O Boeing 737 colidiu com jato executivo em 2006 na Serra do Cachimbo; nenhum dos 154 passageiros sobreviveu, enquanto os dois pilotos do Legacy escaparam e moram nos EUA. Ministério Público Federal pleiteia reajuste do seguro de R$ 14,2 mil para aproximadamente R$ 140 mil por vítima, corrigido pela inflação desde 1995, em ação que tramita há 18 anos.
Vinte anos após tragédia da Gol, Justiça ainda discute seguro e famílias aguardam indenização
A nossa vida mudou de cabeça para baixo
Por que esse processo levou tanto tempo? Estamos falando de 18 anos tramitando.
Porque envolve duas companhias aéreas, uma seguradora, a Agência Nacional de Aviação Civil, e uma questão jurídica complexa sobre reajuste de valores congelados há décadas. Mas honestamente, a complexidade não explica tudo.
Qual é exatamente o valor em disputa agora? A ministra disse que seria quase dez vezes o original, mas depois mencionou R$ 300 mil por família. Essas são estimativas ou números confirmados?
A ministra confirmou que o direito ao reajuste existe. Os R$ 300 mil são uma estimativa do que cada família poderá receber em valores atuais, mas os valores finais serão apurados na fase de liquidação de sentença.
E se o caso for para o Supremo?
Aí a espera pode ser ainda maior. A advogada que acompanha as famílias diz que no melhor cenário, se terminar no STJ, leva mais dois anos.
Mas ninguém sabe se vai terminar lá. Há possibilidade de recurso no próprio STJ antes de chegar ao Supremo?
Sim. A decisão foi monocrática, então há espaço para recursos.
As companhias aéreas e a seguradora estão contestando?
Elas não comentam o processo em andamento. A Anac diz que está avaliando as possibilidades jurídicas para apresentar recurso se for o caso.
Então na prática, ninguém confirmou que vai aceitar a decisão da ministra.
Exatamente. É por isso que Eulália e as outras famílias ainda estão esperando.
The Pulse
- Boeing 737 da Gol colidiu com jato Embraer Legacy em 29 de setembro de 2006; 154 pessoas morreram
- Seguro obrigatório congelado em R$ 14.223,64 desde 1995; deveria ter sido corrigido para aproximadamente R$ 41 mil
- Ação civil pública tramita há 18 anos; ministra confirmou direito ao reajuste em setembro de 2026
- Estimativa de R$ 300 mil por família em valores atuais; valores finais serão apurados em liquidação de sentença
- Processo pode ainda chegar ao STF; melhor cenário prevê mais dois anos se terminar no STJ
O Boeing 737 colidiu com jato executivo em 2006 na Serra do Cachimbo; nenhum dos 154 passageiros sobreviveu, enquanto os dois pilotos do Legacy escaparam e moram nos EUA. Ministério Público Federal pleiteia reajuste do seguro de R$ 14,2 mil para aproximadamente R$ 140 mil por vítima, corrigido pela inflação desde 1995, em ação que tramita há 18 anos.
Duas décadas após o acidente do voo Gol 1907 que matou 154 pessoas, famílias aguardam decisão judicial sobre reajuste do seguro obrigatório congelado desde 1995, com possibilidade de receber cerca de R$ 300 mil cada.
Eulália Machado de Carvalho tem 72 anos e carrega uma perda que não consegue deixar para trás. No dia 29 de setembro de 2006, seu marido Luiz Antônio Pereira de Carvalho, então com 55 anos, estava a bordo do voo 1907 da Gol, um Boeing 737 que saía de Manaus rumo ao Rio de Janeiro com escala em Brasília. Naquela tarde, a 37 mil pés de altitude, na região da Serra do Cachimbo no norte de Mato Grosso, o avião colidiu com um jato executivo Embraer Legacy 600 de matrícula norte-americana. Nenhuma das 154 pessoas no Boeing sobreviveu. Duas décadas depois, Eulália ainda não consegue encerrar seu luto porque uma ação na Justiça mantém a ferida aberta.
O Legacy, que voava de São José dos Campos para Fort Lauderdale, perdeu parte da ponta da asa no impacto mas permaneceu controlável e conseguiu pousar na base aérea do Cachimbo, no sul do Pará. Seus dois pilotos foram condenados, mas nunca cumpriram pena e vivem nos Estados Unidos. O Boeing da Gol, por sua vez, perdeu aproximadamente um terço da asa esquerda, ficou incontrolável e se desintegrou durante a queda em uma área de mata fechada. O acidente e o voo TAM 3054, que ocorreu um ano depois em Congonhas e matou 199 pessoas, marcam as duas maiores tragédias da aviação brasileira.
Desde 2008, o Ministério Público Federal mantém uma ação civil pública no Superior Tribunal de Justiça buscando o reajuste do Reta, o seguro obrigatório pago às famílias das vítimas. Na época do acidente, cada família recebeu R$ 14.223,64 — um valor que havia sido congelado desde 1995 por ato infralegal. A lei da aviação exigia que o seguro fosse corrigido pela inflação a partir de 3.500 OTNs, o que significaria aproximadamente R$ 41 mil naquele momento. O Ministério Público argumenta que as famílias foram prejudicadas por essa falta de reajuste durante mais de uma década.
No dia 14 de setembro deste ano, a ministra Isabel Gallotti, relatora do caso, confirmou em decisão monocrática o direito dos beneficiários ao reajuste do seguro. Segundo seus cálculos, se a indenização tivesse sido corrigida pelos índices da Justiça Federal desde então, seria quase dez vezes superior aos R$ 14,2 mil pagos originalmente. Estima-se que cada família poderá receber cerca de R$ 300 mil em valores atuais. A decisão estabeleceu que os valores finais de cada apólice serão apurados na fase de liquidação de sentença. Importante notar que esse dinheiro é adicional aos acordos que as famílias já fizeram na época do acidente.
A SulAmérica Seguros, que foi condenada a pagar a indenização, teve sua responsabilidade limitada ao teto do contrato de seguro. As companhias aéreas Gol e Latam ficaram responsáveis por quitar o que ultrapassasse esse limite. A Agência Nacional de Aviação Civil também é ré na ação. Mas a decisão da ministra está longe de ser o fim da história. Como se trata de uma decisão monocrática, há possibilidade de recursos no próprio STJ, e o caso pode ainda chegar ao Supremo Tribunal Federal. A advogada Bárbara Tuira de Sousa Soares, que acompanha algumas famílias de vítimas, afirma que numa visão otimista, se o processo finalizar no STJ, levará mais dois anos.
O processo já tramita há 18 anos. Tamanha morosidade exigiu até a digitalização de mais de 4 mil páginas que estavam em papel. O caso chegou ao STJ em 2022 como recurso especial e permaneceu sem movimentação até a decisão recente. Quando questionada sobre a demora, a advogada respondeu: "É um processo complexo, mas não justifica a demora". O tribunal, por sua vez, argumenta que a análise dos processos depende de uma série de fatores que consideram a complexidade dos casos, e que a lei não estipula um prazo para julgamento.
Eulália faz parte de um grupo de WhatsApp onde a advogada informa as movimentações do processo. Aposentada e ex-superintendente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente, ela resume o impacto dessa espera prolongada: "A nossa vida mudou de cabeça para baixo". A decisão da ministra Gallotti representa um avanço, mas enquanto recursos forem apresentados e o caso puder subir até o Supremo, as famílias continuarão aguardando. Vinte anos após a tragédia, o luto segue suspenso pela morosidade da Justiça.
Notable Quotes
Por causa dessa pendência, a gente não tem paz para encerrar a dor. É uma questão de justiça que não se esclareceu— Eulália Machado de Carvalho, viúva de vítima do voo 1907
É um processo complexo, mas não justifica a demora— Bárbara Tuira de Sousa Soares, advogada das famílias