Vírus do Nilo Ocidental pode estar a passar despercebido em Portugal, alerta CPSA

Cerca de 20% das pessoas infetadas desenvolvem doença febril e cerca de 5% complicações neurológicas graves, como meningites, encefalites ou paralisia flácida aguda; Itália reportou 51 mortes em setembro.
Portugal não consta entre os países com casos humanos, mas pode não estar a ver
O CPSA alerta que a ausência de casos humanos notificados pode refletir subdiagnóstico e não ausência do vírus.
Mark

Portugal não tem casos humanos no relatório do ECDC. Porque é que o CPSA fala então de um problema?

Mimi

Porque o que falta pode ser deteção, não doença. Há mosquitos Culex por todo o país, quatro focos em cavalos este ano e casos em Espanha, junto à fronteira.

Luke

Convém dizer que é uma probabilidade apontada pelo CPSA, não um caso confirmado. Nenhum caso humano em Portugal foi apresentado no comunicado.

Mark

E porque seria difícil detetá-los?

Mimi

A maioria das pessoas não tem sintomas, e quem tem febre, dores e cansaço pode ser confundido com outra infeção viral. Só cerca de 5% têm complicações neurológicas.

Luke

Esses valores são percentagens gerais citadas pelo CPSA, não números de Portugal.

Mark

O que pedem concretamente?

Mimi

Formação para os profissionais de saúde, diagnóstico laboratorial em todo o país, confirmação por RNA na urina, vigilância dos mosquitos e informação à população.

Luke

Os dados europeus mostram aumento, quase o dobro de 2025, mas não dizem quanto disso é maior circulação e quanto é melhor notificação. Isso fica por esclarecer.

Mark

E a população, o que pode fazer?

Mimi

Proteger-se das picadas ao entardecer e à noite e eliminar águas paradas.

  • Portugal não aparece no relatório europeu de casos humanos, mas já registou quatro focos em equídeos este ano.
  • Mosquitos do género Culex, capazes de transmitir o vírus, estão amplamente distribuídos pelo território nacional.
  • A Europa soma 2.009 casos humanos locais até 29 de outubro, quase o dobro de 2025, com Itália e Grécia à cabeça.
  • Sem sintomas na maioria dos casos, e confundível com outras viroses, o vírus pode estar a circular sem ser detetado.
  • O CPSA pede formação de profissionais de saúde e diagnóstico por RNA na urina, que permite detetar a infeção duas a três semanas após o contágio.
  • Enquanto a vigilância não se reforça, a proteção contra picadas e a eliminação de água parada continuam a ser a principal barreira.

Num continente onde o vírus do Nilo Ocidental se espalha ao ritmo das migrações das aves e das picadas dos mosquitos, Portugal surge ausente das listas oficiais de casos humanos, e essa ausência pode ser mais um sinal de silêncio do que de segurança. O Conselho Português para a Saúde e Ambiente lembra que muitas infeções passam sem sintomas ou se disfarçam de febres comuns, e que um sistema só vê aquilo que procura. Entre os mosquitos já espalhados pelo país e os animais infetados já detetados, a questão deixa de ser se o vírus chegou, e passa a ser quanto tempo ainda vai ficar por reconhecer.

Portugal não consta da lista de países com casos humanos de vírus do Nilo Ocidental no último relatório do Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças. O Conselho Português para a Saúde e Ambiente avisa, porém, que a ausência nos números não garante a ausência do vírus. Para a organização, há uma elevada probabilidade de infeções estarem a passar despercebidas, porque há mosquitos transmissores em circulação, animais infetados no território e um sul da Europa com muitos casos, sobretudo em Espanha.

Os números europeus desenham o contexto. Até 29 de outubro, foram notificados 2.009 casos humanos adquiridos localmente em 20 países, quase o dobro de 2025. Itália, Grécia, França e Espanha concentram a maior parte, e em Espanha os casos aparecem junto à fronteira com Portugal, na Estremadura e na Andaluzia. Em Itália, já em setembro, tinham sido contados 51 mortes.

O vírus circula sobretudo entre aves migratórias e chega às pessoas pela picada de mosquitos do género Culex, que representaram mais de 45% dos mosquitos adultos capturados em 2025 pelo INSA. A maioria das pessoas não adoece, mas cerca de uma em cada cinco desenvolve febre, dores e cansaço, um quadro que se confunde facilmente com outras infeções. Uma pequena parte, cerca de 5%, sofre complicações neurológicas graves, como meningite, encefalite ou paralisia flácida aguda, com maior risco nos mais velhos e imunodeprimidos.

Por isso, o CPSA pede que os profissionais de saúde considerem esta infeção perante febres sem causa clara e quadros neurológicos, e que haja acesso a diagnóstico laboratorial por RNA em todo o país, sobretudo na urina. Pede também reforço da vigilância dos mosquitos e informação às populações sobre proteção contra picadas ao entardecer e à noite, e sobre a eliminação de água parada. Até lá, o silêncio das estatísticas continua a ser a principal incógnita.

Portugal não aparece na lista de países com casos humanos de vírus do Nilo Ocidental no último relatório do Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC). O Conselho Português para a Saúde e Ambiente (CPSA) avisa, porém, que isso pode não querer dizer que não haja infeções. Num comunicado divulgado esta segunda-feira, a organização defendeu que existe uma "elevada probabilidade" de casos humanos estarem a passar despercebidos no país.

O alerta apoia-se em três factos: há mosquitos portadores do vírus em circulação documentada, há animais infetados em território português e o número de casos no sul da Europa é elevado, sobretudo em Espanha. Portugal registou este ano quatro focos em equídeos, mas nenhum caso humano consta do relatório do ECDC.

Os números europeus dão o enquadramento. Desde o início da época de transmissão de 2026 até 29 de outubro, foram notificados 2.009 casos humanos de infeção adquirida localmente, em 20 países europeus, quase o dobro do registado em 2025. A Itália reportou 780 casos, a Grécia 463, a França 180 e Espanha 149. Em Espanha, os casos concentram-se principalmente na Estremadura e na Andaluzia, junto à fronteira com Portugal.

Em setembro, dados divulgados indicavam que a Itália tinha 657 casos confirmados e 51 mortes, valores acima dos do mesmo período do ano anterior. Em julho, Espanha decretou estado de alerta nos municípios de La Puebla del Río e Coria del Río, na Andaluzia, depois de terem sido detetados mosquitos portadores do vírus.

Segundo o CPSA, o principal reservatório do vírus são as aves migratórias, e as pessoas são infetadas pela picada de mosquitos, sobretudo do género Culex. As espécies transmissoras estão, nas palavras da organização, "amplamente distribuídas em Portugal". Representaram mais de 45% dos 9.502 mosquitos adultos capturados em 2025 pelas equipas do Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge (INSA), de acordo com o relatório da Rede Nacional de Vigilância de Vetores (REVIVE).

A maioria das pessoas infetadas não tem sintomas. Cerca de 20% desenvolvem doença febril, com dores de cabeça e musculares, cansaço, náuseas ou vómitos, quadro que se pode confundir com o de outras infeções virais. Cerca de 5% têm complicações neurológicas que podem ser graves, como meningite, encefalite ou paralisia flácida aguda. O risco de formas graves é maior nos mais velhos e nos imunodeprimidos.

Por isso, o CPSA recomenda reforçar a formação e a sensibilização dos profissionais de saúde, para que considerem esta infeção perante síndromes febris sem causa esclarecida e quadros de meningite, encefalite ou paralisia flácida aguda, consoante a exposição e o contexto epidemiológico. Pede também acesso atempado a diagnóstico laboratorial em todo o país, com confirmação por técnicas de RNA, em particular na urina, onde o vírus é detetável duas a três semanas após o início da infeção.

A lista inclui ainda reforço da vigilância e do controlo dos mosquitos e informação à população sobre proteção contra picadas, sobretudo ao entardecer e à noite, e sobre a eliminação de águas paradas que favorecem a reprodução dos insetos. O CPSA foi criado em 2022 e reúne mais de 115 associados, entre associações de saúde, ordens profissionais, sociedades científicas, instituições académicas, laboratórios, municípios e associações de doentes.

Há elevada probabilidade de infeções humanas pelo vírus do Nilo Ocidental estarem a passar despercebidas em Portugal.
— Conselho Português para a Saúde e Ambiente (CPSA)
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