Wagner Moura estrela 'A Última Casa', thriller de suspense da Netflix que estreia sexta-feira, após sua indicação ao Oscar em março por 'O Agente Secreto'. O ator afirma que o Oscar abriu portas para projetos e conversas com diretores que seriam mais difíceis antes, sem alterar seu critério de seleção.
Wagner Moura: Oscar abriu portas e onda latina no cinema é imparável
A tendência é que esse estereótipo se rompa de forma imparável
Quando você diz que o Oscar abriu portas, você está falando de acesso a roteiros melhores ou de algo mais profundo?
É acesso mesmo. Conversas com diretores que antes não aconteceriam, projetos que chegam até você de forma diferente. Mas o critério não muda — eu continuo escolhendo o que faz sentido para mim.
E "A Última Casa" faz sentido por quê?
Porque é um filme que pensa sobre crise climática, sobre como a gente reage quando tudo desaba. Jason é um homem que entra em loucura tentando controlar tudo, e isso diz muito sobre a gente agora.
Você mencionou que é importante fazer filmes para cinema, não só streaming. Por quê?
Porque minha paixão por filmes tem a ver com ir ao cinema. O streaming é real, chega em todo mundo, mas há algo na experiência da sala escura que não se substitui.
Você vê a mudança na representação latina em Hollywood como algo que vai durar?
É imparável. Mesmo com o momento terrível que os Estados Unidos vivem com imigração e racismo, os latinos estão ocupando espaços que não eram para a gente antes. Não é mais só vilão.
Isso te coloca numa posição de responsabilidade?
Totalmente. Sempre vai ter o caminho fácil, mas eu sinto que preciso escolher com cuidado. Sou uma espécie de embaixador, e isso pesa.
O Pulso
- Wagner Moura estrela "A Última Casa", thriller da Netflix que estreia sexta-feira, 7 de agosto
- Ator foi indicado ao Oscar em março por "O Agente Secreto", que recebeu quatro indicações
- Diretor Louis Leterrier dirigiu "Truque de Mestre" e o décimo filme de "Velozes e Furiosos"
- Moura viveu Pablo Escobar em "Narcos" há uma década, seu maior papel fora do Brasil
Wagner Moura estrela 'A Última Casa', thriller de suspense da Netflix que estreia sexta-feira, após sua indicação ao Oscar em março por 'O Agente Secreto'. O ator afirma que o Oscar abriu portas para projetos e conversas com diretores que seriam mais difíceis antes, sem alterar seu critério de seleção.
Após indicação ao Oscar por 'O Agente Secreto', Wagner Moura protagoniza thriller 'A Última Casa' na Netflix e reflete sobre a crescente presença de atores latinos em papéis diversos em Hollywood.
Wagner Moura não deixou a onda do Oscar passar em branco. Três meses depois de concorrer à estatueta de melhor ator em março por "O Agente Secreto", o ator baiano já está de volta às telas americanas. Desta vez, ele protagoniza "A Última Casa", um thriller de suspense que a Netflix lança nesta sexta-feira. O filme o coloca no papel de Jason, um homem que acorda preso em casa junto com a mulher, vivida por Greta Lee, e os dois filhos. Uma chuva estranha e contínua forma uma barreira invisível ao redor da residência — impossível sair, impossível entrar, e até portas e janelas se refazem graças ao líquido misterioso. Enquanto isso, criaturas monstruosas vagam pelo bairro deserto, caçando humanos.
O diretor Louis Leterrier, responsável por "Truque de Mestre" e pelo décimo filme da franquia "Velozes e Furiosos", construiu um filme que Moura descreve como aquele tipo de produção americana que a Globo exibiria na Sessão da Tarde — entretenimento comercial pensado para públicos variados. Mas o ator faz questão de ressalvar sua posição sobre o streaming. "É uma realidade que chega na casa de todo mundo, e é barato de fazer. Mas é importante também fazer filmes para o cinema. Minha paixão por filmes tem a ver com ir ao cinema", diz ele, que já havia trabalhado com a plataforma em "Sergio" e "Agente Oculto". Essa postura reflete seu perfil: após o sucesso de "O Agente Secreto", Moura usou sua visibilidade para fazer campanha pela regulamentação do streaming no Brasil, enquanto continuava dividindo sua carreira entre produções para a tela grande e para plataformas.
O trajeto que o levou até aqui foi estratégico. Depois de dirigir "Marighella", ele ganhou projeção nos Estados Unidos ao dublar o Lobo em "O Gato de Botas 2", animação que conquistou crítica e bilheteria. Dois anos depois, protagonizou "Guerra Civil", o primeiro blockbuster do estúdio A24. Mas foi "O Agente Secreto", de Kleber Mendonça Filho, que mudou o jogo. Levado a Cannes no ano passado, o filme acumulou quatro indicações ao Oscar, incluindo melhor filme. "Hoje, depois de 'O Agente Secreto', tenho acesso a projetos e conversas com diretores que seriam mais difíceis antes. O que não mudou foi meu critério para escolher projetos", afirma Moura.
Em "A Última Casa", o suspense vem carregado de reflexões sobre masculinidade e os rumos da sociedade diante da crise climática. Jason fica obcecado em proteger a família, assumindo uma responsabilidade de provedor que não cabe mais num cotidiano limitado pelo isolamento — uma realidade que faz eco à pandemia de Covid-19. "Ele entra na loucura de resolver tudo, mas deixa de ver o que os outros estão fazendo. E para tomar conta do outro, é preciso se deixar tomar conta também", explica o ator. A tensão entre os membros da família se agrava conforme a comida acaba e é necessário encontrar formas alternativas de se alimentar. Leterrier, que mora num pequeno trailer perto da costa com a mulher surfista, diz que observar o mar ano após ano o fez perceber o aumento do nível das águas. "Estamos nos cegando. Estamos caminhando para algo insano. Basta olhar para os incêndios na Europa ou em Washington agora. O mundo está esquentando, e a culpa é nossa."
O diretor fez questão de usar elementos reais em cena — animais, vegetação, água — para extrair atuações mais orgânicas dos atores. "Wagner tem uma abordagem muito autêntica em relação a tudo. Ele precisa sentir, precisa vivenciar. E isso porque ele é uma pessoa que quer evoluir como ser humano, assim como seu personagem", diz Leterrier. Diferentemente de "Narcos", série de uma década atrás em que Moura interpretou o traficante Pablo Escobar — talvez seu grande personagem fora do Brasil —, em "A Última Casa" ele volta a viver um mocinho, papel historicamente menos oferecido a atores latino-americanos em Hollywood.
Mas essa dinâmica está mudando, segundo Moura. Ele também viveu personagens positivos em "Ladrões de Drogas", do Apple TV, e em "Guerra Civil". "A tendência é que esse estereótipo do latino que é mau se rompa. Por mais que os Estados Unidos vivam um momento terrível com relação à imigração e ao racismo, é evidente que os latinos ocupam espaços na cultura e na sociedade que não são restritos àquilo que o governo Trump diz", afirma. Ele vê isso como um movimento imparável — a presença crescente de latinos em papéis mais diversos no cinema e na televisão. É uma tendência que, de certa forma, espelha outra em curso no Brasil. "Hoje, nas novelas, há muitos atores nordestinos e pretos. Quando eu era jovem e comecei a fazer TV, isso não era muito comum."
Moura se tornou uma espécie de embaixador do Brasil em Hollywood, papel que traz consigo uma responsabilidade que ele reconhece plenamente. "Me sinto responsável pelas escolhas que faço, porque sempre vai ter o caminho fácil", conclui.
Citações Notáveis
Hoje, depois de 'O Agente Secreto', tenho acesso a projetos e conversas com diretores que seriam mais difíceis antes— Wagner Moura
Wagner tem uma abordagem muito autêntica em relação a tudo. Ele precisa sentir, precisa vivenciar— Louis Leterrier, diretor