Alimentos respondem por metade da inflação, a maior para maio desde 2008
Em maio de 2026, a inflação brasileira deu um passo atrás no ritmo mensal, mas revelou um avanço preocupante quando se olha o horizonte completo: os últimos doze meses acumulam 4,72% de alta, ultrapassando pela primeira vez desde outubro de 2025 o teto do sistema de metas. O alimento — bem mais essencial e mais visível do que qualquer índice — lidera essa pressão com a maior alta para maio em dezoito anos, lembrando que a economia não é apenas um número, mas a experiência cotidiana de milhões de famílias diante de uma prateleira de supermercado.
- O IPCA de maio recuou para 0,58%, mas o acumulado anual de 4,72% rompeu o teto de tolerância de 4,5%, sinalizando que o alívio mensal é ilusório diante da trajetória mais longa.
- Alimentos no domicílio subiram 1,65% em maio — a maior alta para o mês desde 2008 — e sozinhos responderam por metade de toda a inflação do período, comprimindo o orçamento das famílias.
- Projeções indicam que a inflação encerrará 2026 entre 5% e 5,5%, com alimentos podendo acumular alta de 7,5% no ano, impulsionados pelos custos da guerra no Oriente Médio e pelo risco de um forte El Niño.
- O espaço para cortes na Selic encolhe: a taxa básica de 14,5% ao ano deve cair no máximo a 13,5% até dezembro, e o Copom pode anunciar uma pausa nos cortes já na reunião da próxima semana.
- Em ano eleitoral, a distância entre os índices oficiais e a 'inflação do supermercado' sentida pelos consumidores ganha dimensão política, tornando o preço dos alimentos um termômetro social tão relevante quanto econômico.
A inflação de maio trouxe um alívio superficial: o IPCA subiu 0,58%, menos do que os 0,67% de abril. Mas o recuo mensal esconde um quadro mais grave. Nos últimos doze meses, os preços acumularam alta de 4,72% — o maior índice para maio desde 2021 e, pela primeira vez desde outubro de 2025, acima do teto de tolerância de 4,5% do sistema de metas.
O principal responsável por esse desconforto tem nome claro: alimentos. Os preços dos itens consumidos em casa subiram 1,65% em maio, a maior variação para esse mês desde 2008. Esse grupo isolado respondeu por metade de toda a inflação do período, e a pressão não deve arrefecer tão cedo. O economista Fábio Romão, da consultoria 4intelligence, projeta que os alimentos acumularão alta de 7,5% em 2026 — um salto expressivo frente à alta de 1,4% registrada em 2025 e próximo dos 8,23% de 2024. Entre as causas, ele aponta os reflexos da guerra no Oriente Médio sobre combustíveis e fertilizantes, além dos impactos esperados de um forte El Niño no segundo semestre.
O cenário à frente é de pressão persistente. Mesmo que junho desacelere para cerca de 0,25%, o acumulado do ano deve fechar entre 5% e 5,5% — bem além do limite permitido. Essa perspectiva estreita o caminho do Copom: a Selic, hoje em 14,5% ao ano, deve cair no máximo a 13,5% até dezembro, e há expectativa crescente de uma pausa nos cortes já na próxima reunião do comitê.
Há ainda uma dimensão que os números não capturam completamente. Em um ano eleitoral, a diferença entre a inflação oficial e a 'inflação do supermercado' — aquela que o consumidor vê e sente ao encher o carrinho — ganha peso político. Para as famílias brasileiras, o que importa não é apenas o índice que os economistas acompanham, mas o quanto sobra no bolso ao fim do mês.
A inflação respirou em maio, mas apenas um pouco. O IPCA — o índice que mede a variação de preços ao consumidor — subiu 0,58% no mês, uma queda em relação aos 0,67% de abril. Parecia alívio. Mas quando se olha para trás, para os últimos doze meses, o quadro muda de cor: 4,72% de alta acumulada. Esse número é o maior registrado para o mês de maio desde 2021, e pela primeira vez desde outubro de 2025, ultrapassou o teto de tolerância do sistema de metas de inflação, que é 4,5%.
O que vem pela frente não promete ser melhor. As projeções dos analistas apontam para uma trajetória de preços pressionados até o fim de 2026. Espera-se que junho mostre desaceleração, com alta de apenas 0,25%, e que esse ritmo mais lento se mantenha mês a mês. Ainda assim, quando se acumula tudo, a inflação deve fechar o ano entre 5% e 5,5% — bem acima do teto permitido. Essa perspectiva tem consequências diretas na política de juros. O Copom, comitê que define a taxa básica de juros (Selic), vê seu espaço para redução de taxas encolher significativamente. A Selic está em 14,5% ao ano. Segundo a expectativa média dos analistas, ela pode cair no máximo 1 ponto percentual até o fim de 2026, chegando a 13,5%. Há até expectativa crescente de que o Copom faça uma pausa nos cortes já na reunião da próxima semana.
Mas o vilão da história, aquele que mais aperta o bolso das famílias, tem nome: alimentos. Em maio, os preços de alimentos no domicílio subiram 1,65% — a maior alta para esse mês desde 2008, há dezoito anos. Esse aumento sozinho respondeu por metade de toda a inflação do mês. E a sensação de desconforto no orçamento doméstico não deve passar tão cedo.
Fábio Romão, economista especialista em acompanhamento de preços na consultoria 4intelligence, projeta que os alimentos continuarão pressionando até o fim do ano. Ele prevê deflação em julho e agosto, altas moderadas em setembro e outubro, e elevações mais fortes em novembro e dezembro. Sua estimativa para a inflação de alimentos em 2026 subiu de 3,3% — projeção feita até fevereiro — para 7,5%. É um salto considerável comparado com a alta de 1,4% em 2025 e um retorno aos patamares de 2024, quando alimentos subiram 8,23%.
Romão aponta as causas: os efeitos diretos da guerra no Oriente Médio nos custos de produção, afetando combustíveis e fertilizantes, que depois se propagam pela cadeia de distribuição e logística. Somam-se a isso os impactos esperados de um forte El Niño, principalmente no fim do ano. Essas pressões transformam o que era uma projeção de alta moderada em uma perspectiva bem mais severa.
Há uma distinção importante aqui entre dois tipos de inflação. A inflação oficial, medida pelos índices de preços, captura as variações ponderadas pelo peso de cada item no conjunto. Já a "inflação do supermercado" — tecnicamente imprecisa, mas poderosa na percepção das pessoas — é simplesmente o que o consumidor vê quando entra em um supermercado ou feira livre. Os preços dos alimentos dominam essa percepção. E em um ano eleitoral como 2026, essa diferença entre números oficiais e sensação real ganha peso político. As famílias brasileiras vão sentir a pressão no orçamento até o fim do ano, e essa sensação pode ser tão importante quanto os números que os economistas acompanham.
Notable Quotes
Os efeitos diretos da guerra no Oriente Médio nos custos de produção, afetando combustíveis e fertilizantes, seguidos pelos impactos do esperado forte El Niño, permitem prever essa virada altista— Fábio Romão, especialista em acompanhamento de preços da consultoria 4intelligence
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que a inflação de maio parecia boa, mas na verdade não era?
Porque maio isolado — 0,58% — realmente caiu em relação a abril. Mas quando você olha para trás doze meses, vê que acumulou 4,72%, ultrapassando o teto permitido. É como dizer que a febre baixou um grau, mas o paciente ainda está acima da temperatura normal.
E por que alimentos são tão importantes nessa história?
Alimentos respondem por metade da inflação de maio. Mas além disso, são o que as pessoas veem todo dia. Quando o preço da carne, do arroz, do leite sobe, as famílias sentem na hora. Não é um número abstrato.
Qual é o impacto na taxa de juros?
Se a inflação fica acima do teto, o Banco Central tem menos espaço para cortar juros. A Selic pode cair apenas 1 ponto percentual até o fim do ano, em vez de mais. Isso mantém o custo do crédito alto para as pessoas e empresas.
O que explica essa pressão nos alimentos?
A guerra no Oriente Médio afeta combustíveis e fertilizantes. Depois disso se propaga pela logística. E há a expectativa de um El Niño forte no fim do ano, que afeta a produção. Tudo junto cria uma tempestade de custos.
Isso vai melhorar antes do fim do ano?
Não. As projeções mostram deflação em julho e agosto — uma pequena pausa — mas depois altas mais fortes em novembro e dezembro. O desconforto no orçamento das famílias vai se manter.