Em meio à corrida presidencial, Romeu Zema foi chamado a explicar uma das decisões mais controversas de sua gestão à frente de Minas Gerais: o aumento de quase 300% em seu próprio salário. A resposta que ofereceu revela a tensão permanente entre a lógica administrativa e a percepção pública do poder — Zema argumenta que o aumento era um instrumento, não um benefício, e que cada centavo recebido foi doado às APAEs do estado. É o momento em que um candidato tenta transformar uma vulnerabilidade política em prova de caráter.
Zema explica aumento de 300% no salário: doou tudo à APAE
Eu fui o único que teve coragem para fazer isso
Por que um candidato à Presidência precisa voltar a explicar uma decisão de salário que tomou anos atrás?
Porque aumentar o próprio salário em 300% é exatamente o tipo de coisa que fica na memória das pessoas. Mesmo que ele tenha doado tudo, a imagem inicial é a de alguém que triplicou sua remuneração. Ele está tentando reescrever essa narrativa.
Mas espera — ele realmente doou tudo? Quem verificou isso? A APAE tem registros públicos dessas doações?
Ele afirma que doou durante todo o período em que governou. A APAE é uma organização conhecida, mas a reportagem não traz confirmação independente dos valores ou da regularidade das doações.
E a questão constitucional — ela é real? Secretários realmente não podem ganhar mais que o governador?
Sim, está na Constituição estadual de Minas. Então tecnicamente ele tinha um dilema: ou mantinha secretários mal pagos, ou aumentava seu próprio salário para poder aumentar o deles.
Mas havia outras soluções? Poderia ter reestruturado a carreira, criado bônus, oferecido benefícios? Ou era realmente aumentar o salário dele a única opção?
A reportagem não explora alternativas. Zema apresenta sua solução como a única, mas não sabemos se outras opções foram consideradas ou descartadas.
E funcionou? Os secretários vieram? A educação melhorou?
Ótima pergunta. A reportagem não diz nada sobre os resultados. Não sabemos se atraiu profissionais melhores ou se a qualidade do serviço mudou.
É uma lacuna importante. A justificativa dele só faz sentido se o aumento salarial realmente resolveu o problema que ele descreve.
O Pulso
- O aumento de quase 300% no salário do próprio governador ressurge como ponto de ataque durante a campanha presidencial de Zema.
- A limitação constitucional que impede secretários de ganhar mais do que o governador criava um gargalo real na atração de profissionais qualificados para o estado.
- Zema apresenta a doação integral de sua remuneração às APAEs como escudo moral contra a acusação de autoenriquecimento.
- A entrevista à TV Globo marca a tentativa deliberada de transformar uma decisão polêmica em narrativa de coragem e responsabilidade gestora.
- O episódio expõe o desafio de candidatos que precisam defender escolhas administrativas complexas diante de um eleitorado sensível a qualquer sinal de privilégio.
Em meio à corrida presidencial, Romeu Zema foi chamado a explicar uma das decisões mais controversas de sua gestão à frente de Minas Gerais: o aumento de quase 300% em seu próprio salário. A resposta que ofereceu revela a tensão permanente entre a lógica administrativa e a percepção pública do poder — Zema argumenta que o aumento era um instrumento, não um benefício, e que cada centavo recebido foi doado às APAEs do estado. É o momento em que um candidato tenta transformar uma vulnerabilidade política em prova de caráter.
Romeu Zema, ex-governador de Minas Gerais e candidato à Presidência pelo partido Novo, sentou-se diante das câmeras da TV Globo na noite de 24 de agosto para responder a uma pergunta que o acompanha desde o fim de sua gestão: por que ele aumentou o próprio salário em quase 300%?
A explicação que ofereceu tem duas camadas. A primeira é administrativa: a Constituição estadual proíbe que secretários recebam mais do que o governador, e o secretário de Educação de Minas — responsável por 200 mil servidores — ganhava menos do que colegas de municípios muito menores. Para atrair profissionais competentes, era preciso elevar o teto. E para elevar o teto, era preciso aumentar o salário do governador primeiro.
A segunda camada é moral. Zema afirma que doou integralmente cada valor que recebeu como governador — sete anos de remuneração destinados a unidades da APAE espalhadas por Minas Gerais. Segundo ele, nenhum outro gestor havia feito o mesmo.
O momento da explicação não é casual. Em campanha nacional, Zema precisa transformar uma decisão tecnicamente justificável, mas politicamente sensível, em argumento de credibilidade. Ao unir a lógica da gestão pública à narrativa da renúncia pessoal, o candidato aposta que o eleitor verá não um político que se beneficiou do cargo, mas alguém disposto a tomar decisões impopulares — e a abrir mão do que delas resultou.
Romeu Zema, ex-governador de Minas Gerais e candidato à Presidência da República, foi entrevistado pela TV Globo na noite de segunda-feira, 24 de agosto, para explicar uma decisão que marcou sua gestão: o aumento de quase 300% em seu próprio salário durante os sete anos em que comandou o estado, de janeiro de 2019 a março de 2026.
A resposta que ofereceu foi direta. Zema afirmou que doou integralmente cada centavo que recebeu como governador. O dinheiro foi destinado a unidades da APAE — Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais — espalhadas por todo Minas Gerais. Segundo ele, essa foi uma decisão que nenhum outro gestor havia tomado antes.
O contexto que levou ao aumento salarial, conforme explicou, era estrutural. A Secretaria de Educação de Minas Gerais comanda uma máquina com 200 mil funcionários. Porém, o secretário responsável por essa pasta recebia menos do que secretários de educação em cidades muito menores. O resultado era previsível: profissionais qualificados não queriam trabalhar no governo estadual. A falta de atração de bons quadros se tornava um problema de gestão.
A solução encontrada por Zema esbarrava em uma limitação constitucional. A Constituição estadual estabelece que o salário dos secretários não pode ultrapassar o do governador. Portanto, para elevar a remuneração dos secretários e tornar os cargos mais atraentes para profissionais experientes, era necessário primeiro aumentar o próprio salário. Zema justificou a medida como um ato de coragem — ele foi, segundo sua narrativa, o único governador disposto a fazer isso.
A explicação foi oferecida em um contexto de campanha presidencial nacional. Zema, filiado ao partido Novo, busca a Presidência e precisa responder a questões sobre sua gestão anterior. O aumento salarial, embora justificado pela lógica administrativa que apresentou, é uma decisão que pode gerar controvérsia entre eleitores. Ao afirmar que doou toda a quantia, Zema oferece um contrapeso moral à decisão: não se beneficiou pessoalmente, mas usou o mecanismo para resolver um problema de gestão que afetava a qualidade do serviço público estadual.
Citações Notáveis
Eu fui o único que teve coragem. Porque o que acontecia em Minas é que um secretário de Educação, cuja pasta tem 200 mil funcionários, recebia menos do que o secretário de Educação de uma cidade desse tamanhinho.— Romeu Zema, em entrevista à TV Globo