Um erro é pior do que um crime, em política
Entre aliados que partilham uma fronteira e um inimigo comum, a história ressurgiu como ferida aberta: a decisão de Zelensky de batizar uma unidade militar com o nome de um grupo responsável por massacres de polacos durante a Segunda Guerra Mundial desencadeou uma crise diplomática que afastou o presidente ucraniano da conferência de Gdansk e levou Varsóvia a revogar a sua mais alta condecoração. O episódio lembra que as nações, mesmo unidas pelo presente, carregam o peso de passados que não foram inteiramente reconciliados — e que Moscovo observa, com interesse, cada fissura que se abre entre elas.
- O decreto de Zelensky batizando uma unidade especial com o nome do UPA — grupo que matou dezenas de milhares de polacos durante a Segunda Guerra Mundial — acendeu uma crise que nenhum dos dois lados esperava gerir em plena guerra contra a Rússia.
- A reação polaca foi imediata e simbólica: o presidente Nawrocki revogou a Ordem da Águia Branca concedida a Zelensky, e até Lech Walesa, histórico apoiante de Kiev, arrancou publicamente o alfinete com a bandeira ucraniana.
- Zelensky devolveu a condecoração com palavras de agradecimento ao povo polaco, mas o gesto não bastou para dissipar a tensão — e a sua ausência em Gdansk transformou uma conferência de recuperação num palco de fraturas diplomáticas.
- Bruxelas alertou que a escalada serve apenas os interesses de Moscovo, enquanto Tusk advertiu que envolver-se neste conflito político custará caro a ambos os países em negócios, geopolítica e reputação.
- A delegação ucraniana será liderada pela primeira-ministra Svyrydenko, numa presença que sinaliza continuidade de compromisso mas também o peso do impasse entre dois aliados que precisam urgentemente um do outro.
A 23 de junho, a primeira-ministra ucraniana Yuliia Svyrydenko confirmou que substituirá Zelensky na Conferência de Recuperação da Ucrânia em Gdansk — encerrando semanas de incerteza sobre uma ausência que se tornou, ela própria, um símbolo da crise entre Kiev e Varsóvia.
Tudo começou a 26 de maio, quando Zelensky assinou um decreto batizando uma unidade das forças especiais com o nome do Exército Insurgente Ucraniano, o UPA. Para os ucranianos, o grupo representa a luta pela independência; para os polacos, representa o massacre de dezenas de milhares de compatriotas na atual Ucrânia Ocidental durante e após a Segunda Guerra Mundial. A reação foi transversal: o presidente Nawrocki revogou a Ordem da Águia Branca — a mais alta condecoração polaca — que Zelensky recebera três anos antes, e Lech Walesa retirou publicamente o alfinete com a bandeira ucraniana.
Zelensky devolveu a medalha com palavras de gratidão ao povo polaco, mas o gesto não resolveu o diferendo. O ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano Sybiha tentou explicar que o batismo da unidade visava homenagear quem lutou contra Moscovo imperial e a repressão bolchevique — não ofender a Polónia. A explicação não convenceu.
Donald Tusk, primeiro-ministro e rival político de Nawrocki, começou por dizer que compreendia a decisão presidencial, mas no domingo endureceu o tom: envolver-se neste conflito político seria um erro estratégico que custaria caro a ambos os lados. Nawrocki, por sua vez, anunciou que também não compareceria em Gdansk, por falta de convite. Bruxelas observava com preocupação crescente, alertando que a escalada só beneficia a Rússia — minando a coesão ocidental num momento em que a Ucrânia mais precisa dos seus aliados.
A primeira-ministra ucraniana Yuliia Svyrydenko confirmou no dia 23 de junho que será ela, e não o presidente Volodymyr Zelensky, a encabeçar a delegação de Kiev na Conferência de Recuperação da Ucrânia, marcada para quinta e sexta-feira em Gdansk. O anúncio encerra semanas de especulação sobre se Zelensky compareceria, dado o clima de tensão que se instalou entre os dois países vizinhos e aliados na guerra contra a Rússia.
A crise começou a 26 de maio, quando Zelensky assinou um decreto batizando uma unidade das forças especiais ucranianas com o nome do Exército Insurgente Ucraniano, ou UPA. O grupo lutou pela independência ucraniana durante e após a Segunda Guerra Mundial. Mas na Polónia, a UPA é recordada de forma muito diferente: como responsável pela morte de dezenas de milhares de polacos na região que hoje é a Ucrânia Ocidental, então sob ocupação nazi. A reação foi imediata e transversal. Lech Walesa, antigo presidente polaco e apoiante histórico de Kiev, retirou publicamente o seu alfinete com a bandeira ucraniana em protesto.
O presidente polaco Karol Nawrocki respondeu na última sexta-feira com um gesto simbólico de grande peso: revogou a Ordem da Águia Branca, a mais alta condecoração da Polónia, que Zelensky havia recebido três anos antes do então chefe de Estado Andrzej Duda. No dia seguinte, Zelensky devolveu a condecoração, agradecendo ao povo polaco pelo apoio contínuo durante a invasão russa. A troca de gestos deixou claro que o diferendo não seria facilmente resolvido.
O primeiro-ministro polaco Donald Tusk, rival político de Nawrocki, começou por dizer que compreendia a decisão do presidente, embora sugerisse que teria agido de forma diferente. Mas no domingo, o tom mudou drasticamente. Tusk escreveu nas redes sociais que envolver-se em conflitos políticos entre polacos e ucranianos era um erro estratégico que custaria caro a ambos os lados — nos negócios, na geopolítica, na reputação. "Em política, como se sabe, um erro é pior do que um crime", acrescentou.
O ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano Andrii Sybiha tentou acalmar as águas, garantindo ao seu homólogo polaco que os soldados que pediram o batismo da unidade como UPA não tinham qualquer intenção anti-polaca. Segundo Sybiha, o objetivo era homenagear aqueles que, há muitos anos, também lutaram contra Moscovo imperial, a ocupação bolchevique-comunista e a repressão. A explicação, porém, não dissipou a controvérsia.
Na segunda-feira, Nawrocki anunciou que não compareceria na conferência de Gdansk por falta de convite. Bruxelas observava a situação com crescente preocupação. Os funcionários europeus alertaram que esta escalada de tensões só beneficiava a Rússia, minando a coesão entre aliados ocidentais num momento crítico da guerra na Ucrânia. A ausência de Zelensky e a não comparência de Nawrocki transformaram um evento de recuperação num símbolo das fraturas que a história e a política contemporânea continuam a abrir entre dois países que precisam um do outro.
Notable Quotes
Envolver-se no conflito político entre os políticos da Polónia e da Ucrânia é um erro estratégico que custará caro a ambos os lados— Donald Tusk, primeiro-ministro polaco
Os soldados ucranianos que solicitaram o batismo da sua unidade como UPA não tinham absolutamente nenhuma intenção anti-polaca— Andrii Sybiha, ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que é que um nome de unidade militar desencadeou uma crise diplomática tão profunda?
Porque na Polónia, a UPA não é apenas um grupo histórico — é o símbolo de um trauma coletivo. Dezenas de milhares de polacos foram mortos. Quando Zelensky batizou uma unidade com esse nome, foi como se ignorasse completamente essa dor.
Mas Zelensky estava a tentar honrar combatentes pela liberdade ucraniana, certo?
Sim, e é aí que reside a tragédia. Ambos os lados têm razão histórica. A UPA lutou contra ocupantes. Mas também cometeu atrocidades contra civis polacos. Zelensky não viu o problema; a Polónia não conseguiu ver nada mais.
Tusk parece estar a tentar apaziguar a situação. Conseguirá?
Tusk compreende o que está em jogo — a Rússia adora quando os aliados ocidentais se debatem entre si. Mas o seu apelo à razão chega tarde. Nawrocki já retirou a condecoração, Zelensky já a devolveu. Estes gestos têm peso próprio.
E agora? Zelensky não vai a Gdansk, Nawrocki também não. Que significa isto para a guerra?
Significa que a Ucrânia perde apoio político crucial num momento em que precisa de toda a solidariedade europeia. A Polónia é vizinha, é porta de entrada para armas e ajuda. Quando essa relação se deteriora, todos perdem.