Vítima de importunação sexual na Uninove relata trauma e falta de apoio imediato

Estudante sofre trauma psicológico, medo de retornar à universidade e considera abandonar curso a um ano de se formar; relatos indicam múltiplas vítimas de violência no campus.
Se eu gritasse, ninguém ia me ouvir
A estudante descreve o terror de estar sozinha em um banheiro isolado, sem possibilidade de pedir ajuda.

Em um campus universitário de São Paulo, o que deveria ser um intervalo ordinário entre aulas tornou-se um episódio de violência que expõe não apenas a vulnerabilidade dos espaços físicos, mas a fragilidade das redes institucionais de cuidado. Uma estudante de Psicologia da Uninove, surpreendida por um homem em um banheiro feminino no dia 30 de abril, encontrou no silêncio e na demora da universidade um segundo trauma — o do abandono. O caso, longe de ser singular, integra uma sequência de denúncias que revela como a segurança e o acolhimento ainda são promessas incompletas dentro de espaços que deveriam ser de formação e proteção.

  • Uma estudante a um ano de se formar considera abandonar o curso após ser vítima de importunação sexual em banheiro do campus e não receber apoio imediato da instituição.
  • A universidade ofereceu acompanhamento psicológico apenas uma semana depois do ocorrido — quando, segundo a vítima, o momento de maior necessidade já havia passado sem resposta.
  • Relatos de outras estudantes indicam que o mesmo suspeito já havia sido denunciado anteriormente, levantando a questão de por que ele ainda circulava livremente pelo campus.
  • Um abaixo-assinado com 2.805 assinaturas e uma manifestação organizada pelo DCE Livre Uninove e pela UEE-SP pressionam a reitoria por expulsão do suspeito e reformulação urgente da segurança.
  • Segundo os organizadores da petição, 875 pessoas afirmaram já ter sido vítimas ou testemunhas de violência dentro ou no entorno da universidade — sinalizando um padrão, não um acidente.

No dia 30 de abril, uma estudante de Psicologia da Uninove entrou em um banheiro feminino no terceiro andar do campus Memorial, na Barra Funda, em São Paulo. Havia escolhido aquele espaço por ser mais limpo e menos movimentado. Ao sair de uma cabine, deparou-se com um homem que, em vez de se retirar, exibiu seus órgãos genitais com uma calma que ela descreveu como perturbadora — como se fosse algo rotineiro. O isolamento do corredor amplificou o terror: ela temia que ninguém a ouvisse se gritasse.

Ela correu em busca de ajuda, foi levada à coordenação do curso, mas não recebeu suporte psicológico nem informações sobre as medidas que seriam tomadas. Ao sair da universidade, reconheceu o mesmo homem entrando novamente pelo campus e entrou em desespero. Foi ela quem precisou pedir para que a polícia fosse chamada. Um segurança chegou a dizer que acionar as autoridades era responsabilidade dela. O suspeito foi conduzido à delegacia, mas ninguém comunicou à vítima o que havia acontecido com ele durante a noite.

Somente uma semana depois a universidade enviou um e-mail oferecendo acompanhamento psicológico. Para a estudante, o apoio chegou tarde demais. Desde o episódio, ela não conseguiu retornar às aulas e passou a considerar abandonar o curso — mesmo estando no quarto ano, a um ano de se formar.

O caso não é isolado. Em março, um estudante de outro campus da Uninove havia sido expulso após acusações de filmar e exibir-se diante de colegas; em abril, uma aluna foi assaltada dentro da área das catracas. A sequência motivou um abaixo-assinado com 2.805 assinaturas, no qual 875 pessoas afirmaram já ter sido vítimas ou testemunhas de violência no campus ou em seu entorno.

Nesta sexta-feira, estudantes se manifestaram na reitoria cobrando a expulsão definitiva do suspeito, reforço no policiamento e reformulação da segurança privada. A estudante decidiu tornar o caso público ao saber que outras mulheres já haviam denunciado o mesmo homem anteriormente. 'Se as mulheres se calam, eles continuam fazendo', disse ela — resumindo, em uma frase, o peso que ainda carrega e a razão pela qual escolheu não silenciar.

Uma ida rápida ao banheiro entre aulas se transformou em um episódio que uma estudante de Psicologia da Universidade Nove de Julho ainda não consegue superar. No dia 30 de abril, no campus Memorial da instituição, na Barra Funda em São Paulo, ela entrou em um banheiro feminino no terceiro andar e se viu diante de um homem exibindo seus órgãos genitais. Uma semana depois, ela ainda não havia retornado às aulas, paralisada pelo medo e pela falta de respostas da universidade sobre o que havia acontecido com o suspeito.

O episódio ocorreu em um banheiro isolado, longe do fluxo principal de estudantes. Ela havia escolhido aquele espaço justamente porque era mais limpo e menos movimentado. Ao sair de uma cabine e se dirigir à pia, viu um homem sair do box ao lado. Por um momento, pensou que ele havia entrado no banheiro errado e se desculparia. Em vez disso, ele se virou e exibiu o órgão genital. Ela descreve o momento como um choque que a deixou incapaz de reagir. O que mais a assustou foi a calma dele, como se aquilo fosse algo rotineiro. Ele observava sua reação pelo espelho antes de sair andando normalmente.

O isolamento do local amplificou o terror. Ela percebeu que estava completamente sozinha em um corredor pouco movimentado e pensou que se gritasse, ninguém a ouviria. O medo de que ele pudesse estar esperando do lado de fora a deixou desesperada. Saiu correndo e procurou ajuda de uma professora, que a levou até a coordenação do curso de Psicologia. Mas o acolhimento que esperava não veio. Perguntaram o que havia acontecido, mas não ofereceram suporte psicológico real, não perguntaram se ela precisava de ajuda ou de sair da universidade. Simplesmente foram embora e ela voltou para a sala de aula ainda abalada.

Quando saiu da universidade, o medo retornou com força. Na catraca de saída, ela viu o mesmo homem entrando novamente na faculdade. Entrou em desespero e começou a gritar. Vídeos que circulam em grupos de WhatsApp mostram o momento em que funcionários de segurança e infraestrutura o cercam. Mas foi ela quem precisou pedir para chamar a polícia. Um segurança perguntou se ela queria fazer a denúncia, e quando ela respondeu que sim, ele disse que isso era responsabilidade dela. Ela foi levada ao ambulatório e depois à 91ª Delegacia de Polícia, onde registrou boletim de ocorrência. O suspeito foi conduzido à delegacia, passou pelo IML e permaneceu detido durante a noite, mas ninguém informou à vítima sobre o que estava acontecendo. Ela ficou esperando sem saber se ele ainda estava lá ou se havia sido liberado.

Somente uma semana depois, nesta quinta-feira, a universidade enviou um e-mail oferecendo acompanhamento psicológico e suporte acadêmico. Para ela, o momento crucial já havia passado. O apoio precisava ter vindo no dia do episódio, quando estava em choque e tentando entender o que havia acontecido. Desde então, não conseguiu voltar à rotina. A faculdade, onde ela passava de segunda a sexta, quatro horas por dia, agora era um lugar que a assustava. Tinha medo de usar o banheiro, medo de encontrar aquela pessoa. No quarto ano de Psicologia, a um ano de se formar, ela pensou em sair. Trocar de faculdade agora significaria perder semestre e sair no prejuízo, mas ela também não sabia como continuar se nada mudasse.

O caso não era isolado. Em março, um estudante de outro campus da Uninove havia sido expulso após ser acusado de filmar alunas dormindo em uma sala de descanso e exibir o próprio pênis diante delas. As imagens eram compartilhadas e até vendidas em grupos no Telegram. Em abril, uma estudante foi assaltada dentro da área das catracas enquanto usava o celular para acessar o código de entrada. A sequência de ocorrências motivou um abaixo-assinado com 2.805 assinaturas cobrando medidas urgentes de segurança. Entre as exigências estavam a expulsão definitiva do suspeito, reforço no policiamento entre o campus e a estação Barra Funda, mais controle de acesso e reformulação da segurança privada. Segundo os organizadores, 875 pessoas afirmaram no formulário já terem sido vítimas ou testemunhas de violência dentro ou no entorno da universidade.

Nesta sexta-feira, estudantes participaram de uma manifestação organizada pelo DCE Livre Uninove e pela UEE-SP no campus Vergueiro, onde fica a reitoria, cobrando respostas formais da instituição e medidas concretas de proteção. A estudante decidiu tornar o caso público, não apenas por ela, mas pelas outras mulheres que já haviam passado por situações semelhantes. Após a repercussão, surgiram relatos de outras estudantes que afirmavam já ter denunciado o mesmo homem anteriormente. Isso aumentou sua revolta. Se já existia denúncia antes, por que ele continuava ali dentro? Ela resume o sentimento que ainda carrega: teve medo, continua tendo, mas não queria que fosse tratado por baixo dos panos. Porque se as mulheres se calam, eles continuam fazendo.

Eu continuo com muito medo. Ele viu meu rosto. Eu não sei se ele ainda está lá dentro, não sei se foi expulso, não sei que medidas foram tomadas.
— Estudante vítima de importunação sexual
Se já existia denúncia antes, por que ele continuava ali dentro? Eles vão esperar acontecer algo ainda pior para tomar uma atitude?
— Estudante vítima de importunação sexual
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

O que a deixou mais assustada naquele momento — o ato em si ou a sensação de estar completamente sozinha?

Model

Os dois, mas de formas diferentes. O ato foi um choque que a deixou congelada. Mas foi a solidão que transformou choque em pânico. Ela pensou: se eu gritar, ninguém me ouve. Ele pode estar me esperando lá fora. Naquele corredor isolado, ela estava completamente vulnerável.

Inventor

E quando viu o homem entrando novamente na faculdade — naquele momento, o que ela sentiu?

Model

Desespero. Porque significava que ninguém havia feito nada. Ele estava ali, livre, entrando normalmente. Como se aquilo não tivesse importância. Para ela, que era a vítima, ninguém explicava nada.

Inventor

A universidade ofereceu apoio uma semana depois. Por que isso foi tão inadequado?

Model

Porque o trauma não espera. Uma semana depois, ela já estava em crise, já havia deixado de ir às aulas, já estava pensando em sair da faculdade. O apoio precisava ter vindo naquele dia, naquele momento de choque. Depois é tarde demais.

Inventor

Ela considerou abandonar o curso. O que a mantém lá?

Model

A proximidade da formatura. Ela está no quarto ano. Sair agora significaria perder semestre, sair no prejuízo. Mas também há algo mais: ela não quer que o medo a force a desistir. Não quer que ele vença.

Inventor

Por que ela decidiu tornar o caso público?

Model

Porque descobriu que outras mulheres já haviam denunciado o mesmo homem antes. Se ela se calasse, ele continuaria fazendo. Ela fala por todas as mulheres que já passaram por isso e pelas que ainda podem passar.

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