Um vírus que percorreu décadas e continentes — do Uganda aos Estados Unidos, do Mediterrâneo ao Atlântico — chegou silenciosamente a Portugal. O vírus do Nilo Ocidental, transmitido por mosquitos comuns e amplificado pelas alterações climáticas, já foi identificado no país, depois de matar dezenas de pessoas em Itália e na Grécia este ano. Não há epidemia iminente, mas a presença do vírus recorda que as fronteiras ecológicas se movem mais depressa do que as nossas certezas.
Vírus do Nilo Ocidental já está em Portugal; médicos alertam para vigilância
Prevenir a transmissão, detetar precocemente, reconhecer os casos graves
Porque é que este vírus está a aparecer agora em Portugal, se já existe há décadas noutras partes do mundo?
As alterações climáticas prolongam a época de atividade dos mosquitos. Verões mais longos, invernos mais suaves — isto cria as condições certas para o ciclo do vírus se manter durante mais tempo e em regiões onde antes não conseguia circular.
Mas o Culex já existia em Portugal, certo? Então o que mudou exatamente?
Exatamente. O mosquito já estava cá. O que mudou foi o clima e as condições ambientais que permitem ao vírus completar o seu ciclo — mosquito, ave, mosquito — durante mais tempo.
E qual é o risco real para Portugal neste momento?
Segundo o especialista, não estamos perante uma epidemia iminente. Mas existe risco real que justifica vigilância, especialmente nos meses mais quentes. Até setembro, não havia casos humanos adquiridos localmente.
Portanto, temos um caso em 2015 e focos em cavalos em 2025, mas nenhum caso humano este ano. Como é que isso se traduz em risco?
O vírus está presente no território — em cavalos, potencialmente em mosquitos. A vigilância agora é para detetar se começa a haver transmissão humana antes de se tornar um problema maior.
Se alguém for picado, qual é a probabilidade de ficar gravemente doente?
Oito em cada dez infetados não têm qualquer sintoma. Dois em cada dez têm febre. Menos de um em cada cem desenvolve doença neurológica grave.
E entre os que desenvolvem doença grave, qual é a taxa de mortalidade?
Isso não está especificado. Sabemos que 78 por cento dos casos europeus foram hospitalizados e 60 por cento tinham sintomas neurológicos, mas a taxa de morte entre os graves não é dada.
O que pode uma pessoa fazer para se proteger?
Evitar picadas — repelente, roupa comprida, redes nas janelas. E eliminar água parada em casa, que é onde os mosquitos se reproduzem.
Mas se não há vacina e não há tratamento específico, a prevenção é realmente a única arma?
Sim. Por isso o especialista diz que a resposta passa pela vigilância — detetar cedo, reconhecer os casos graves rapidamente, controlar os mosquitos.
The Pulse
- Com 54 mortes em Itália e 36 na Grécia em 2024, o vírus do Nilo Ocidental deixou de ser uma estatística distante para se tornar uma realidade europeia com peso humano concreto.
- Portugal já tem sinais de circulação ativa: um caso humano no Algarve em 2015 e focos em cavalos em Lisboa, Vale do Tejo e Alentejo em 2025 confirmam que o vírus encontrou condições para se instalar.
- As alterações climáticas funcionam como acelerador invisível — verões mais longos e invernos mais amenos prolongam a atividade dos mosquitos Culex e permitem que o ciclo de transmissão se mantenha em regiões antes consideradas seguras.
- Menos de um por cento dos infetados desenvolve doença neurológica grave, mas quando isso acontece — meningite, encefalite, paralisia — o desfecho pode ser fatal, especialmente em idosos e imunodeprimidos.
- Sem vacina aprovada para humanos e sem tratamento específico, a única linha de defesa é a prevenção: eliminar água parada, usar repelente e manter vigilância epidemiológica contínua sobre humanos, mosquitos, aves e cavalos.
Um vírus que percorreu décadas e continentes — do Uganda aos Estados Unidos, do Mediterrâneo ao Atlântico — chegou silenciosamente a Portugal. O vírus do Nilo Ocidental, transmitido por mosquitos comuns e amplificado pelas alterações climáticas, já foi identificado no país, depois de matar dezenas de pessoas em Itália e na Grécia este ano. Não há epidemia iminente, mas a presença do vírus recorda que as fronteiras ecológicas se movem mais depressa do que as nossas certezas.
O vírus do Nilo Ocidental já não é uma ameaça de outro continente. Este ano matou 54 pessoas em Itália e 36 na Grécia, com mais de 1.400 casos confirmados em toda a Europa. João Ribeiro, infecciologista da NOVA Medical School, confirma que o vírus foi identificado em Portugal — um país que já registou um caso humano no Algarve em 2015 e focos recentes em cavalos em Lisboa, Vale do Tejo e Alentejo.
O vírus pertence à mesma família da dengue e da febre amarela, transmitido sobretudo por mosquitos do género Culex. Documentado pela primeira vez em 1937 no Uganda, expandiu-se progressivamente até chegar aos Estados Unidos em 1999 e tornar-se endémico em várias regiões do sul, centro e leste da Europa. As alterações climáticas são o principal motor desta expansão: temperaturas mais altas e estações mais longas prolongam a atividade dos mosquitos e favorecem a multiplicação do vírus, enquanto padrões de chuva alterados e movimentos de aves migratórias sustentam o ciclo de transmissão em novas regiões.
A maioria das pessoas infetadas — cerca de 80 por cento — nunca desenvolve sintomas. Dos restantes, a maior parte sofre uma doença febril passageira. Menos de um por cento enfrenta complicações neurológicas graves: meningite, encefalite ou paralisia flácida aguda. Os casos mais severos exigem internamento e cuidados intensivos, e alguns doentes ficam com sequelas duradouras. Até início de setembro, 78 por cento dos casos europeus resultaram em hospitalização.
Não existe vacina aprovada para humanos nem tratamento específico. A resposta passa pela prevenção — repelente, roupa protetora, redes nas janelas e eliminação de qualquer acumulação de água parada — e por uma vigilância epidemiológica que abranja humanos, mosquitos, aves e cavalos. Para Ribeiro, o caminho não é o medo, mas a atenção: detetar cedo, reconhecer os sinais graves e agir antes que o vírus encontre terreno fértil.
O vírus do Nilo Ocidental deixou de ser uma ameaça distante. Este ano, matou 54 pessoas em Itália e 36 na Grécia. Mais de 1.400 casos foram confirmados em toda a Europa. E agora está em Portugal.
João Ribeiro, infecciologista da NOVA Medical School, confirma que o vírus já foi identificado no país. A doença pertence à mesma família da dengue e da febre amarela, transmitida principalmente pela picada de mosquitos do género Culex. Começou a ser documentada em 1937, no Uganda, permanecendo associada a África, Médio Oriente e partes da Ásia durante décadas. Depois expandiu-se. Chegou aos Estados Unidos em 1999 e tornou-se endemo-epidémica em várias zonas da Europa, especialmente no sul, centro e leste. Itália, Grécia, Roménia, Hungria e Espanha estão entre os mais afetados.
A expansão segue um padrão claro: as alterações climáticas. Temperaturas mais elevadas, verões prolongados e invernos mais amenos estendem a atividade dos mosquitos e favorecem a multiplicação do vírus dentro deles. Mas não é apenas o inseto que viaja. O Culex já existe em grande parte da Europa. O que muda são as condições ambientais — padrões de chuva alterados, águas paradas, zonas húmidas, movimentos de aves migratórias — que permitem ao ciclo mosquito-ave-mosquito manter-se durante mais tempo e em novas regiões.
Portugal não fica de fora. Um caso humano foi adquirido localmente no Algarve em 2015. Em 2025, foram registados focos em cavalos em Lisboa, Vale do Tejo e no Alentejo. Ainda assim, Ribeiro não fala de epidemia iminente. Existe um risco real que justifica vigilância, sobretudo durante os meses mais quentes. Até 17 de setembro, Portugal não tinha registado casos humanos adquiridos localmente nesta época de transmissão.
Muitas pessoas infetadas nunca sabem que contraíram o vírus. Cerca de 80 por cento dos infetados não apresentam qualquer sintoma. Entre os restantes, 20 por cento desenvolvem uma doença febril. Menos de um por cento sofrem doença neurológica grave. Quando surgem sintomas — febre, dor de cabeça, dores musculares e articulares, cansaço, náuseas, vómitos, diarreia ou erupção cutânea — aparecem habitualmente entre dois e 14 dias após a picada.
Mas há sinais que exigem atenção urgente. Alterações do estado de consciência, desorientação, rigidez da nuca, tremores, convulsões, fraqueza muscular ou paralisia indicam envolvimento do sistema nervoso central. O vírus pode provocar meningite, encefalite ou uma síndrome semelhante a poliomielite, com paralisia flácida aguda. Os casos mais graves exigem internamento e cuidados intensivos, alguns necessitando de suporte ventilatório. Alguns doentes ficam com sequelas neurológicas ou fadiga prolongada. A morte é possível, com maior risco entre idosos, imunodeprimidos ou com doenças crónicas. Até 3 de setembro, 78 por cento dos casos europeus resultaram em hospitalização e 60 por cento apresentavam sintomas neurológicos.
Não existe vacina aprovada para humanos. A defesa passa por evitar a picada e impedir a reprodução dos mosquitos. Repelente, roupa que cubra braços e pernas, redes nas janelas. E eliminar água parada — um prato de um vaso, um balde, um recipiente abandonado ou água acumulada num jardim são suficientes para permitir a reprodução. Se novos casos surgirem em Portugal, a resposta terá de envolver vigilância dos casos humanos, dos mosquitos, das aves e dos cavalos. Podem ser intensificadas medidas de controlo, reforçados larvicidas ou adulticidas, aumentada a informação à população. Não existe tratamento específico que elimine o vírus. Por isso, para Ribeiro, a resposta passa menos pelo medo e mais pela vigilância: prevenir a transmissão, detetar precocemente a circulação e reconhecer rapidamente os casos graves.
Notable Quotes
Não diria que estamos perante uma epidemia iminente em Portugal. Diria que existe um risco real que justifica vigilância, sobretudo durante os meses mais quentes.— João Ribeiro, infecciologista da NOVA Medical School
Não existe uma vacina aprovada para utilização em seres humanos, por isso a nossa principal arma é evitar a picada do mosquito e controlar a sua reprodução.— João Ribeiro