não se mede em horas digitando.

Luke

O texto nomeia essa colunista?

Mimi

Não. Fala apenas em uma colunista do jornal, sem identificá-la.

Mark

Então Madalosso condena a prática?

Mimi

Não exatamente. Diz que, para transmitir uma ideia pronta, delegar funciona. Mas acha que quem perde mais é a própria autora, que abre mão de descobrir algo ao escrever.

Luke

Convém lembrar que é uma coluna de opinião. A tese de que o processo gera ideias vem da experiência pessoal dela, não de um estudo.

Mimi

Verdade. O exemplo concreto é o personagem Cícero, de "Tudo pode ser roubado", que ela só compreendeu quando o romance estava quase pronto.

Mark

E a previsão final, de que a IA não substituirá o escritor?

Luke

É uma aposta, não um fato. Ela se apoia na crença de que sempre haverá quem queira cavar e leitores que prefiram o texto imperfeito. Nada no texto mede isso.

  • Uma colunista da Folha admitiu redigir seus artigos de opinião ditando à inteligência artificial, e a prática acendeu um debate sobre o que significa, de fato, escrever.
  • A resposta de Giovana Madalosso sustenta que o texto nasce da escavação: quem escreve não sabe de antemão o que vai encontrar, e a descoberta acontece no próprio ato de cravar a pá.
  • O exemplo do personagem Cícero, de seu romance, mostra que a figura só ganhou forma quase no fim do livro, e que cada página anterior foi indispensável para isso.
  • A autora reconhece que a ideia pode chegar fielmente ao leitor, mas aponta que quem mais perde ao delegar o processo é o próprio escritor, que abre mão da lapidação que separa o brilhante do razoável.

Num tempo em que máquinas se oferecem para ditar e organizar o pensamento alheio, a colunista Giovana Madalosso lembra, na Folha de S.Paulo, que escrever sempre foi uma forma de descobrir o que se pensa. Sua reflexão, publicada em 1º de novembro de 2026, responde a uma colega que admitiu redigir artigos com inteligência artificial, e recoloca uma pergunta antiga: o valor de um texto está apenas na ideia que ele carrega, ou também no caminho percorrido até ela?

Foi uma frase que incomodou Giovana Madalosso. Uma colega colunista da Folha contou que vinha usando inteligência artificial para escrever seus artigos de opinião: ditava o que pensava, e a máquina organizava o texto. Para ela, conhecimento e sabedoria não se medem pelas horas gastas digitando. Madalosso, que construiu o próprio pensamento justamente nessas horas, respondeu em texto publicado em 1º de novembro de 2026, sem condenar a colega. Se o objetivo é transmitir uma ideia já pronta, admite, delegar a estruturação funciona.

Mas, para ela, escrever é outra coisa. Escrever é escolher um ponto de partida qualquer, uma imagem, um incômodo, e cravar a pá nele. Revolver pensamentos e memórias até encontrar a pedra bruta, que a própria escrita lapida. Pouquíssimos escritores sabem, ao sentar, tudo o que vão narrar; a ideia e a estrutura surgem no caminho e surpreendem quem as produziu.

Seu romance Tudo pode ser roubado traz o exemplo. Só quando o livro estava quase pronto ela entendeu quem era Cícero, e o personagem mais complexo dos últimos capítulos não existiria sem as páginas anteriores. Houve um tempo de sofrimento, semanas cavando sem achar nada, até que a letrista Lulina lhe disse que as páginas jogadas fora são as que constroem as boas. Cavar nunca é em vão: vai-se ganhando musculatura, pulso para conferir cada palavra.

Madalosso reconhece que uma colunista pode ditar sem digitar nada, e que a ideia chegará ao leitor. Quem mais perde é a própria autora, que abre mão do processo. Antes de escrever, ela não sabia onde chegaria; ditado, o texto teria dois ou três parágrafos. Por isso, conclui, a IA não substituirá o escritor: sempre haverá quem prefira cavar a bauxita, ainda que lascada e imperfeita, à pedra sintética.

Alguém apontou, nas últimas semanas, que uma colunista da Folha estava usando inteligência artificial para escrever seus artigos de opinião. Não como ferramenta de consulta, que é o uso mais comum, mas para redigir os textos em si. A colunista admitiu a prática e sugeriu que não há problema em ditar o que pensa para a IA e deixar que ela organize o texto, dispensando o esforço manual, porque, nas palavras dela, conhecimento e sabedoria não se medem pelo número de horas digitando.

É a esse episódio que responde Giovana Madalosso, também colunista do jornal, em texto publicado em 1º de novembro de 2026. Ela diz que a frase a fez refletir, porque todo o seu pensamento, desde a juventude, foi construído em torno das horas que passa escrevendo e digitando. Deixa claro que não vem condenar, com atraso, a colega. Se o objetivo de alguém é transmitir uma ideia que já está pronta, admite, delegar a estruturação à IA funciona. Mas, para ela, escrever não é isso.

A imagem que Madalosso propõe é a da escavação. Escrever seria escolher um ponto de partida qualquer, um tema, uma imagem, um incômodo, uma sonoridade, e cravar nele a pá. Dali em diante, revolver pensamentos, escavar memórias e mover a matéria até encontrar a pedra bruta, que a própria escrita também lapida. Daí a ideia central do texto: a escrita é ao mesmo tempo processo e produto, pá e pedra.

Segundo ela, pouquíssimos escritores sentam para escrever sabendo tudo o que vão narrar. É no processo que se descobre uma ideia e uma estrutura, que depois serão lapidadas até virar coluna, crônica, ensaio, conto ou romance, ou ainda verso e aforismo. O resultado, diz, costuma surpreender o próprio autor, que não sabia pensar exatamente daquele jeito.

O exemplo vem de seu romance "Tudo pode ser roubado". Madalosso só entendeu direito quem era o personagem Cícero quando o livro já estava quase pronto. O Cícero mais complexo e acabado dos últimos capítulos não existiria sem a escrita de cada página anterior. Neste caso, achou que valia a pena voltar e reescrevê-lo.

Houve também um tempo em que ela sofria, cavando semanas sem encontrar nada. Quem atenuou a frustração foi a letrista Lulina, que lhe disse que não sofresse, pois são as páginas jogadas fora que constroem as boas. Madalosso entendeu então que cavar nunca é em vão: é ganhar musculatura, manejar melhor a pá, revolver o terreno mental e textual com mais rapidez, da ponta dos dedos aos axônios. É ter pulso para trabalhar cada palavra e conferir se não há outra melhor no lugar, porque esse grau de lapidação, afirma, separa o texto brilhante do razoável e o razoável do medíocre.

A autora reconhece que uma colunista pode, sim, estruturar um texto por ditado, sem digitar nada, e que a ideia chegará fielmente ao leitor, que não perde tanto. Quem mais perde, segundo ela, é a autora, que abre mão do processo. Madalosso conta que, antes de começar o próprio texto, não sabia onde chegaria; se o tivesse ditado, teria dois ou três parágrafos.

Por isso, conclui, a IA não substituirá o escritor: sempre haverá quem queira cavar e leitores que prefiram receber, em vez da pedra sintética, uma bauxita, ainda que lascada e imperfeita, e talvez por isso mais bela.

Quem mais perde é a autora, que abre mão do processo.
— Giovana Madalosso, colunista da Folha
Conhecimento e sabedoria não são medidos pelo número de horas digitando.
— Colunista da Folha que admitiu usar IA, citada por Madalosso
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