A Bíblia e a ciência política: como Samuel revelou a natureza do poder

O poder que protege é o mesmo poder que oprime
A lição que o livro de Samuel oferece sobre a natureza dual da autoridade monárquica, segundo Holmes e Halbertal.
Mark

Por que um ministro do Supremo Tribunal Federal estaria citando um cientista político americano em um argumento sobre constitucionalismo?

Mimi

Porque Holmes oferece uma defesa sofisticada de algo que parece contraditório: que limites ao poder na verdade o fortalecem. Fachin estava tentando argumentar que o STF deveria respeitar seus próprios limites constitucionais.

Luke

Mas a questão é: estava Fachin descrevendo o que o STF faz, ou o que deveria fazer? Porque o texto sugere que "infelizmente" isso não tem acontecido.

Mark

E o livro de Samuel? Como um texto antigo sobre monarquia israelita se conecta com política constitucional moderna?

Mimi

Holmes e Halbertal argumentam que Samuel já havia compreendido algo fundamental: que o poder que protege é o mesmo poder que oprime. Não há ilusão sobre reis benevolentes.

Luke

Mas é importante notar que eles estão fazendo uma leitura específica de Samuel. Outros estudiosos poderiam ler o mesmo texto de formas diferentes. Holmes está usando a Bíblia para apoiar uma tese liberal.

Mark

Então a Bíblia está sendo usada como argumento político?

Mimi

Sim, mas não de forma simplista. Holmes não está dizendo que a Bíblia é conservadora ou progressista. Está dizendo que ela contém uma análise clara de como o poder funciona — e essa análise é compatível com o pensamento liberal sobre freios e contrapesos.

Luke

Embora valha notar que a Bíblia também foi usada para justificar monarquias absolutas, teocracias e muitas outras formas de governo. O texto é ambíguo o suficiente para suportar múltiplas leituras políticas.

Mark

O que Holmes está realmente defendendo contra seus críticos?

Mimi

Contra a ideia de que o liberalismo é uma patologia moderna. Seus críticos — de Maistre, Schmitt, Strauss e outros — argumentam que a democracia liberal sofre de males espirituais causados pelo individualismo excessivo ou pelo burocratismo. Holmes diz que essa fraqueza aparente é na verdade a força do sistema.

Luke

E a evidência para isso? Holmes aponta para a "resiliência" do liberalismo diante de seus inimigos. Mas resiliência pode significar muitas coisas — pode significar que o sistema é robusto, ou pode significar que ele conseguiu se adaptar sem resolver seus problemas fundamentais.

  • A Bíblia é frequentemente descartada como irrelevante para o debate político sério, mas pensadores de peso como Roberto Calasso e Northrop Frye a reconhecem como o clássico dos clássicos da literatura e do pensamento humano.
  • Holmes e Halbertal demonstram que o livro de Samuel já compreendia, séculos antes de qualquer teoria moderna, que o rei que defende o povo também o taxará, escravizará e oprimirá — o poder nunca vem sem custo.
  • O ministro Fachin invocou Holmes em setembro para argumentar que o STF deve operar dentro dos limites constitucionais, reconhecendo que a legitimidade institucional nasce exatamente dessa contenção.
  • A tensão central permanece viva: críticos do liberalismo veem seus freios e contrapesos como patologia, enquanto Holmes os defende como a verdadeira fonte de resiliência democrática.
  • A lição que Samuel ensinou aos israelitas — cercar o poder de limites porque sua natureza é expansiva — ainda aguarda ser plenamente aprendida pelas democracias contemporâneas.

Há quase três mil anos, o livro de Samuel descreveu com precisão desconcertante o que a ciência política moderna ainda luta para articular: o poder que protege é o mesmo poder que oprime. O cientista político Stephen Holmes, ao lado de Moshe Halbertal, encontrou nesse texto bíblico uma 'ciência política' primitiva que antecipa os fundamentos do constitucionalismo liberal — a ideia de que limites ao poder não o enfraquecem, mas o legitimam. Em tempos em que instituições como o Supremo Tribunal Federal são convocadas a refletir sobre seus próprios contornos, essa sabedoria antiga ressoa com urgência contemporânea.

Descartar a Bíblia como irrelevante para questões políticas sérias revela mais ignorância do que sofisticação. É justamente nela que o cientista político americano Stephen Holmes, em parceria com Moshe Halbertal, encontrou uma das mais lúcidas descrições da natureza do poder já escritas.

Em 'The Beginning of Politics, Power in the Biblical Book of Samuel', os dois autores mostram que o livro de Samuel contém uma ciência política primitiva e cristalina. Quando Israel pede a Deus um rei para protegê-lo de inimigos externos, Deus cede — mas avisa: o mesmo soberano que os defenderá tomará seus filhos como soldados, suas filhas como servas e suas terras como impostos. O poder que salva também oprime. Essa verdade, enunciada há quase três mil anos, permanece estruturalmente válida.

Holmes é também conhecido no Brasil por 'O Custo dos Direitos', obra em que argumenta que direitos fundamentais dependem de um Estado financiado por impostos. Mas sua contribuição mais provocativa talvez seja a tese de que freios e contrapesos constitucionais não enfraquecem o poder — ao contrário, o legitimam. Quanto mais cercado de limites, mais legítima se torna a autoridade. O ministro Edson Fachin invocou exatamente essa concepção em setembro, ao defender que o STF deve operar dentro dos limites da Constituição.

Críticos do liberalismo — de Carl Schmitt a Alasdair MacIntyre — enxergam em seus mecanismos de contenção uma patologia moral e espiritual. Holmes responde que essa aparente fraqueza é, na verdade, a fonte de resiliência do sistema. Um poder submetido à lei demonstrou durabilidade que a força ilimitada raramente alcança. O que Samuel ensinou aos antigos israelitas, a política contemporânea ainda está aprendendo.

Há uma tendência entre certos círculos de descartar a Bíblia como irrelevante para questões sérias. Essa atitude, porém, revela mais ignorância do que sofisticação. A literatura hebraica é, como observaram pensadores de envergadura como Roberto Calasso e Northrop Frye, o clássico dos clássicos — e sua relevância para entender política e poder permanece intacta.

O cientista político e jurista americano Stephen Holmes, nascido em 21 de fevereiro de 1948, oferece um caminho produtivo para essa conversa. Sua obra mais conhecida no Brasil é "O Custo dos Direitos: Por que a Liberdade Depende dos Impostos", publicada pela WMF Martins Fontes, na qual defende que direitos fundamentais — propriedade privada, liberdade individual — não existem sem um Estado financiado por impostos. Direitos, em outras palavras, custam dinheiro real. Mas Holmes desenvolveu ideias ainda mais provocativas sobre a natureza do poder institucional. Ele argumenta que quanto mais um poder está cercado de freios e contrapesos constitucionais, mais legítimo ele se torna. Os limites, paradoxalmente, não enfraquecem a autoridade — fortalecem-na, porque a legitimidade brota da constitucionalidade da ação. O ministro Edson Fachin invocou exatamente essa concepção em 15 de setembro, ao defender que o Supremo Tribunal Federal deveria permanecer dentro dos limites da lei e da Constituição, algo que, lamentavelmente, nem sempre ocorre.

Mas a contribuição mais singular de Holmes talvez seja sua colaboração com Moshe Halbertal em "The Beginning of Politics, Power in the Biblical Book of Samuel". Nesta obra, os autores demonstram que o livro de Samuel contém uma "ciência política" primitiva mas cristalina — um entendimento da monarquia e do poder que antecede em séculos qualquer formulação teórica moderna. Quando Israel pede ao profeta Samuel que Deus lhes conceda um rei para defendê-los de ameaças externas e da escravização, o povo estava fragmentado em tribos rivais, vulnerável aos inimigos. Deus, até então seu único rei, mostrou-se militarmente ineficaz. Diante do pedido, Deus cede, abrindo espaço para um poder inteiramente humano.

O que segue é a monarquia de Saul, Davi e seus descendentes. Diferentemente dos reis-deuses das civilizações vizinhas, os reis de Israel serão homens — mas homens com poder real. E aqui está o ponto que Holmes e Halbertal destacam com precisão: Deus avisa seu povo sobre o preço dessa proteção. O mesmo rei que os defenderá dos inimigos externos tomará seus filhos como soldados, suas filhas como servas sexuais, sua terra como impostos. O soberano que salva também oprimirá. Essa é a natureza do poder monárquico, revelada sem ilusões.

O livro de Samuel, portanto, não oferece uma fantasia sobre autoridade benevolente. Oferece um diagnóstico: o poder que protege é o mesmo poder que explora. Essa compreensão, escrita há quase três mil anos, permanece relevante porque toca em uma verdade estrutural sobre a política. Holmes dedicou sua carreira a defender o liberalismo constitucional contra críticos que veem nele apenas patologia — individualismo exacerbado, burocratismo excessivo, consumismo e relativismo. Autores como Joseph de Maistre, Carl Schmitt, Leo Strauss, Christopher Lasch, Alasdair MacIntyre e Roberto Mangabeira Unger, cada um à sua maneira, argumentaram que a democracia liberal sofre de males espirituais e morais. Holmes responde que a fraqueza aparente do liberalismo é, na verdade, sua força. Um sistema que se governa por leis em vez da vontade dos homens demonstrou resiliência notável diante de seus inimigos.

O que Samuel oferece, então, é uma base textual antiga para essa defesa moderna. Se o poder sempre traz consigo tanto proteção quanto opressão, então a solução não é eliminar o poder — é cercá-lo de limites. A Constituição, os freios e contrapesos, a separação de poderes: não são fraquezas impostas ao Estado, mas reconhecimentos de uma verdade que o texto bíblico já havia enunciado. O poder precisa ser contido porque sua natureza é expansiva. Legitimidade não vem da força ilimitada, mas da força submetida à lei. Essa lição, que Samuel ensinou aos antigos israelitas, continua esperando ser aprendida.

Quanto mais um poder é dotado de freios e contrapesos constitucionais, mais legítimo ele é
— Stephen Holmes, conforme citado pelo ministro Edson Fachin
O mesmo rei que os defenderá dos inimigos externos tomará seus filhos como soldados, suas filhas como servas sexuais, sua terra como impostos
— Aviso divino em Samuel, conforme interpretado por Holmes e Halbertal
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