Vinte anos após a colisão que destruiu o voo 1907 da Gol e ceifou 154 vidas sobre a Serra do Cachimbo, os que ficaram continuam a carregar o peso de uma ausência que nenhum calendário apaga. O luto, como tantas vezes acontece nas grandes tragédias coletivas, não obedece a prazos — ele ressurge a cada data, a cada novo acidente noticiado, a cada cadeira que permanece vazia à mesa. Na memória dessas famílias, preservar o nome dos que partiram tornou-se um ato de resistência e de amor.
Voo 1907 da Gol: duas décadas de dor entre parentes das 154 vítimas
A cadeira dele vai estar sempre vazia
Por que uma história sobre esse acidente agora, vinte anos depois? O que mudou?
Nada mudou para as famílias. O que mudou foi o calendário. Chegou o vigésimo aniversário, e as pessoas que perderam alguém precisam falar de novo, porque a dor não envelhece.
Mas quantas das 154 famílias ainda estão ativas nessa associação? O texto diz que está "dispersa" agora.
Não sabemos o número exato. O que sabemos é que pelo menos Neusa, Mariana e Salma continuam carregando isso. E planejam um encontro.
O que é mais difícil — o luto inicial ou viver com isso por vinte anos?
Acho que é diferente. No início, há choque. Depois, há a rotina da ausência. Neusa diz que a cadeira dele vai estar sempre vazia.
Uma pergunta importante: por que os pilotos do jato executivo nunca cumpriram pena no Brasil? O texto menciona que foram condenados, mas não explica.
Boa observação. O texto não detalha isso. Sabemos que moram nos Estados Unidos agora, mas o porquê da falta de cumprimento de pena fica em aberto.
Como um acidente aéreo recente, como o do Rick, afeta essas famílias?
Reacende tudo. Neusa estava acompanhando aquela notícia quando falou com a reportagem. Cada novo acidente é como reviver o seu.
E a associação de vítimas — ela ainda funciona como deveria? Ou é mais um grupo de pessoas que se encontram ocasionalmente?
Parece ser mais isso. Reuniam-se na casa de Neusa no início. Agora estão dispersas, mas planejam encontros pontuais, como o do Jardim Botânico.
El Pulso
- Duas décadas não foram suficientes para cicatrizar a ferida: familiares das 154 vítimas ainda revivem o trauma a cada aniversário do acidente e a cada nova tragédia aérea noticiada.
- Neusa Felipetto Machado, viúva de Valdomiro, reconheceu o marido no IML pelos pés — detalhe de uma intimidade de 34 anos de casamento transformado em memória de despedida.
- A impunidade agrava a dor: os dois pilotos do jato executivo foram condenados, mas nunca cumpriram pena no Brasil e vivem atualmente nos Estados Unidos.
- Familiares como Salma Assad se veem obrigados a recontar repetidamente a história do voo 1907 para pessoas que desconhecem a tragédia, mantendo sozinhos o peso da memória coletiva.
- Como forma de resistência ao esquecimento, parentes planejam se reunir no Jardim Botânico de Brasília, onde uma placa homenageia as vítimas, para manter vivo o que o tempo tenta apagar.
Vinte anos após a colisão que destruiu o voo 1907 da Gol e ceifou 154 vidas sobre a Serra do Cachimbo, os que ficaram continuam a carregar o peso de uma ausência que nenhum calendário apaga. O luto, como tantas vezes acontece nas grandes tragédias coletivas, não obedece a prazos — ele ressurge a cada data, a cada novo acidente noticiado, a cada cadeira que permanece vazia à mesa. Na memória dessas famílias, preservar o nome dos que partiram tornou-se um ato de resistência e de amor.
Neusa Felipetto Machado tinha 34 anos de casamento quando recebeu, em 11 de outubro de 2006, o telefonema que mudaria sua vida. Não era a notícia que esperava — era um chamado ao Instituto Médico Legal de Brasília. Lá, reconheceu o corpo do marido Valdomiro pelos pés, numa intimidade dolorosa que só o amor longo é capaz de guardar.
Valdomiro estava a bordo do voo 1907 da Gol, um Boeing 737 que saía de Manaus rumo ao Rio de Janeiro. Em 29 de setembro de 2006, a cerca de 37 mil pés de altitude sobre a Serra do Cachimbo, no norte de Mato Grosso, a aeronave colidiu com um jato executivo Embraer Legacy 600. O Boeing perdeu parte da asa esquerda, ficou incontrolável e se desintegrou na queda sobre mata fechada. Nenhuma das 154 pessoas a bordo sobreviveu. O jato executivo conseguiu pousar. Os dois pilotos foram condenados, mas nunca cumpriram pena no Brasil — hoje vivem nos Estados Unidos.
Um ano após o acidente, Neusa retornou à fazenda próxima ao local da queda, levando uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, santa de devoção do marido. Ajudou a fundar uma associação de parentes das vítimas que, no início, se reunia em sua própria casa. Hoje o grupo está mais disperso, mas a dor ressurge sempre — especialmente quando novos acidentes aéreos chegam ao noticiário.
Outros familiares carregam o mesmo peso em silêncio. Salma Assad, 70 anos, perdeu o sobrinho Átila, estudante de medicina de 24 anos. Foi ela quem foi ao aeroporto buscar informações naquela noite, enquanto a família ainda esperava por um voo atrasado. Não teve coragem de ver o corpo no IML, mas soube que o encontraram praticamente intacto, preso à poltrona 5A pelo cinto de segurança.
Átila teria completado 44 anos em setembro deste ano. Salma se surpreende quando encontra pessoas que nunca ouviram falar do voo 1907 — e precisa contar tudo de novo, como quem recusa o esquecimento. Ela e outros parentes planejam se encontrar no Jardim Botânico de Brasília, onde uma placa homenageia as vítimas, para manter viva, coletivamente, a memória dos que partiram.
Neusa Felipetto Machado tinha 34 anos de casamento quando tudo parou. No dia 11 de outubro de 2006, três dias depois de um acidente aéreo que ainda não tinha rosto para ela, recebeu um telefonema que mudaria o resto de sua vida. Não era a notícia que esperava ouvir — aquela em que o marido apareceria em algum lugar, contando histórias, vivo. Era um chamado para o Instituto Médico Legal de Brasília. Lá, reconheceu o corpo de Valdomiro Henrique Machado pelos pés. "A gente tinha uma brincadeira e eu dizia que seus pés eram tortos", conta a psicóloga de 76 anos, a voz embargada ao relembrar.
Valdomiro estava a bordo do voo 1907 da Gol, um Boeing 737 que saía de Manaus rumo ao Rio de Janeiro, com parada em Brasília. No dia 29 de setembro de 2006, às 16h56, a cerca de 37 mil pés de altitude na região da Serra do Cachimbo, no norte de Mato Grosso, o avião colidiu com um jato executivo Embraer Legacy 600 de matrícula norte-americana que voava de São José dos Campos para Fort Lauderdale. O Boeing perdeu aproximadamente um terço da asa esquerda, ficou incontrolável e se desintegrou durante a queda sobre mata fechada. Nenhuma das 154 pessoas a bordo da aeronave comercial sobreviveu. O jato executivo, com sete pessoas a bordo, sofreu danos mas permaneceu controlável e conseguiu pousar na base aérea do Cachimbo, no sul do Pará. Os dois pilotos foram condenados, mas nunca cumpriram pena no Brasil e atualmente residem nos Estados Unidos.
Vinte anos se passaram, e para Neusa, a cadeira vazia do marido permanece. Um ano após o acidente, ela retornou à fazenda Jarinã, a 40 quilômetros do local onde o avião caiu, onde a Força Aérea Brasileira havia montado um centro de operações para recuperar os corpos. Levou consigo uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, de quem o marido era devoto. Coincidentemente, reconheceu Valdomiro no dia de homenagem à santa. O dono da fazenda construiu uma capela, e realizaram uma procissão. Neusa ajudou a fundar uma associação de parentes das vítimas que, no início, se reunia em sua casa. Hoje, o grupo está mais disperso, mas as memórias permanecem vivas — especialmente quando novos acidentes aéreos ocorrem. Poucos dias antes de conversar com a reportagem, Neusa havia acompanhado a notícia sobre um helicóptero que caiu em Santa Catarina, matando o cantor Rick e outras quatro pessoas. Os eventos reacendem a dor.
Para outros familiares, falar sobre o acidente permanece extremamente difícil mesmo após duas décadas. Mariana Assad, 76 anos, perdeu seu filho Átila Antônio Assad Rezende, estudante de medicina de 24 anos. Sua irmã Salma, 70, estava ensaiando em um coral de igreja quando recebeu um telefonema do cunhado informando que o voo que traria o sobrinho de Manaus estava atrasado. Átila faria uma conexão em Brasília antes de seguir para o interior de Goiás, onde os pais moravam. Coube a Salma ir ao aeroporto buscar informações e enfrentar os momentos turbulentos que se seguiram. Ela não teve coragem de ver o corpo do sobrinho no IML, mas soube através de fotos que o encontraram praticamente intacto, preso à poltrona 5A pelo cinto de segurança.
O universitário teria completado 44 anos no dia 18 de setembro deste ano. Para Salma, as datas se misturam, e a proximidade do aniversário do acidente torna tudo mais estranho. Ela se surpreende quando encontra pessoas que não conhecem a história do voo 1907, precisando contar repetidamente o que aconteceu com seu sobrinho nos vários grupos dos quais participa. Salma tem conversado com outras mães e parentes de passageiros daquele avião. Planejam se encontrar no Jardim Botânico de Brasília, onde existe uma placa em homenagem às vítimas do voo 1907, para manter viva a memória coletiva de quem se foi.
Citas Notables
A gente tinha uma brincadeira e eu dizia que seus pés eram tortos— Neusa Felipetto Machado, viúva de Valdomiro Henrique Machado
A vida segue, mas a cadeira dele vai estar sempre vazia— Neusa Felipetto Machado