63% dos brasileiros acima do peso, mas maioria se vê saudável

Seis em cada dez brasileiros carregam, sem perceber, um fator de risco
Sobre o excesso de peso e sua ligação com mais de dez tipos de câncer, segundo especialista do A.C.Camargo Cancer Center.
Mark

Como uma pesquisa com dois mil pessoas consegue capturar algo tão importante quanto a desconexão entre o que as pessoas sentem e o que seus corpos realmente enfrentam?

Mimi

A pesquisa ouviu presencialmente pessoas em todas as 27 unidades da Federação, o que dá uma cobertura geográfica real. Mas o mais revelador é que ela mediu coisas concretas — peso segundo critérios da OMS, frequência de exercícios, dias de consumo de álcool — e depois perguntou como as pessoas avaliavam sua própria saúde. Aí aparece o contraste.

Luke

Mas como sabemos que essas pessoas responderam com precisão sobre seus hábitos? Alguém que bebe cinco dias por semana pode estar minimizando ou maximizando isso na memória. E a avaliação de saúde é totalmente subjetiva.

Mimi

Verdade. A pesquisa não explica a metodologia de coleta de dados sobre hábitos — se foi autorrelato ou medição. Mas o padrão que emerge é tão consistente que parece real: 63% acima do peso, 59% se sentindo bem. Isso não é uma coincidência.

Mark

E esse paradoxo do álcool — pessoas que bebem mais frequentemente se sentindo mais saudáveis — é realmente um paradoxo ou apenas reflete que pessoas que bebem socialmente têm mais interação social?

Luke

Ótima pergunta. A pesquisa não controla para outros fatores. Pode ser que pessoas que bebem cinco dias por semana também tenham mais vida social, mais renda, mais acesso a outras coisas que as fazem se sentir bem. Não sabemos.

Mimi

Mas a pesquisa mesma oferece uma explicação: a socialização e o relaxamento associados ao álcool fazem as pessoas confundirem bem-estar com saúde. Isso é plausível.

Mark

A questão da renda é clara — 40% dos que ganham um salário mínimo têm dificuldade com alimentação saudável, contra 10% dos que ganham cinco. Isso é um achado de política pública, não apenas de saúde individual.

Luke

Sim, mas a pesquisa não oferece números sobre quanto custa manter uma alimentação saudável ou quanto seria necessário de renda para torná-la acessível. É um dado que aponta para o problema sem quantificá-lo completamente.

Mimi

Ainda assim, o fato de que 29% citam preço como obstáculo principal é concreto. E que entre os mais ricos, o tempo passa a ser o problema — isso mostra que a questão não é apenas econômica, é também estrutural.

  • Seis em cada dez brasileiros carregam excesso de peso — um fator de risco silencioso para mais de dez tipos de câncer — sem que isso altere sua percepção de estar saudável.
  • Quem bebe álcool quase todos os dias se sente melhor do que quem não bebe, revelando como o prazer social pode mascarar danos reais ao organismo.
  • Quatro em cada dez brasileiros não praticam atividade física, abrindo mão de uma das ferramentas de prevenção mais acessíveis e eficazes contra o câncer.
  • O acesso à alimentação saudável divide o país: 40% dos mais pobres têm dificuldade para comer bem, enquanto entre os mais ricos esse obstáculo cai para 10%.
  • Especialistas alertam que todos esses fatores de risco são modificáveis — e que agir sobre eles hoje é a aposta mais concreta contra um diagnóstico de câncer no futuro.

Uma pesquisa nacional conduzida pelo A.C.Camargo Cancer Center revela uma tensão silenciosa no cotidiano brasileiro: a maioria das pessoas acredita estar bem, enquanto seus corpos acumulam riscos invisíveis. Excesso de peso, sedentarismo e consumo de álcool coexistem com uma percepção amplamente positiva de saúde, sugerindo que o bem-estar sentido e o bem-estar real seguem caminhos distintos. A ciência há muito sabe que os maiores perigos não doem — e essa pesquisa coloca esse paradoxo diante de 63% de uma nação.

Uma pesquisa do A.C.Camargo Cancer Center, realizada com mais de dois mil brasileiros em todas as unidades da Federação, expôs uma lacuna inquietante: 59% das pessoas descrevem sua saúde como ótima ou boa, mas 63% estão acima do peso, 26% têm obesidade e 42% não se exercitam regularmente. O patologista e CEO Victor Piana destaca que o excesso de peso é fator de risco para mais de dez tipos de câncer — e que a maioria dos brasileiros carrega esse risco sem perceber.

O consumo de álcool revelou um paradoxo desconcertante: quem bebe entre cinco e sete dias por semana relata melhor saúde (64%) do que quem não bebe (58%). A pesquisa aponta que a socialização e o relaxamento associados ao álcool criam uma falsa sensação de bem-estar — enquanto a Organização Mundial da Saúde classifica a substância como cancerígena, ligando-a a tumores em diversas partes do corpo.

Na alimentação, o cenário é mais nuançado: dois terços dos entrevistados consomem alimentos frescos com frequência, mas o acesso não é igual para todos. O preço elevado de frutas, carnes e vegetais é o principal obstáculo para 29% dos que têm dificuldade com a dieta. A renda aprofunda essa divisão — 40% dos que ganham até um salário mínimo enfrentam barreiras para comer bem, contra apenas 10% entre os de maior renda.

Piana encerra com uma perspectiva de esperança: sedentarismo, obesidade, cigarro e álcool instalam-se silenciosamente na rotina sem alterar o bem-estar imediato, mas todos são modificáveis. Cuidar dos hábitos hoje, afirma, é a forma mais eficaz de afastar um diagnóstico de câncer amanhã.

Uma pesquisa realizada pelo A.C.Camargo Cancer Center em parceria com a Nexus Pesquisa e Inteligência de Dados ouviu 2.015 brasileiros maiores de 16 anos em todas as 27 unidades da Federação e encontrou uma lacuna perturbadora entre o que as pessoas sentem e o que seus corpos realmente enfrentam. Cinquenta e nove por cento dos entrevistados descrevem sua saúde como ótima ou boa. Ao mesmo tempo, 63% carregam peso acima do recomendado, 26% foram classificados com obesidade segundo critérios da Organização Mundial da Saúde, e 42% não praticam atividade física regularmente.

Essa desconexão não é acidental. Victor Piana, patologista e CEO do A.C.Camargo Cancer Center, observa que o excesso de peso é hoje reconhecido pela ciência como fator de risco para mais de dez tipos de câncer — intestino, mama, pâncreas, esôfago, entre outros. Seis em cada dez brasileiros, portanto, carregam sem perceber um dos principais fatores de risco da doença. Mesmo entre quem se exercita, a frequência média é de apenas 2,4 dias por semana, bem abaixo do recomendado. Piana ressalta que manter uma rotina de exercícios reduz o risco de certos cânceres, ajuda no controle do peso e melhora a resposta do organismo durante e após tratamentos oncológicos. Quem não se movimenta, ele aponta, abre mão de uma das ferramentas de prevenção mais baratas e acessíveis que existem.

O consumo de álcool revelou um paradoxo ainda mais desconcertante. Entre os entrevistados, 58% afirmam não beber, 30% consomem álcool de um a dois dias por semana, e 5% bebem entre cinco e sete dias semanalmente. Mas aqueles que bebem com mais frequência — cinco a sete dias por semana — relatam melhor saúde: 64% classificam sua condição como ótima ou boa, comparado a 58% entre os abstêmios. A pesquisa identifica nesse contraste o perigo de uma falsa percepção de saúde. A socialização e o relaxamento associados ao consumo frequente de álcool fazem com que as pessoas confundam sentir-se bem com estar realmente saudáveis. A Organização Mundial da Saúde classifica o álcool como cancerígeno e o associa a tumores de boca, garganta, esôfago, fígado, intestino e mama. Quando combinado ao cigarro, os riscos aumentam ainda mais.

A alimentação apresenta um quadro mais matizado. Sessenta e seis por cento dos entrevistados consomem alimentos frescos — frutas, verduras, legumes, ovos e carnes — seis dias ou mais por semana. Bebidas açucaradas, ultraprocessados, doces e frituras aparecem em média cerca de dois dias da semana. Mas o acesso a essa alimentação adequada não é uniforme. Entre quem tem dificuldade para manter bons hábitos alimentares, 29% apontam o preço elevado de carnes frescas, frutas e vegetais como principal obstáculo. Outros 21% citam falta de tempo e cansaço.

A renda determina essa realidade de forma clara. Entre quem recebe até um salário mínimo, 40% relatam dificuldade para manter uma alimentação saudável. Já entre os que ganham mais de cinco salários mínimos, esse percentual cai para 10%. Para esse grupo de maior renda, a falta de tempo passa a ser o principal problema, citada por 39%. Piana oferece uma perspectiva que equilibra o diagnóstico com a esperança: fatores como excesso de peso, sedentarismo, cigarro e consumo de álcool podem se instalar de forma silenciosa na rotina, sem necessariamente alterar a percepção imediata de bem-estar. Mas todos eles são modificáveis. Cuidar dos hábitos hoje, ele afirma, é a forma mais eficaz de reduzir as chances de um diagnóstico de câncer amanhã.

O excesso de peso é hoje reconhecido pela ciência como fator de risco para mais de dez tipos de câncer, entre eles os de intestino, mama, pâncreas e esôfago.
— Victor Piana, CEO do A.C.Camargo Cancer Center
Cuidar dos hábitos hoje é a forma mais eficaz de reduzir as chances de um diagnóstico de câncer amanhã.
— Victor Piana, CEO do A.C.Camargo Cancer Center
Contáctanos FAQ