Vitória de Lula é afirmação contra tentações autocráticas, diz Celso de Mello

Uma afirmação cívica contra as tentações autocráticas
Celso de Mello descreveu assim o significado da reeleição de Lula, ao pedir também vigilância democrática.
Mark

Qual é o retrato geral das reações a esta eleição?

Mimi

Entidades jurídicas, sindicais, estudantis e empresariais celebraram o resultado como fortalecimento da democracia. Celso de Mello falou em afirmação cívica contra tentações autocráticas, mas pediu vigilância.

Mark

E a diferença nos votos foi grande?

Mimi

Foi apertada: 51,78% a 48,22% com 99,99% das urnas apuradas. Em 2022 tinha sido 50,9% a 49,1%.

Luke

Vale lembrar que as frases sobre democracia fortalecida vêm de entidades alinhadas ou favoráveis ao resultado. São avaliações, não fatos apurados.

Mark

E a prorrogação da votação?

Mimi

Zanin estendeu o horário até as 19h em todo o país, atendendo pedido da campanha de Lula por falta de ônibus. A campanha de Flávio pediu algo parecido, só para três estados, por causa do clima.

Luke

Josias Teófilo diz que isso tirou a legitimidade da eleição, mas é a opinião dele. A OAB-SP relatou nenhuma anormalidade expressiva em São Paulo; sobre o resto do país, o texto não traz levantamento.

Mark

O que vem pela frente?

Mimi

Rosenfield aponta crise fiscal iminente e Senado oposicionista. Lynch fala em redesenhar a República.

Luke

Essas são projeções de dois analistas. Quanto o Senado vai resistir ou como ficará a economia ainda é incerto.

  • Lula venceu por 51,78% a 48,22%, uma virada que se deu depois de ele ter ficado atrás de Flávio no primeiro turno.
  • A prorrogação da votação por duas horas, decidida pelo STF a pedido da campanha petista, acendeu a principal disputa sobre legitimidade.
  • Josias Teófilo chamou a vitória de tragédia, prevê ruptura institucional e torce por impeachment, enquanto a OAB e o Pacto pela Democracia defendem o resultado.
  • Analistas veem alívio, mas alertam para uma crise fiscal iminente e para um Senado de oposição que vai testar o novo governo a partir de 2027.

Na noite de domingo, com quase todas as urnas apuradas, Lula foi reeleito com 51,78% dos votos válidos contra Flávio Bolsonaro, numa virada que o fez atravessar boa parte da apuração em desvantagem. O resultado abriu um coro de manifestações que vai da celebração da democracia à desconfiança sobre a legitimidade do pleito, depois que a votação foi estendida por duas horas em todo o país. Em um país que já conheceu tentações autoritárias, a eleição parece menos um desfecho do que um lembrete: a vitória das urnas exige, daqui por diante, vigilância e a capacidade de governar com um Congresso que não será aliado.

Com 99,99% das urnas apuradas, Lula (PT) somou 51,78% dos votos válidos e venceu Flávio Bolsonaro, que tinha 48,22%. Em 2022, o petista havia derrotado o pai de Flávio por margem parecida. Desta vez, a virada foi mais dramática: Lula ficou atrás no primeiro turno e esteve em desvantagem durante boa parte da apuração do segundo.

As reações chegaram em ondas. O ex-presidente do STF Celso de Mello disse que a reeleição tinha o sentido de uma afirmação cívica contra tentações autocráticas, mas lembrou que a vigilância democrática não termina com a vitória. A OAB, por meio de Beto Simonetti, pediu respeito à vontade popular, e a seção paulista manteve vigília cívica na sede. CUT, UNE e o Pacto pela Democracia, que reúne mais de 200 organizações, também defenderam o resultado e a solidez do voto eletrônico.

O ponto mais sensível foi a prorrogação da votação por duas horas, decidida pelo ministro Cristiano Zanin a pedido da campanha de Lula, que alegou falta de ônibus para eleitores em várias cidades. Josias Teófilo afirmou que essa decisão tirou a legitimidade da eleição e prevê ruptura institucional. Já Janaina Paschoal desejou bom governo ao vencedor e defendeu que a direita forme quadros moderados se quiser voltar competitiva em 2030.

Os analistas falam em alívio e cautela. Para Christian Lynch, a democracia segurou um bastião contra a ultradireita, mas será preciso redesenhar a República. Denis Rosenfield lembrou que o novo governo enfrentará crise fiscal iminente e um Senado oposicionista. O próximo capítulo começa a ser escrito a partir de 2027.

Com 99,99% das urnas apuradas na noite deste domingo (25), o presidente Lula (PT) tinha 51,78% dos votos válidos no segundo turno, contra 48,22% do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Em 2022, Lula havia derrotado o pai do adversário por 50,9% a 49,1%. A virada foi notável: Lula terminou o primeiro turno atrás de Flávio e ficou em desvantagem numérica durante boa parte da apuração do segundo.

O resultado foi seguido por uma onda de manifestações de entidades da sociedade civil, juristas e figuras públicas. O ministro aposentado e ex-presidente do STF Celso de Mello chamou a reeleição de histórica e disse que há vitórias cujo significado ultrapassa a conquista de um mandato. Para ele, o resultado das urnas tem o sentido de uma afirmação cívica contra as tentações autocráticas. Mello ressalvou que a derrota das chamadas aspirações autoritárias não dispensa a vigilância democrática, que, na sua visão, depende da integridade das instituições, da independência da imprensa, da educação para a cidadania e da recusa à mentira e à violência.

No campo jurídico, o presidente nacional da OAB, Beto Simonetti, defendeu o respeito à vontade popular e disse que a democracia se faz com respeito às suas próprias regras. Ele espera que o país entre em um período de pacificação social. Leonardo Sica, presidente da seção paulista, afirmou que a OAB-SP manteve vigília cívica na sede, como no primeiro turno, e não registrou anormalidade expressiva em São Paulo, mesmo após a prorrogação do horário. O IAB parabenizou Lula e o vice, Geraldo Alckmin, e lembrou ter criado o Observatório da Democracia.

A prorrogação foi o ponto mais sensível do dia. O ministro Cristiano Zanin, do STF, estendeu a votação em todo o país por duas horas, até as 19h, atendendo a pedido da campanha de Lula, que alegou falta de ônibus à disposição dos eleitores em várias cidades. A campanha de Flávio Bolsonaro também pedira ao TSE a ampliação do horário, mas só para cidades de São Paulo, Paraná e Santa Catarina, citando chuvas intensas, deslizamentos, alagamentos e bloqueios de vias.

Outras entidades também se manifestaram. A UNE disse que as urnas confirmaram a força do povo mobilizado. A CUT falou em afirmação de que o Brasil acredita poder seguir mudando, e destacou a mobilização de milhões de pessoas nas ruas. O Pacto pela Democracia, que reúne mais de 200 organizações, ressaltou a solidez do sistema eletrônico de votação, que há 30 anos assegura eleições auditáveis, e as decisões unânimes dos tribunais superiores. A Febraban saudou o processo e colocou a capacidade técnica do setor bancário à disposição do presidente eleito. O bispo Abner Ferreira, da Assembleia de Deus Madureira, parabenizou Lula e pediu respeito à vontade soberana do povo.

Entre analistas, o tom foi de alívio e cautela. Christian Lynch, da Uerj, disse que a democracia manteve um bastião contra a ultradireita e que a Nova República ganhou sobrevida, mas que será preciso resistir ao imperialismo e redesenhar a República. Denis Rosenfield, filósofo aposentado da UFRGS, advertiu que o desafio será governar com crise fiscal iminente e um Senado oposicionista.

A direita reagiu com espanto e desânimo. Cláudio Lottemberg, indicado por Flávio para o Ministério da Saúde num eventual governo, disse à Folha que o resultado foi inesperado, já que Flávio vinha com desempenho positivo, mas que cabe respeitá-lo. O cineasta e jornalista Josias Teófilo chamou a vitória de tragédia e afirmou que a prorrogação tirou inteiramente a legitimidade da eleição; prevê ruptura institucional e torce por impeachment, com Alckmin como presidente de transição. A vereadora paulistana Janaina Paschoal (PP), uma das autoras do pedido de impeachment de Dilma Rousseff, desejou bom governo ao vencedor e disse que a direita precisa formar quadros moderados e respeitosos se quiser ter chance em 2030.

O próximo capítulo está na combinação apontada pelos analistas: a economia e um Senado de oposição a partir do ano que vem.

O resultado das urnas assume o sentido de uma afirmação cívica contra as tentações autocráticas.
— Celso de Mello, ministro aposentado e ex-presidente do STF
O problema será administrar o Brasil com crise fiscal iminente e Senado oposicionista.
— Denis Rosenfield, filósofo e professor aposentado da UFRGS
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