A natureza reserva a vivência real da morte para fases avançadas da vida, transformando-a de conceito intelectual em sensação material que reorienta nossas ações e prioridades. Essa consciência não apenas colore os momentos presentes com maior intensidade, mas também amplia nossa sensibilidade ao contemplar o passado e os laços que construímos ao longo dos anos.
A consciência do fim e a intensidade da vida
Cada momento fica pintado de purpurina, de cores, de faíscas
Então você está dizendo que só na velhice a gente realmente entende que vai morrer?
Não exatamente. A gente sabe intelectualmente muito antes. Mas há uma diferença entre saber e sentir de verdade, como uma sensação material que muda como você vive.
Mas isso não é universal, certo? Nem todo mundo que envelhece tem essa experiência. Algumas pessoas podem negar até o fim.
É verdade. Meu pai falava que a natureza era sábia em proporcionar isso, mas ele estava falando de sua própria experiência, não de uma lei.
E quando essa consciência chega, o que muda?
Muda tudo. Os momentos ficam mais intensos. Você começa a saborear as coisas. Rosa Montero descreveu como cada momento fica pintado de cores, de faíscas.
Mas ela tem 75 anos e está lançando um livro. Nem todo mundo tem essa vitalidade aos 75. Há pessoas que ficam deprimidas com a consciência da morte.
Claro. O seminário em memória de Chico Lopes mostrou isso — homens que viveram bem, que construíram coisas juntas, e que conseguem olhar para trás com satisfação.
E seu pai? Ele conseguiu isso?
Não completamente. Seus últimos anos foram penosos por causa da doença de minha mãe. Mas ele viveu tão bem antes disso que acho que teria dito sim ao eterno retorno.
Você está confiante nisso? Ou é algo que você está interpretando?
É interpretação. Mas baseada em como ele vivia, em como falava sobre os desafios que se propunha.
E você? Você aceitaria viver tudo de novo?
Sim, mas acho fácil dizer isso agora. Ainda estou no começo dessa última infância.
Il Polso
- Seminário em memória do economista Chico Lopes no Instituto Casa das Garças, Rio de Janeiro
- Chico Lopes faleceu em maio; sua carreira foi abortada pelo caso Marka-FonteCindam
- Conceito nietzschiano do Eterno Retorno: aceitar viver a vida novamente, inteira e sem descontos
- Rosa Montero, 75 anos, lançando livro 'A Carne' no Brasil
A natureza reserva a vivência real da morte para fases avançadas da vida, transformando-a de conceito intelectual em sensação material que reorienta nossas ações e prioridades. Essa consciência não apenas colore os momentos presentes com maior intensidade, mas também amplia nossa sensibilidade ao contemplar o passado e os laços que construímos ao longo dos anos.
Colunista reflete sobre como a consciência da finitude humana, que chega na maturidade, transforma a percepção do presente e confere maior intensidade aos momentos vividos, ilustrando com exemplos pessoais e filosóficos.
Há uma diferença entre saber que a morte existe e realmente senti-la. Meu pai explicou isso em um almoço de seus 70 anos, cercado pela família inteira. Ele disse que sabemos da morte como sabemos dos planetas — apenas intelectualmente, sem que isso nos toque de verdade. A natureza, segundo ele, é sábia: reserva para os anos mais avançados da vida aquela sensação material forte, aquele sentimento do fim que realmente nos reorienta. Naquele mesmo dia, ele anunciou sua aposentadoria como executivo bancário. Quando perguntaram o que faria depois, respondeu em tom de brincadeira que faria como os burros nas antigas fazendas de café — corcovearia, rolaria na grama, zurraria. Depois ficou sério e disse que se aposentava porque ainda tinha energia para novos desafios.
Essa reflexão voltou à minha mente ao ler uma crônica do escritor José Eduardo Agualusa. Ele escreve sobre a "última infância" — aquele período quando já não é possível ignorar a morte. Entre a infância e a velhice, passamos décadas fingindo que ela não existe. Depois, em algum momento que não conseguimos precisar, a ideia simplesmente se instala em nossos pensamentos. Não é algo que convocamos; está lá, discretamente, como um pano de fundo. Não berra, não esperneia. Apenas pede que nos demos conta da qualidade especial de cada momento que vivemos e o saboreemos.
A escritora Rosa Montero, aos 75 anos, descreveu essa transformação com precisão. Quando você começa a ficar bem mais velha, disse ela, há uma sensação vertiginosa de que o tempo está acabando. E é justamente isso que faz a vida ficar mais intensa. Cada momento fica pintado de purpurina, de cores, de faíscas, de luzes. Porque cada momento importa, é bonito e vale a pena. Essa consciência do fim não apenas colore o presente — ela também amplia nossa sensibilidade quando contemplamos o passado a partir de uma idade mais avançada.
Recentemente, participei de um seminário no Instituto de Estudos de Política Econômica Casa das Garças, no Rio de Janeiro, em memória do economista Chico Lopes, que faleceu em maio. Estava reunido um grupo notável de homens — André Lara Resende, Edmar Bacha, Persio Arida, Rogério Werneck, entre muitos outros — todos na casa dos 70 ou mais, todos tendo investido uma parte importante de suas vidas na estruturação do Departamento de Economia da PUC-Rio. Havia algo tocante em vê-los ali, confrontando a passagem do tempo, homenageando o colega admirado e querido. Os laços originais eram perceptíveis, mesmo sob a poeira de décadas que os havia conduzido por caminhos tão diversos. Lembrei-me do filme "Carruagens de Fogo", que meu pai adorava — nele, um grupo de homens já idosos homenageia um companheiro com quem dividiram a ousadia das Olimpíadas de 1924. A juventude, como experiência compartilhada, adquire uma nova dimensão quando vista à distância de décadas.
O momento mais marcante do seminário foi quando Pedro Bodin relatou um almoço com Chico Lopes, poucos meses antes de sua morte. Chico havia comentado sobre o conceito nietzschiano do "Eterno Retorno" — a ideia de um demônio que aparece e diz que você terá de viver sua vida novamente, inúmeras vezes, com cada dor, cada prazer, cada pensamento, na mesma ordem, até os mínimos detalhes. Nietzsche entende que feliz seria aquele que pudesse querer a própria vida de novo, inteira e sem descontos. O surpreendente foi ouvir que Chico, cuja vida havia sido violentamente alterada — sua carreira pública foi injustamente abortada pelo caso Marka-FonteCindam — afirmou considerar-se um homem feliz no sentido nietzschiano. Ele aceitaria de bom grado repetir sua própria existência sem nenhuma alteração.
Agualusa conta que sua mãe, aos 90 anos, lhe disse que os últimos 20 anos haviam sido os melhores de sua vida, entre outras coisas porque já não tinha que prestar contas a ninguém. Meu pai não diria que seus últimos anos foram os mais felizes. Apesar do êxito no desafio que se propôs — defender a expansão do ensino técnico profissionalizante no Brasil — seus últimos anos foram penosos. A doença de minha mãe, uma forma de Alzheimer, foi longa e impediu que usufruíssem tudo que haviam construído juntos. Como ele me disse, "a vida me pregou uma peça". Na vida, é preciso ter sorte também. Ainda assim, viveu tão bem, por tantos anos, que não tenho dúvidas de que teria dito sim à proposta do eterno retorno. Quanto a mim, tampouco tenho qualquer dúvida de que aceitaria — mas acho que é fácil dizer isso quando ainda mal adentramos a última infância.
Citazioni salienti
Sabemos da morte como sabemos da existência dos planetas; apenas intelectualmente.— O pai da colunista, em seu almoço de 70 anos
Quando você começa a ficar bem mais velha, há uma sensação tão vertiginosa de que o tempo está acabando que a vida começa a ficar mais intensa.— Rosa Montero, escritora, aos 75 anos