Ao fim de quatro dias de reunião fechada em Pequim, o Partido Comunista da China revelou um número que reflete uma antiga inquietação do poder: 33 expulsões, a maior já registrada, sendo 16 delas nas Forças Armadas. Por trás dos termos burocráticos e da fórmula vaga sobre "graves violações", desenha-se uma disputa sobre quem controla o aparato e quem deve permanecer nele. Num sistema em que a lealdade pesa mais que a transparência, cada cadeira vazia no plenário conta uma história sobre medo, ambição e a ideia de que a ordem precisa ser reafirmada antes que a sucessão chegue.
Xi expulsa 33 membros do Partido Comunista da China em recorde de expurgos e deixa plenário com menos participantes
A Comissão Militar Central, que tinha sete integrantes, hoje tem dois
Por que esse plenário chamou tanta atenção, se expurgos já são rotina sob Xi?
Pelo recorde: 33 expulsões de uma vez, 51 no terceiro mandato, e só 279 presentes, a menor presença em 14 anos.
E o peso militar?
Dezesseis dos expulsos são das Forças Armadas, e a Comissão Militar Central passou de sete integrantes para dois: Xi e Zhang Shengmin.
Convém separar o que está confirmado do que é interpretação. As expulsões e os números são do comunicado oficial. Que isso seja consolidação de poder é leitura de analistas.
E as acusações?
Não estão claras. O texto só fala em graves violações disciplinares e legais. Não há provas públicas de corrupção específica.
Por isso os observadores falam em lealdade. Xi tratou os "quadros de duas caras" como parte do problema, em janeiro.
Ainda assim, é hipótese. Que Xi fique além de 2027 também é expectativa de muitos analistas, não fato.
E a preocupação com o exército?
O Asia Society Policy Institute questiona a prontidão para o combate, mas é avaliação externa, sem dados sobre efeitos reais.
Exato: o que vem a seguir ainda é desconhecido.
Der Puls
- Trinta e três expulsões de uma só vez, com 16 nomes ligados às Forças Armadas, causam um choque raro no núcleo do poder chinês.
- A Comissão Militar Central caiu de sete integrantes para apenas dois, expondo uma lacuna sensível no comando das tropas.
- O plenário teve 279 presentes, a menor participação já vista sob Xi, deixando o Comitê Central visivelmente esvaziado.
- Analistas veem a campanha como um movimento para reforçar a autoridade de Xi antes do 21º Congresso, em 2027, quando o próximo líder será escolhido.
Ao fim de quatro dias de reunião fechada em Pequim, o Partido Comunista da China revelou um número que reflete uma antiga inquietação do poder: 33 expulsões, a maior já registrada, sendo 16 delas nas Forças Armadas. Por trás dos termos burocráticos e da fórmula vaga sobre "graves violações", desenha-se uma disputa sobre quem controla o aparato e quem deve permanecer nele. Num sistema em que a lealdade pesa mais que a transparência, cada cadeira vazia no plenário conta uma história sobre medo, ambição e a ideia de que a ordem precisa ser reafirmada antes que a sucessão chegue.
Após quatro dias de reunião a portas fechadas num hotel de Pequim, o Partido Comunista da China divulgou nesta quinta-feira (29/10) um comunicado que concentrou a atenção: 33 integrantes expulsos, um recorde, e 16 deles das Forças Armadas. O quinto plenário do Comitê Central também registrou a menor presença desde o início da liderança de Xi Jinping, com 279 membros, contra 315 no encontro anterior e 364 no de julho de 2024. Pela primeira vez em 14 anos, a participação ficou abaixo de 300.
Dessa vez, o foco não foram reformas econômicas, mas a disciplina partidária. Xi transformou o combate à corrupção em pilar de seu governo desde 2012, e com as novas expulsões o total de seu terceiro mandato chega a 51, o maior da série. Entre os atingidos estão Ma Xingrui, ex-chefe do partido em Xinjiang, e os ex-generais Zhang Youxia e Liu Zhenli. Os comunicados falam em "graves violações disciplinares", linguagem que, lida nos bastidores, costuma significar corrupção.
O ponto mais sensível é o comando militar. A Comissão Militar Central, que controla as Forças Armadas, hoje tem apenas Xi e Zhang Shengmin. Especialistas do Asia Society Policy Institute avaliam que a operação levanta dúvidas sérias sobre a liderança e a prontidão para o combate.
Para Chong Ja Ian, do Carnegie China, a campanha serve sobretudo para consolidar a autoridade de Xi, que afasta até antigos aliados com pouca resistência. Os próximos passos apontam para o 21º Congresso, em 2027, quando se escolherá o próximo líder, e muitos analistas acreditam que Xi buscará um quarto mandato. Ao mesmo tempo, o acúmulo de poder pode criar um vácuo mais grave quando ele envelhecer.
Ao fim de quatro dias de reunião a portas fechadas num hotel de Pequim, o Partido Comunista da China divulgou, nesta quinta-feira (29/10), um comunicado com um número que dominou a leitura do encontro: 33 integrantes expulsos, um recorde. Dezesseis deles são das Forças Armadas. O quinto plenário do Comitê Central também registrou a maior quantidade de cadeiras vazias já vista.
Foram 279 membros presentes, contra 315 no quarto plenário, em outubro de 2025, e 364 no terceiro, em julho de 2024. É a primeira vez, nos 14 anos de liderança de Xi Jinping, que a participação cai abaixo de 300. O atual Comitê Central começou seu mandato, em 2022, com mais de 370 membros. Os plenários recentes vinham tratando de reformas econômicas e de temas sociais e de desenvolvimento; desta vez, a disciplina partidária ocupou o centro.
Xi fez do combate à corrupção um pilar do governo desde que chegou ao poder, em 2012, e a chama de "maior ameaça" ao partido. Com as novas expulsões, o total no terceiro mandato dele chega a 51, o maior da série: foram 35 no primeiro mandato e cinco no segundo. Além disso, o principal órgão anticorrupção do país informou que 680 mil pessoas, em toda a estrutura partidária, sofreram punição disciplinar nos primeiros nove meses do ano.
O comunicado não detalha as acusações contra os expulsos, além de "graves violações disciplinares e legais", fórmula ampla que se tornou comum na campanha. O partido afirmou ter encarado a dura realidade de que a liderança foi, por vezes, enfraquecida ou esvaziada, e prometeu manter rigorosa autodisciplina, "voltando a faca contra si mesmo" para conter a desordem.
Entre os nomes de alto escalão estão Ma Xingrui, ex-chefe do partido em Xinjiang, e os ex-generais Zhang Youxia e Liu Zhenli. Os avisos oficiais disseram que eles violaram gravemente a disciplina e as regras do partido, expressão geralmente lida como eufemismo para corrupção. Também foi expurgado o ex-diplomata Liu Jianchao, que desapareceu da vida pública em julho do ano passado.
O golpe no comando militar é o ponto mais sensível. Zhang Youxia era vice-presidente da Comissão Militar Central, que controla as Forças Armadas. O órgão, que tinha sete integrantes, hoje tem dois: Xi, presidente, e Zhang Shengmin, vice-presidente. Neil Thomas, Lobsang Tsering e Shengyu Wang, do Asia Society Policy Institute, chamaram a operação de algo sem precedentes e disseram que ela levanta sérias dúvidas sobre a liderança organizacional e a prontidão para o combate, mesmo com a China exibindo novos equipamentos militares.
O Politburo, de 24 membros, chegou a ter só 21 após a saída de Ma, de Zhang Youxia e, em 2025, do ex-general He Weidong. Zhang Shengmin foi promovido ao órgão durante o plenário, que passa a ter 22 integrantes.
Para Chong Ja Ian, do Carnegie China, a campanha virou um esforço de consolidar autoridade e seguirá conforme a segurança que Xi sentir no poder, não conforme problemas reais de corrupção. Ele observa que Xi afasta sem escrúpulos até quem promoveu, com pouca oposição. Em janeiro, o líder já alertara contra "quadros de duas caras", que juram lealdade mas desobedecem e agem em benefício próprio.
O pano de fundo é o 21º Congresso do Partido, previsto para 2027, quando se escolhe o próximo líder. Muitos analistas esperam que Xi fique por um quarto mandato ou mais, algo que só Mao Tsé-Tung alcançou. Thomas aponta que os nomes em ascensão tendem a ser jovens, tecnocratas e ligados à rede de Xi, com os quadros provinciais como terreno promissor. Chong alerta que tanta concentração de poder pode gerar um vácuo ainda mais grave quando Xi envelhecer.
Bemerkenswerte Zitate
A campanha continuará e se expandirá dependendo de quão seguro Xi se sentir no poder, e não de problemas reais com a corrupção.— Chong Ja Ian, pesquisador do Carnegie China
A operação no alto escalão militar é algo sem precedentes.— Neil Thomas, Lobsang Tsering e Shengyu Wang, Asia Society Policy Institute