Vorcaro discutiu troca de letras do Rioprevidência semanas antes da liquidação do Master

Perdas potenciais de até R$ 3,7 bilhões afetam fundo de previdência de 230 mil servidores estaduais do Rio de Janeiro.
Montaremos um fundo, colocaremos os ativos e cedemos as cotas
Rennó descreveu a Vorcaro, em 28 de outubro, a estrutura proposta para reorganizar os papéis do Rioprevidência.
Mark

Por que essas mensagens importam agora, meses depois da liquidação?

Mimi

Porque mostram que havia uma tentativa deliberada de reorganizar os ativos do Rioprevidência semanas antes do colapso. Não era negligência — era uma operação em andamento.

Luke

Mas as mensagens não dizem se a operação foi concluída. "Montaremos um fundo" pode significar que planejavam, não que fizeram.

Mark

E quem era esse Augusto que sugeriu a troca?

Mimi

As mensagens não identificam. Pode ter sido alguém dentro do próprio Rioprevidência, ou um intermediário. A Polícia Federal está investigando.

Luke

Exatamente — é uma lacuna importante. Sem saber quem propôs, fica difícil entender se era uma solução legítima ou uma manobra para esconder exposição.

Mark

O tribunal já havia proibido novos investimentos. Isso não tornaria a troca ilegal?

Mimi

Tecnicamente, a proibição era para novos investimentos. Uma troca poderia ser interpretada como uma reestruturação, não um novo investimento. Mas o tribunal já estava questionando a exposição total.

Luke

Mas a intenção parece clara nas mensagens — "diminuir descobertos". Eles estavam tentando contornar a restrição.

Mark

Quanto dinheiro dos servidores estava em risco?

Mimi

Entre R$ 2,6 bilhões e R$ 3,7 bilhões, dependendo de como se conta. Afeta 230 mil servidores estaduais.

Luke

Essa discrepância é preocupante. Ninguém sabe exatamente quanto foi perdido. Isso sugere controles muito fracos ou falta de transparência deliberada.

  • Mensagens de outubro de 2025, 21 dias antes da liquidação do Master
  • Rioprevidência: 230 mil servidores estaduais, exposição de R$ 2,6 a R$ 3,7 bilhões
  • Tribunal de Contas proibiu novos investimentos em 8 de outubro de 2025
  • Letras financeiras sem cobertura do FGC, vencimento em 2033-2034

Ex-banqueiro e diretor jurídico negociaram troca de papéis da fundação de servidores por direitos do Estado do Rio em outubro de 2025. Rioprevidência tinha exposição de até R$ 3,7 bilhões em fundos e letras financeiras do Master, conforme relatório da Polícia Federal.

Mensagens de Vorcaro revelam discussões sobre substituição de letras financeiras do Rioprevidência por direitos creditários do Rio, semanas antes da liquidação do Banco Master em novembro de 2025.

Mensagens recuperadas do celular de Daniel Vorcaro pela Polícia Federal revelam que, nas semanas anteriores ao colapso do Banco Master, o ex-banqueiro e Luiz Rennó, então diretor jurídico da instituição, negociavam formas de substituir as letras financeiras que o Rioprevidência mantinha em sua carteira. O fundo de previdência, que abriga 230 mil servidores estaduais do Rio de Janeiro, havia se tornado uma das maiores exposições do banco — e um problema crescente para seus gestores.

Em 2 de outubro de 2025, Rennó enviou uma mensagem a Vorcaro mencionando que alguém chamado Augusto havia sugerido trocar as letras financeiras do Rioprevidência por direitos creditórios do Estado do Rio. "Achei uma boa", escreveu Rennó, acrescentando que a operação "diminuiria descobertos". Vorcaro concordou imediatamente e ordenou: "Faz amanhã". Rennó respondeu que já estava tratando do assunto. As mensagens não revelam quem era Augusto, quais direitos creditórios seriam utilizados, seus valores ou se a troca chegou a ser concretizada.

O contexto dessa conversa é crucial. Dias antes, em 8 de outubro, o Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro havia determinado que o Rioprevidência se abstivesse de realizar novos investimentos em instrumentos emitidos, administrados ou geridos pelo conglomerado do Master. O tribunal havia questionado a exposição do fundo à instituição financeira, apontando que chegava a R$ 2,6 bilhões. O próprio Rioprevidência contestou esse cálculo na época, afirmando que apenas cerca de R$ 960 milhões estavam em aplicações diretas em letras financeiras do banco. Relatórios posteriores da Polícia Federal, porém, indicariam perdas potenciais de até R$ 3,7 bilhões em fundos e letras financeiras.

A discussão sobre alternativas para os papéis reaparece nas mensagens no final de outubro. Em 28 de outubro — apenas 21 dias antes de o Banco Central decretar a liquidação do Master, em 18 de novembro — Rennó informou a Vorcaro: "Rioprev — eles estão definindo a quantidade — montaremos um fundo, colocaremos os ativos e cedemos as cotas". Seis segundos depois, acrescentou que fariam "o mesmo em Maceió". O Iprev Maceió também havia investido em letras financeiras do Master, cerca de R$ 97 milhões conforme dados do Ministério da Previdência. Novamente, as mensagens não esclarecem quem eram "eles", os detalhes operacionais da estrutura proposta ou se chegou a ser implementada.

Essas conversas não ocorriam em vácuo. Meses antes, em 13 de dezembro de 2024, quando havia possibilidade de publicação de uma reportagem sobre o assunto, Vorcaro havia demonstrado preocupação com a repercussão. "Não podemos deixar sair essa notícia agora", escreveu, mencionando que o banco teria uma "captação grande pra semana". Já em outubro de 2025, a preocupação registrada nas mensagens era diretamente com a substituição das letras financeiras — uma tentativa de contornar as restrições impostas pelo tribunal.

Os títulos comprados pelo Rioprevidência haviam sido emitidos entre outubro de 2023 e agosto de 2024, com vencimentos previstos para 2033 e 2034. Nenhum deles contava com a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos, deixando o fundo de previdência completamente exposto ao risco de inadimplência. Após o escândalo, toda a estrutura do Rioprevidência foi revista. Segundo o governo estadual, o objetivo foi aumentar os controles internos. O valor exato das perdas permanece em disputa — o tribunal fala em R$ 2,6 bilhões, enquanto a Polícia Federal aponta R$ 3,7 bilhões. O Rioprevidência, procurado para comentar, ainda não respondeu.

Não podemos deixar sair essa notícia agora
— Daniel Vorcaro, em dezembro de 2024, quando havia risco de publicação sobre a exposição
Diminuímos descobertos
— Luiz Rennó, descrevendo o efeito esperado da troca de letras financeiras
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