Zona sudoeste do RJ lidera mortes violentas após disparo em BRT mata passageiro

Gerente de farmácia morto em ônibus BRT; 177 mortes violentas registradas na região de janeiro a agosto de 2026, incluindo 64 mortes por intervenção policial.
A região saltou do sétimo para o primeiro lugar em mortes violentas
Jacarepaguá registrou 177 mortes de janeiro a agosto de 2026, aumento de 58% em relação ao mesmo período de 2025.
Mark

Por que essa região específica virou o epicentro da violência? Não é só uma questão de crime organizado em geral?

Mimi

É principalmente a expansão do Comando Vermelho. Ele está avançando pela zona oeste e entrando em confronto direto com milícias e com o Terceiro Comando Puro. A região era disputada antes, mas a intensidade aumentou muito.

Luke

Mas espera — a polícia diz que faz operações conforme a mancha criminal. Como sabemos se o aumento de mortes é causado pela disputa ou pelas operações em si?

Mimi

Ótima pergunta. Pesquisadores da UFF apontam que regiões do Comando Vermelho recebem mais operações do que áreas de milícia. Então pode ser os dois — a disputa causa violência, mas a polícia também atua mais ali.

Mark

E quanto ao passageiro do BRT? Ele estava envolvido em algo ou foi só estar no lugar errado na hora errada?

Mimi

Tudo indica que foi acaso. Flávio Lira era gerente de farmácia, 53 anos. Estava em pé no ônibus quando levou um tiro na barriga. Ninguém sabe de onde partiu o disparo.

Luke

A polícia diz que não sabe se o tiro tem ligação com a operação que estava acontecendo. Mas eles estavam operando ali naquele momento. Quanto disso é realmente desconhecido e quanto é apenas não investigado ainda?

Mimi

A Delegacia de Homicídios está investigando. Mas você tem razão — há uma lacuna entre o que a polícia sabe e o que está sendo dito publicamente.

Mark

Qual é a escala dessa violência? 177 mortes em oito meses — isso é muito?

Mimi

É o maior aumento do estado. A região saltou do sétimo para o primeiro lugar em mortes violentas. E 64 dessas mortes foram por intervenção policial — o maior número entre todas as áreas.

Luke

Mas não temos dados de população. Será que essa região tem mais gente que as outras? Isso mudaria a proporção?

Mimi

Ótimo ponto. Os dados não levam em consideração a população de cada área. Então não sabemos se é realmente o pior lugar ou se tem mais gente lá.

Mark

O que vem a seguir? Isso vai piorar?

Mimi

A polícia diz que não precisa de reforço. Mas a disputa territorial não mostra sinais de arrefecimento. Há operações contínuas, confrontos, barricadas. Parece estar longe do fim.

  • Flávio de Abreu Lira, 53, gerente de farmácia, morto em ônibus BRT em Jacarepaguá na manhã de 30 de setembro
  • 177 mortes violentas na região do 18º BPM de janeiro a agosto de 2026, aumento de 58% comparado a 2025
  • 64 mortes por intervenção de agente do Estado na região, maior número entre todas as áreas do estado
  • Região liderada por disputa entre Comando Vermelho, milícias e Terceiro Comando Puro
  • Desde 2023, mais de 5.700 prisões e 320 apreensões de adolescentes na área

Flávio de Abreu Lira, 53, foi baleado em ônibus do BRT na zona sudoeste do Rio enquanto PM realizava operação na comunidade Dois Irmãos. Jacarepaguá e região saltaram do sétimo para o primeiro lugar em mortes violentas do estado em 2026, com aumento de 58% em relação ao mesmo período de 2025.

Gerente de farmácia é morto em ônibus BRT em Jacarepaguá durante operação policial. A região do 18º BPM registra 177 mortes violentas de janeiro a agosto de 2026, alta de 58%, liderando o estado em letalidade.

Flávio de Abreu Lira, gerente de farmácia com 53 anos, estava em pé dentro de um ônibus do BRT na manhã de quarta-feira quando uma bala o atingiu na região do abdômen. O veículo seguia pelo corredor Transolímpico, próximo à estação Ventura, em Jacarepaguá, na zona sudoeste do Rio de Janeiro. O motorista continuou até a estação Asa Branca, onde bombeiros tentaram reanimá-lo por volta das 6 da manhã. Ele morreu no local. Naquele mesmo momento, a Polícia Militar executava uma operação na comunidade Dois Irmãos, mas a origem do disparo que matou Lira permanece desconhecida, assim como sua possível conexão com a ação policial. A Delegacia de Homicídios abriu investigação.

O que torna a morte de Lira particularmente significativa é o contexto em que ocorreu. A região onde ele foi baleado — abrangida pelo 18º Batalhão de Polícia Militar, que inclui bairros como Jacarepaguá, Taquara, Praça Seca e Rio das Pedras — transformou-se em 2026 no epicentro da violência letal no estado do Rio de Janeiro. De janeiro a agosto, foram registradas 177 mortes violentas na área, comparadas a 112 no mesmo período de 2025. Trata-se de um aumento de 58 por cento, o maior do estado. Enquanto isso, o restante do Rio viu seus números de mortes violentas caírem 7,4 por cento.

Em 2025, essa região ocupava o sétimo lugar no ranking estadual de letalidade. Hoje lidera. À sua frente, em segundo e terceiro lugares, ficam apenas Duque de Caxias, com 168 mortes, e Irajá, com 145. O indicador de mortes violentas soma homicídios dolosos, mortes por intervenção de agente do Estado, latrocínios e lesões corporais seguidas de morte. Os homicídios propriamente ditos cresceram de 64 para 108 casos — um aumento de 69 por cento — enquanto caíram 7,7 por cento no restante do estado. A região saltou do nono para o terceiro lugar em homicídios no Rio. Mais preocupante ainda: as mortes causadas por intervenção de agentes do Estado subiram de 47 para 64, um crescimento de 36 por cento. É o maior número entre todas as áreas integradas de segurança pública do estado, enquanto o restante do Rio registrou queda de 6,2 por cento nesse indicador.

Segundo a polícia, a explosão de violência decorre da disputa territorial entre facções criminosas. O Comando Vermelho está em expansão pela zona oeste, entrando em confronto direto com milícias e com o Terceiro Comando Puro. A região é disputada há anos, mas o acirramento se intensificou durante a pandemia. Pesquisadores da Universidade Federal Fluminense, através do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos, confirmam que o Comando Vermelho conquistou território na Grande Jacarepaguá nos últimos anos. A socióloga Carolina Grillo, coordenadora do grupo, observa que o aumento de operações e da letalidade não é surpreendente diante dessa expansão. Ela também aponta algo mais delicado: pesquisas de longa data indicam que regiões controladas pelo Comando Vermelho recebem mais operações policiais do que áreas dominadas por milícias, sugerindo um direcionamento desigual na atuação policial.

Os confrontos entre grupos rivais deixaram marcas visíveis nas ruas. Na noite de 29 de agosto, tiroteios em Jacarepaguá mataram quatro pessoas e feriram uma. Catorze ônibus foram usados como barricadas em diferentes pontos — Muzema, Curicica, Gardênia Azul e Taquara. Em 17 de setembro, o Batalhão de Operações Policiais Especiais realizou operação nas comunidades da Chacrinha e do Jordão, e criminosos incendiaram barricadas em resposta. Desde setembro, o Bope mantém uma base avançada dentro da Muzema, em uma área de mata entre a comunidade e Rio das Pedras, perto do corredor do Itanhangá, para conter esses confrontos.

No caso específico da morte de Lira, a operação do 18º BPM foi coordenada para localizar suspeitos de um homicídio ocorrido na terça-feira na comunidade Asa Branca. Segundo documento de inteligência da PM obtido pela reportagem, os autores seriam da comunidade Dois Irmãos, área de milícia, e tentariam tomar a Asa Branca, atualmente dominada pelo Comando Vermelho. A polícia afirma que seus agentes foram recebidos a tiros por homens armados em um carro e revidaram de forma que descrevem como técnica, moderada e proporcional. Um suspeito foi preso com quatro fuzis, sete rádios transmissores, dois artefatos explosivos, um colete à prova de balas, duas câmeras e dois veículos roubados. Em um segundo confronto em área de mata, outro homem foi preso com um fuzil calibre 5,56, tendo sido baleado sem gravidade. Apenas após essa segunda prisão os policiais souberam da morte do passageiro do BRT.

A Polícia Militar afirma manter investigações contínuas sobre grupos criminosos e possíveis alianças entre organizações, incluindo disputas territoriais, fornecimento de armas e apoio logístico. Desde 2023, quando os confrontos se intensificaram, a corporação diz ter feito mais de 5.700 prisões e mais de 320 apreensões de adolescentes na área do 18º BPM. Mantém duas companhias destacadas em Jacarepaguá — uma na Praça Seca e outra nas imediações da rua Tirol, perto da Freguesia — para coibir a circulação de criminosos vindos da Gardênia Azul e da Cidade de Deus. A corporação afirma que não há necessidade de reforço do efetivo. O que fica claro é que a morte de Flávio Lira é apenas um ponto em uma curva de violência que continua ascendente, refletindo uma disputa territorial que não mostra sinais de arrefecimento.

O aumento de operações e da letalidade não é surpreendente
— Carolina Grillo, socióloga e coordenadora do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da UFF
Regiões controladas pelo Comando Vermelho são mais submetidas a operações do que as de milícia. Há um direcionamento
— Carolina Grillo, sobre a distribuição desigual de operações policiais
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