Vídeos revelam fragilidade em abrigo onde vivia suspeito de morte na Trensurb

Daniel Thiesen Pinheiro, 17 anos, foi morto com dois golpes de canivete no pescoço ao tentar recuperar seu celular roubado na estação da Trensurb.
Adolescentes escalavam as grades sem aguardar, como se o muro fosse apenas cenário
Vídeos exclusivos revelam o descontrole total no acesso à casa de acolhimento onde vivia o suspeito.
Mark

O que exatamente os vídeos mostram? É só adolescentes pulando grades, ou há mais?

Mimi

Os vídeos mostram adolescentes escalando grades para entrar e sair da casa de acolhimento sem autorização. Mas também há imagens do casal envolvido na morte de Daniel em uma parada de ônibus horas antes do crime. E há registro de um homem com tornozeleira eletrônica conversando com os adolescentes dentro da unidade.

Luke

Espera — um apenado adulto dentro de um abrigo para menores? Como isso acontece? Isso está documentado nos vídeos ou é relato de testemunha?

Mimi

Está nos vídeos. Mas o ponto maior é que o promotor viu essas imagens e as chamou de "absurdas". Ele já havia pedido a interdição da unidade três vezes desde abril.

Mark

Por que o promotor pediu interdição? Só pelos vídeos, ou havia outras razões?

Mimi

Ele constatou que adolescentes com infrações graves estavam sendo enviados diretamente do sistema de internação para esse abrigo, quando deveriam passar por semi-internações primeiro. O rapaz apreendido pela morte de Daniel é exatamente esse caso — saiu de internação na Fase e foi direto para o abrigo.

Luke

Mas a Fundação de Proteção Especial diz que registra essas saídas não autorizadas em Boletins de Ocorrência de Evasão e informa aos órgãos legais. Se isso é verdade, por que o promotor não viu esses registros antes de pedir a interdição?

Mimi

Boa pergunta. O promotor fez inspeção e viu o descontrole com seus próprios olhos. Mas a fundação argumenta que não pode impor confinamento porque o acolhimento institucional não admite privação de liberdade — é diferente do sistema socioeducativo.

Mark

Então a lei permite que adolescentes com histórico de infrações graves circulem livremente em um abrigo?

Mimi

Tecnicamente, sim. O Estatuto da Criança e do Adolescente garante liberdade e dignidade aos acolhidos. Mas o promotor diz que o perfil desses adolescentes é inadequado para esse tipo de abrigo, que deveria ser para crianças em risco pessoal, não para infratores graves.

Luke

E a Justiça? Já se pronunciou sobre o pedido de interdição?

Mimi

Não. Ainda está pendente. Enquanto isso, Daniel Thiesen Pinheiro está morto.

  • Vídeos exclusivos mostram adolescentes escalando grades de uma casa de acolhimento sem qualquer controle, expondo um colapso silencioso nas regras que deveriam reger o espaço.
  • Um homem com tornozeleira eletrônica aparece nas imagens conversando com os jovens dentro da unidade — uma cena que o promotor responsável pela fiscalização classificou como 'absurda'.
  • O suspeito de matar Daniel tinha histórico de tráfico, ameaças e lesão corporal, e foi enviado diretamente do centro de internação para o abrigo, pulando etapas obrigatórias de abrandamento das medidas socioeducativas.
  • O promotor João Paulo Fontoura de Medeiros pediu a interdição da unidade três vezes desde abril — e a Justiça ainda não se pronunciou, deixando o caso em suspenso enquanto o debate sobre responsabilidade institucional se acirra.

Em uma estação de metrô na Região Metropolitana gaúcha, a morte de um jovem de 17 anos com dois golpes de canivete revelou não apenas um crime, mas a fragilidade de um sistema inteiro. O suspeito vivia em uma casa de acolhimento onde adolescentes escalavam grades livremente, onde regras existiam no papel mas não na prática — e onde o Estado, encarregado de proteger os vulneráveis, parece ter perdido o fio entre proteção e responsabilidade. A tragédia de Daniel Thiesen Pinheiro coloca diante da sociedade uma pergunta que não se resolve com interdições: como um lugar destinado ao cuidado pode se tornar passagem livre para o descuido?

As imagens chegaram como prova de um sistema em colapso: adolescentes escalando grades de uma casa de acolhimento na Região Metropolitana, entrando e saindo sem controle, como se as regras fossem apenas cenário. Foi nesse ambiente que vivia o jovem de 16 anos apreendido pela morte de Daniel Thiesen Pinheiro, 17 anos, esfaqueado no pescoço em 2 de maio na estação da Trensurb ao tentar recuperar o celular que lhe havia sido arrancado das mãos.

O suspeito tinha histórico de infrações graves — tráfico de drogas, ameaças, lesão corporal contra familiar — e havia cumprido internação na Fundação de Atendimento Socioeducativo. Ao sair, voltou para o abrigo por não ter casa nem vínculos familiares. O problema, segundo o promotor da Infância e Juventude João Paulo Fontoura de Medeiros, é que ele nunca deveria ter chegado ali diretamente: adolescentes com perfil infracional grave precisariam passar por etapas graduais de semi-internação antes de serem encaminhados a um abrigo de proteção.

Os vídeos obtidos com exclusividade mostram mais do que saídas não autorizadas: revelam um homem com tornozeleira eletrônica circulando entre os jovens, moradores relatam roubos praticados por acolhidos que retornavam ao abrigo após os atos, e uma testemunha afirmou ter visto um grupo esconder uma faca nos arbustos da própria unidade. A Fundação de Proteção Especial, gestora do espaço, respondeu reafirmando que opera dentro dos parâmetros legais e que registra evasões em boletins de ocorrência — mas o promotor pediu a interdição três vezes desde abril, sem resposta da Justiça até agora.

Medeiros ressalta que, dos 11 abrigos que fiscaliza, apenas dois apresentam esse nível de descontrole — e um já foi interditado. Mas a morte de Daniel permanece como evidência de que algo falhou não apenas no dia do crime, mas nos meses anteriores, quando um adolescente com histórico grave circulava livremente por grades que qualquer um podia escalar.

As imagens chegaram às mãos de Zero Hora como prova de um sistema que não estava funcionando. Adolescentes escalavam grades de uma casa de acolhimento na Região Metropolitana, entrando e saindo sem qualquer controle, como se o muro que deveria protegê-los fosse apenas um cenário. Esses vídeos e fotos mostram o que ninguém queria ver: a fragilidade de um lugar destinado a abrigar crianças e adolescentes em situação de risco pessoal, ameaçadas ou abandonadas.

O rapaz de 16 anos apreendido pela morte de Daniel Thiesen Pinheiro, 17 anos, vivia naquele abrigo. Daniel foi morto com dois golpes de canivete no pescoço no dia 2 de maio, na estação da Trensurb, quando tentava recuperar seu celular que lhe havia sido arrancado das mãos. O suspeito estava acompanhado de uma namorada, também apreendida, horas antes do crime. As imagens obtidas com exclusividade mostram o casal em uma parada de ônibus naquele dia. O adolescente tinha registros anteriores por fatos análogos a tráfico de drogas, ameaças e lesão corporal contra um familiar.

A casa de acolhimento faz parte do Núcleo de Abrigos Residenciais, gerenciado pela Fundação de Proteção Especial, ligada à Secretaria de Desenvolvimento Social do Estado. Nesses locais, os jovens têm liberdade de ir e vir, mas estão sujeitos a regras: tomar banho, estudar, voltar após os passeios. O que os vídeos revelam é que essas regras não existiam na prática. Um dos registros mostra até um homem com tornozeleira eletrônica, um apenado adulto, conversando com os adolescentes dentro da unidade. Pessoas da comunidade próxima descrevem roubos praticados por alguns dos jovens ali abrigados, que retornavam ao abrigo após os atos. Uma testemunha afirmou ter visto um grupo esconder uma faca em arbustos da própria casa de acolhimento.

O adolescente apreendido havia cumprido um período de internação em uma unidade da Fundação de Atendimento Socioeducativo por ato infracional análogo a tráfico. Quando saiu, voltou para o abrigo porque não tinha casa nem relação com familiares. Esse é o ponto que preocupa o promotor da Infância e Juventude João Paulo Fontoura de Medeiros, responsável pela fiscalização de 11 casas de acolhimento nessa região. Ele constatou que adolescentes internados por infrações graves em centros de internação da Fase estavam sendo enviados diretamente para o abrigo, quando deveriam passar por semi-internações, um abrandamento gradual das medidas socioeducativas. Em abril, Medeiros pediu a interdição da unidade. Renovou o pedido duas vezes, em abril e em maio. "Fiz inspeção e deparei ali com jovens de perfil infracional grave, inadequado para a proposta do abrigo", disse o promotor. "Soube que descumpriam alguns deveres, entravam e saíam da casa sem controle, para desconentamento dos próprios funcionários."

Medeiros considera bom o sistema de acolhimento em geral e salienta que, de 11 abrigos que fiscaliza, apenas dois apresentam esse tipo de descontrole. Um deles já foi interditado. Mas a situação que os vídeos mostram ele considera "absurda". A Fundação de Proteção Especial respondeu às acusações com um comunicado extenso, reafirmando que suas unidades operam dentro dos parâmetros legais do Estatuto da Criança e do Adolescente. A fundação argumenta que não exerce função socioeducativa ou de restrição de liberdade, mas sim de proteção, cuidado e reinserção social. Afirma que todos os acolhidos estão regularmente matriculados na rede pública de ensino e que a instituição desenvolve acompanhamento psicológico, social e pedagógico contínuo. Sobre as saídas não autorizadas, a fundação diz que registra essas condutas em Boletins de Ocorrência de Evasão, informando aos órgãos legais.

O que permanece em aberto é a decisão da Justiça sobre o pedido de interdição. Enquanto isso, a morte de Daniel Thiesen Pinheiro permanece como evidência de que algo não funcionou naquele abrigo — não apenas no momento do crime, mas nos meses anteriores, quando um adolescente com histórico de infrações graves circulava livremente, entrando e saindo por grades que qualquer um podia escalar.

Fiz inspeção e deparei ali com jovens de perfil infracional grave, inadequado para a proposta do abrigo. Soube que descumpriam alguns deveres, entravam e saíam da casa sem controle, para desconentamento dos próprios funcionários.
— Promotor da Infância e Juventude João Paulo Fontoura de Medeiros
A FPE não exerce função socioeducativa ou de restrição de liberdade, mas sim de proteção, cuidado e reinserção social
— Fundação de Proteção Especial, em comunicado
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