Vorcaro nega fraude em carteiras do Master, mas depoimento revela contradições sobre operação com BRB

A operação existiu. O BRB deu liquidez de R$ 12 bilhões.
Delegados da PF confrontam a versão de Vorcaro de que a operação não causou dano porque foi revertida.
Mark

Por que as versões de Vorcaro e Costa sobre o conhecimento do BRB importam tanto?

Mimi

Porque definem se houve enganação deliberada ou apenas negligência. Se o BRB sabia que as carteiras eram de terceiros, a responsabilidade é compartilhada. Se não sabia, o Master cometeu fraude pura.

Luke

Mas o depoimento de Costa é apenas a palavra dele contra a de Vorcaro. Não há e-mails, mensagens, atas de reunião que comprovem o que cada um sabia?

Mimi

Não está claro no depoimento. É por isso que a acareação foi importante — para confrontar as versões.

Mark

E quanto ao argumento de Vorcaro de que não houve crime porque o BRB não teve prejuízo?

Mimi

É onde ele mais se contradiz. O BC está exigindo provisionamentos de quase R$ 5 bilhões. Vorcaro diz que os ativos geraram resultados para o BRB, mas os números do BC dizem outra coisa.

Luke

Esses R$ 5 bilhões são prejuízos confirmados ou estimativas de risco? Porque se forem estimativas, Vorcaro pode argumentar que ainda não há prejuízo realizado.

Mimi

O BC já determinou R$ 2,6 bilhões em provisionamento. Mais R$ 2,2 bilhões ainda são necessários. Isso é o BC reconhecendo que há perdas.

Mark

Vorcaro culpa o BC por mudar as regras do FGC. Isso tem fundamento?

Mimi

Ele tem razão que o BC mudou as regras duas vezes. Mas isso não explica por que ele vendeu carteiras sem documentação completa.

Luke

Ele diz que descobriu a falta de documentos depois. Como a PF sabe que ele está mentindo?

Mimi

Os delegados apontaram que a operação existiu, que o dinheiro foi transferido, que os ativos foram trocados. Não é possível descobrir tudo isso depois.

Mark

E as contas no exterior? Isso muda algo?

Luke

Mostra que ele tinha estruturas para movimentar dinheiro fora do Brasil. Mas não prova que movimentou dinheiro ilícito. Vorcaro diz que tudo está declarado e que pagou impostos altos.

Mimi

O que importa agora é se a investigação consegue provar que ele sabia que as carteiras eram falsas quando as vendeu.

  • Daniel Vorcaro, banqueiro do Banco Master, prestou depoimento à PF em dezembro de 2025
  • R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito foram vendidas pelo Master ao BRB
  • Banco Master foi liquidado pelo BC em 18 de novembro de 2025
  • BC exige provisionamento de R$ 2,6 bilhões ao BRB, com mais R$ 2,2 bilhões necessários
  • Vorcaro e ex-presidente do BRB apresentaram versões divergentes sobre conhecimento da origem das carteiras

Vorcaro afirmou que BRB sabia que carteiras eram de terceiros, mas ex-presidente do BRB negou isso, criando contradição central sobre conhecimento da operação. Banqueiro admitiu crise de liquidez do Master, negócio baseado em FGC e que compra-venda de ativos representava 70-80% da captação nos últimos trimestres.

Daniel Vorcaro, do Banco Master, apresentou depoimento à PF com versões divergentes sobre venda de R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito falsas ao BRB, negando fraude apesar de admitir falta de documentação.

No final de janeiro, o ministro Dias Toffoli do Supremo Tribunal Federal abriu os depoimentos que Daniel Vorcaro, banqueiro do Banco Master, havia prestado à Polícia Federal em dezembro. O que emergiu foi um relato repleto de contradições sobre como R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito — consideradas falsas pelo Banco Central — chegaram às mãos do Banco de Brasília, e depois desapareceram.

Vorcaro negou fraude. Mas os detalhes de seu depoimento contam uma história mais complicada. Segundo as investigações, o Master havia comprado carteiras de crédito de uma empresa chamada Tirreno, criada em dezembro de 2024. Em janeiro de 2025, apenas um mês depois de sua fundação, a Tirreno já estava revendendo carteiras ao Master — R$ 6,7 bilhões no total — sem ter realizado qualquer movimentação financeira comprovada. O Master, por sua vez, revendeu essas mesmas carteiras ao BRB sem ter sequer desembolsado o dinheiro para a Tirreno. Tudo isso aconteceu enquanto o BRB tentava comprar o Master inteiro, um negócio que nunca se concretizou.

No cerne da investigação está uma questão simples: o BRB sabia que estava comprando carteiras originadas por terceiros, ou acreditava que eram ativos do próprio Master? Vorcaro disse em seu depoimento que havia anunciado ao BRB que começaria a vender carteiras de originadores terceiros, um novo formato de comercialização. Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB, negou isso na acareação — ele afirmou que acreditava estar comprando carteiras que o Master havia originado e depois negociado com terceiros, que o Master estava recomprando e revendendo. Essa divergência é fundamental. Se o BRB não sabia, a operação é mais grave. Se sabia, a responsabilidade se distribui de forma diferente.

Vorcaro também admitiu ter revendido as carteiras sem documentação completa. Ele argumentou que o Master não tinha ciência dessa falta de documentos quando fez o negócio, e que só descobriu depois. Quando a ausência de papéis foi constatada, ele disse, o banco desfez a operação. Mas os delegados da Polícia Federal não aceitaram essa versão. Eles apontaram que as carteiras foram de fato vendidas, que o BRB forneceu liquidez de R$ 12 bilhões ao Master em algum momento, e que o Master depois trocou os bens que havia vendido por outros ativos — títulos, participativos — com liquidez muito menor. A operação existiu. O dano também.

Vorcaro argumentou que não houve crime porque ninguém saiu prejudicado. O BRB não teve prejuízo, nenhum cliente teve prejuízo, o Master não teve vantagem. Mas o diretor de fiscalização do Banco Central, Ailton Aquino, testemunhou que o BRB precisaria fazer uma reserva de quase R$ 5 bilhões para cobrir as perdas com o Master. O BC já determinou um provisionamento de R$ 2,6 bilhões, com mais R$ 2,2 bilhões ainda necessários. Vorcaro respondeu que, em sua opinião, esses ativos geraram resultados para o próprio BRB ao longo do ano. Mas os números do BC sugerem o contrário.

O banqueiro também falou sobre a crise de liquidez que assolava o Master. Ele reconheceu que o negócio do banco era baseado no Fundo Garantidor de Créditos, um seguro que protege investimentos em caso de falência bancária. Quando o BC mudou as regras do FGC duas vezes, pressionado pelos grandes bancos, a captação do Master desabou. Nos últimos trimestres antes da liquidação, a compra e revenda de ativos havia se tornado a principal fonte de captação — entre 70% e 80% do negócio. As plataformas de investimento haviam fechado as portas. O Master precisava de dinheiro, e rápido.

Vorcaro foi preso em 17 de novembro de 2025 e agora está em liberdade sob monitoramento eletrônico. O Master foi liquidado pelo Banco Central no mesmo mês. Em seu depoimento, Vorcaro criticou duramente a atuação do BC, dizendo que a instituição sabia de tudo — da aquisição da Tirreno, da venda para o BRB, das trocas de ativos — mas não o notificou de irregularidades entre março e novembro. Ele sugeriu que havia facções dentro do BC, umas querendo uma solução de mercado para o Master, outras querendo sua liquidação. A liquidação venceu, e segundo Vorcaro, isso prejudicou todo o sistema financeiro.

Quanto aos ativos no exterior, Vorcaro inicialmente desconversou, mas depois admitiu possuir a holding do banco nas Ilhas Cayman e algumas contas correntes fora do país. Negou ter uma mansão em Miami, dizendo que apenas aluga um imóvel lá. Sobre suas reuniões com o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, Vorcaro confirmou que se encontraram algumas poucas vezes, inclusive em suas casas, mas disse que todas as conversas foram institucionais. Quando questionado se amigos políticos o ajudaram a viabilizar a operação, respondeu com ironia: se tivesse tantas relações políticas e tivesse pedido ajuda, não estaria preso, não estaria com tornozeleira, e sua família não estaria sofrendo. A investigação continua, e as contradições entre as versões de Vorcaro e Costa permanecem no centro do caso.

A gente anunciou que faria a venda de originadores terceiros. A gente chegou a conversar que a gente começaria um novo formato de comercialização, que seria originada de terceiros, não mais originação própria.
— Daniel Vorcaro, em depoimento à PF
No meu entendimento, eram carteiras originadas pelo Master, que haviam sido vendidas ou negociadas com terceiros e que o Master estava recomprando e revendendo para a gente.
— Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB, na acareação
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